quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Montagem Desconstrói Estereótipo de Goebbels - Entrevista com Lutz Hachmeister (Ilustrada)

São Paulo, segunda-feira, 14 de março de 2005


Trajetória do ministro nazista é recontada a partir de seus "Diários"

CINEMA
JOSÉ GALISI FILHO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE BERLIM

Narrado pelo ator Kenneth Brannagh, na versão inglesa, e pelo alemão Udo Samel, "O Experimento Goebbels" reconstrói a carreira multimídia do criador do "Mito do Führer" e se baseia no livro homônimo do inglês Lord George Weindelfeld, de 1942.
Depois da tomada de poder pelos nazistas em 1933, Goebbels assumiu a pasta da Propaganda, mas permaneceu sempre um "outsider" por sua origem intelectual. Em 1938, depois do assassinato de um diplomata alemão em Paris, ordenou a "Noite dos Cristais", na qual foram incineradas todas as sinagogas na Alemanha. O ápice de sua carreira é o célebre discurso radiofônico de 18 de fevereiro de 1943, no Berliner Sportpalast, duas semanas depois da capitulação do 6º Exército do general Paulus em Stalingrado.
Nele, incita a Alemanha à "guerra total", uma cruzada de extermínio contra o bolchevismo soviético e, sobretudo, pela "solução final da questão judaica", deliberada na Conferência de Wannsee, em janeiro de 1942, no qual se estabeleceram as cotas de extermínio de todos os judeus europeus de Portugal até a Ucrânia.
Goebbels representaria uma "modernidade específica" no nacional-socialismo, que mobiliza a totalidade do aparelho midiático num misto de mitologia e estratégia moderna de comunicação política. A montagem, segundo Hachmeister, pressupõe um "espectador esclarecido ideal", para quem o efeito desta voz não oferece o perigo de uma propaganda duplicada. "Não preciso explicar nada ao público", afirma Hachmeister, "qualquer pessoa bem informada percebe que a figura que está falando é um completo esquizofrênico".
Leia abaixo trechos da entrevista que o diretor Lutz Hachmeister deu à Folha, por telefone. (JOSÉ GALISI FILHO)

Folha - A crítica vem considerando seu "experimento" uma tentativa arriscada de narrar o mundo com os olhos de um alucinado. Qual é a nova imagem de Goebbels que surge de seus "Diários"?

Lutz Hachmesiter - A perspectiva que eu e Michael Klopt escolhemos obriga o público a se confrontar com a figura ofuscada pelo estereótipo do propagandista. Goebbels criou uma mitologia que sobreviveu ao Terceiro Reich. Num sentido bastante específico, ele é uma das poucas figuras que representa uma certa modernidade, realizando um monstruoso experimento coletivo.
O meu objetivo é mostrar que, por trás do mito de um controle absoluto da informação, os "Diários" revelam uma figura humana bem diferente, uma personalidade oscilante psicótica maníaca-depressiva, e essa mistura de confissões sinceras desmente a crença de que ele tenha sido desde sempre um propagandista.
Originário de uma família católica pequeno-burguesa da Renânia, ele sonhava em ser escritor e um político radical "socialista popular" e, apenas num segundo plano, realizar propaganda. Nos diários, vemos que ele duvida de uma guerra de dois fronts e deseja a paz em separado com Stálin.
Goebbels sabia que a decisão pelo extermínio dos judeus era um caminho sem volta e então trata de encenar o próprio colapso. Quando ele fala da deportação dos judeus, mostramos imagens das praias de Wannsee, em 1942, num dia de sol. Nesta aparente Berlim idílica acreditamos criar um efeito muito mais sinistro do que mostrar as deportações, exaustivamente repetidas.

Folha - Como o sr. avalia o sucesso de público de "A Queda", indicado para o Oscar?

Hachmeister - É um filme de entretenimento muito competente, amparado numa boa estratégia de marketing, com edição de capa da "Spiegel" e não se pode dizer que ele não cumpra a promessa de oferecer ao público boa diversão por duas horas, mas é pouco sofisticado e unidimensional e dois ou três dias depois nos pergutamos o que sobrou.

Folha - Os útimos anos foram marcados por um "boom" de séries televisivas sobre o período, com forte apelo melodramático. Essa overdose visual favorece ou prejudica a relação com a história?

Hachmeister - Vejo o perigo de que as imagens se neutralizem. São sempre as mesmas. Esta fórmula se esgotou e os produtores têm procurado novos caminhos, como a reconstrução da história da República Democrática Alemã ou da história do futebol.

Folha - Os governos hoje não conseguem mais vender guerras como antes, como é o exemplo do Iraque de George W. Bush?


Hachmeister - Guerras não podem ser ganhas apenas com propaganda, mas militarmente. A fascinação do público pelo horror faz do gênero um produto estável, pois, no filme de guerra, você não precisa lutar, mas participa como "voyeur", daí sua catarse psiquíca. Goebbels. Goebbels sabia que a manipulação tinha limite: ela não muda a realidade militar. A guerra não foi perdida na propaganda, mas militarmente. O que acho da máxima atualidade é que hoje os políticos acreditam muito na propaganda e no efeito medial de suas auto-encenações e muito pouco na política.

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