quarta-feira, 7 de março de 2012

"Primatemaia Disseminada" - Cachorros de Palha - John Gray- Parte 1 - O Humano












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CIÊNCIA VERSUS HUMANISMO

Atualmente, a maior parte das pessoas pensa que pertence a uma espécie que pode ser senhora de seu destino. Isso é fé, não ciência. Não falamos de um tempo em que as baleias ou os gorilas serão senhores de seus destinos. Por que então os humanos?
Não precisamos de Darwin para perceber que nos parecemos com os outros animais. Basta observar um pouco nossas vidas para sermos levados à mesma conclusão. No entanto, como a ciência tem hoje uma autoridade com a qual a experiência comum não pode rivalizar, observemos o ensinamento de Darwin de que as espécies são apenas aglomerados de genes interagindo aleatoriamente uns com os outros e com seus ambientes em permanente mudança. Espécies não podem controlar seus destinos. Espécies não existem. Isso se aplica igualmente aos humanos. No entanto é esquecido sempre que as pessoas falam sobre "o progresso da humanidade". Elas depositaram sua fé numa abstração que ninguém pensaria em levar a sério se não fosse formada por restos de esperanças cristãs descartadas.

Se a descoberta de Darwin tivesse sido feita numa cultura taoísta ou xintoísta, hinduísta ou animista, muito provavelmente teria se tornado apenas um fio a mais no entrelaçado de suas mitologias. Nessas crenças, os humanos e os outros animais são afins. Ao contrário, tendo surgido entre cristãos que punham os humanos acima de todas as outras coisas vivas, o trabalho de Darwin desencadeou uma ácida controvérsia que grassa, furiosamente, até os dias de hoje. Nos tempos vitorianos, esse era um conflito entre cristãos e incréus. Hoje é entre humanistas e os poucos que compreendem que os humanos, não mais do que qualquer outro animal, não podem ser senhores de seu destino.
Humanismo pode significar muitas coisas, mas para nós significa crença no progresso. Acreditar no progresso é acreditar que, usando os novos poderes que nos são propiciados pelo crescente conhecimento científico, os humanos podem se libertar dos limites que constrangem a vida de outros animais. Essa é a esperança de praticamente todo mundo hoje em dia, mas não tem fundamento. Pois, embora o conhecimento humano muito provavelmente continue a crescer e com ele o poder humano, o animal humano permanecerá o mesmo: uma espécie altamente inventiva que também é uma das mais predadoras e destrutivas.

Darwin mostrou que os humanos são como os outros animais, e os humanistas afirmam que não. Os humanistas insistem em que, usando nosso conhecimento, podemos controlar nosso ambiente e florescer como nunca. Ao afirmar isso, renovam uma das mais dúbias promessas do cristianismo — que a salvação está ao alcance de todos. A crença humanista no progresso é apenas uma versão secular dessa fé cristã.

No mundo apresentado por Darwin não há nada que possa ser chamado progresso. Para qualquer um criado à base de esperanças humanistas, isso é intolerável. Como resultado, o ensinamento de Darwin foi virado de cabeça para baixo, e o pecado capital do cristianismo — que os humanos são diferentes de todos os outros animais — ganhou novo alento de vida.





2
A MIRAGEM DA EVOLUÇÃO CONSCIENTE

Os humanos são as mais adventícias das criaturas — um resultado da flutuação aleatória de mudanças evolutivas. Ainda assim, com o poder da engenharia genética, não temos mais que ser governados pelo acaso. A humanidade — assim nos dizem — pode moldar seu próprio futuro.
De acordo com E. O. Wilson, o controle consciente da evolução humana é não apenas possível, mas inevitável:

(...) a evolução genética está prestes a se tornar consciente e volitiva, e inaugurar uma nova época na história da vida. (...) A possibilidade dessa "evolução volitiva" — uma espécie decidindo o que fazer a respeito de sua própria hereditariedade — apresentará à humanidade as mais profundas escolhas intelectuais e éticas com as quais já se defrontou (...). Como um deus, a humanidade estará na posição de assumir o controle de seu destino último. Ela pode, se assim quiser, alterar não apenas a anatomia e a inteligência da espécie, mas também as emoções e o impulso criativo que compõem o próprio cerne da natureza humana.


O autor dessa passagem é o maior darwinista contemporâneo. Ele tem sido atacado por biólogos e cientistas sociais que acreditam que a espécie humana não é governada pelas mesmas leis que governam os animais. Nessa guerra, Wilson está, sem dúvida, do lado da verdade. Ainda assim, a possibilidade da evolução humana consciente que ele evoca é uma miragem.

A idéia de a humanidade tomar seu destino nas próprias mãos somente faz sentido se atribuirmos consciência e propósito à espécie; mas a descoberta de Darwin foi que as espécies são apenas correntes na flutuação aleatória dos genes. A idéia de que a humanidade possa moldar seu futuro presume que esteja isenta dessa verdade.
Parece factível que, ao longo do próximo século, a natureza humana seja cientificamente remodelada. Se assim for, será feito ao acaso, como resultado final de lutas travadas no terreno sombrio onde os grandes negócios, o crime organizado e as faces ocultas do governo competem pelo controle.

Se a espécie humana passar por uma reengenharia, não há de ser porque a humanidade, atuando como um deus, terá assumido o controle de seu destino. Será uma outra guinada no destino do homem.


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PRIMATEMAIA DISSEMINADA

De acordo com James Lovelock, os humanos na Terra comportam-se, de alguma maneira, como um organismo patogênico ou como as células de um tumor ou neoplasma. Crescemos em número e em transtornos para Gaia a ponto de nossa presença ser perceptivelmente inquietante (...) a espécie humana é agora tão numerosa que constitui uma séria moléstia planetária. Gaia está sofrendo de Primatemaia Disseminada, uma praga de gente.


Há aproximadamente 65 milhões de anos, os dinossauros e três quartos de todas as outras espécies subitamente pereceram. A causa é controvertida, mas muitos cientistas acreditam que a extinção em massa tenha sido o resultado da colisão de um meteoro com a Terra. As espécies atuais estão desaparecendo a uma taxa destinada a suplantar a daquela última grande extinção. A causa não é nenhuma catástrofe cósmica. Como diz Lovelock, é uma praga de gente.

"O lance de dados de Darwin não foi favorável à Terra", observa Wilson. A jogada de sorte que trouxe a espécie humana ao seu poder atual implicou a ruína para outras incontáveis formas de vida. Quando os humanos chegaram ao Novo Mundo, há cerca de 12 mil anos, o continente abundava em mamutes, mastodontes, camelos, gigantescas preguiças terrestres e dúzias de espécies similares. A maior parte dessas espécies nativas foi perseguida até a extinção. Segundo Diamond, a América do Norte perdeu cerca de 70% de seus grandes mamíferos, e a América do Sul, 80%.

A destruição do mundo natural não é o resultado do capitalismo global, da industrialização, da "civilização ocidental" ou de quaisquer falhas em instituições humanas. É a conseqüência do sucesso evolucionário de um primata excepcionalmente rapace. Ao longo de toda a história e pré-história, o avanço humano coincidiu com a devastação ecológica.
E verdade que uns poucos povos tradicionais viveram em equilíbrio com a Terra por longos períodos. Os inuits e os bosquímanos tropeçavam de leve nos modos de vida com os quais se deparavam. Nós não podemos caminhar sobre a Terra assim tão delicadamente. O Homo rapiens tornou-se numeroso demais.

O estudo das populações não é uma ciência muito exata. Ninguém antecipou o colapso populacional que está ocorrendo na Rússia européia pós-comunista, nem a escala da queda de fertilidade que está ocorrendo em muitas partes do mundo. E grande a margem de erro em cálculos de fertilidade e expectativa de vida. Mesmo assim, é inevitável um outro grande crescimento.
Como Morrison observa, "mesmo se considerarmos uma taxa de natalidade declinante, devido a fatores sociais, e uma taxa de mortalidade crescente, devido a fome, doença e genocídio, os atuais mais de seis bilhões que compõem a população global serão pelo menos 1,2 bilhão a mais por volta de 2050".

Uma população humana aproximando-se dos oito bilhões só pode ser mantida devastando a Terra. Se habitats selvagens passarem a ser usados para cultivo humano e habitação, se as florestas tropicais puderem ser transformadas em desertos verdes, se a engenharia genética possibilitar colheitas cada vez mais abundantes a serem extraídas de solos cada vez mais debilitados, então os humanos terão criado para si mesmos uma nova era geológica, a Eremozóica, a Idade da Solidão, na qual pouco restará sobre a Terra além deles mesmos e do meio ambiente protético que os mantém vivos.

É uma visão aterradora, mas é apenas um pesadelo. Ou os próprios mecanismos auto-reguladores da Terra tornarão o planeta menos habitável para os humanos ou os efeitos colaterais de suas próprias atividades abreviarão o atual crescimento de seu número.

Lovelock sugere quatro possíveis conseqüências da primatemaia disseminada: "destruição dos organismos patogênicos invasores; infecção crônica; destruição do hospedeiro, ou simbiose — uma duradoura relação de benefício mútuo entre o hospedeiro e o invasor".

Das quatro conseqüências, a última é a menos provável. A humanidade jamais iniciará uma simbiose com a Terra. Ainda assim, ela não destruirá seu planeta hospedeiro, o terceiro resultado possível de Lovelock. A biosfera é mais antiga e mais forte do que os humanos jamais o serão. Como escreve Margulis, "nenhuma cultura humana, a despeito de sua capacidade inventiva, pode matar a vida neste planeta, mesmo que tente".
Nem podem os humanos infestar cronicamente seu hospedeiro. É verdade que a atividade humana já está alterando o equilíbrio planetário. A produção de gases, resultando no efeito estufa, mudou irreversivelmente os ecossistemas globais. Com a industrialização de âmbito mundial, tais mudanças podem apenas acelerar.
No cenário mais catastrófico possível com o qual alguns cientistas estão trabalhando seriamente, a mudança climática pode destruir completamente países litorâneos densamente povoados, como Bangladesh, e desencadear perdas agrícolas em outras partes do planeta, anunciando desastres para bilhões de pessoas antes do final deste século.
A escala da mudança em curso não pode ser conhecida com certeza.
Num sistema caótico, nem mesmo o futuro próximo pode ser predito com exatidão. Ainda assim, parece provável que as condições de vida estejam mudando para grande parte da humanidade, com amplos segmentos enfrentando climas muito menos hospitaleiros. Como sugeriu Lovelock, a mudança climática pode ser um mecanismo através do qual o planeta se alivie de sua carga humana.
Como um efeito colateral de mudanças no clima, novos padrões de doenças poderiam reduzir a população humana. Nossos corpos são comunidades de bactérias indissoluvelmente ligadas a uma biosfera também constituída, em grande parte, de bactérias. A epidemiologia e a microbiologia são melhores guias para nosso futuro do que quaisquer de nossas esperanças ou de nossos planos.

A guerra poderia ter um impacto muito importante. Escrevendo na virada do século XIX, Thomas Malthus apontou a guerra como um dos modos — junto com fomes recorrentes — como população e recursos eram mantidos em equilíbrio. O argumento de Malthus foi satirizado no século XX por Leonard C. Lewin:

O homem, assim como todos os outros animais, está sujeito ao contínuo processo de adaptação às limitações de seu ambiente. Mas o principal mecanismo que tem utilizado para esse propósito é único entre as criaturas vivas.
Para impedir a ocorrência dos inevitáveis ciclos históricos de oferta inadequada de alimento, o homem pós-neolítico destrói o excesso de membros de sua própria espécie recorrendo a guerras planejadas.

A ironia está fora de lugar. A guerra raramente tem resultado em qualquer redução de longo prazo no número de humanos. Ainda assim, hoje seu impacto poderia ser considerável. Nào é apenas que armas de destruição em massa — especialmente as biológicas e (em breve) as genéticas — sejam mais temíveis do que antes. Mais do que isso, é provável que seu impacto sobre os sistemas de apoio à vida na sociedade humana seja maior. Um mundo globalizado é uma construção delicada. Uma população incomparavelmente maior do que qualquer outra depende de redes de suprimento muito amplas, e qualquer guerra numa escala como a dos maiores conflitos ocorridos no século XX poderia ter o efeito de selecionar e eliminar partes da população da maneira descrita por Malthus.

Em 1600 a população humana era de cerca de meio bilhão. Só na década de 1990, ela cresceu esse mesmo tanto. As pessoas que têm hoje mais de quarenta anos viveram um período em que a população humana do mundo dobrou. Para elas, é natural pensar que esses números serão mantidos. Natural, mas equivocado — a menos que os humanos sejam realmente diferentes de todos os outros animais.


O crescimento da população humana ocorrido durante os últimos poucos séculos é parecido, mais do que com qualquer outra coisa, com os picos que ocorreram nos tamanhos das populações de coelhos, camundongos e ratos. Como nos casos deles, só pode ter vida curta. A fertilidade já está caindo em muitas partes do mundo. Conforme observa Morrison, os humanos são iguais a outros animais quanto à maneira de reagir ao estresse.

Eles reagem à escassez e à superpopulação desligando o impulso reprodutivo:

Muitos outros animais parecem ter uma resposta hormonal compatível com o estresse ambiental, tendo seu metabolismo mudado para um modo mais econômico sempre que os recursos se tornam escassos. Inevitavelmente, os processos reprodutivos, com sua alta demanda de energia, são os primeiros a ser visados. (...) A assinatura hormonal que sinaliza esse processo (...) foi identificada em gorilas de planície vivendo em cativeiro e em mulheres.

Ao reagir ao estresse ambiental parando de se reproduzir, os humanos não estão sendo diferentes de nenhum outro mamífero.
O pico atual no crescimento de humanos pode chegar ao fim por diversas razões — mudança climática, novos padrões de doenças, efeitos colaterais de guerra, uma espiral descendente na taxa de natalidade ou uma mistura desses e de outros fatores ainda desconhecidos. O que quer que produza esse fim, é uma aberração:


(...) se a praga humana é realmente tão normal quanto parece, então a curva descendente deve espelhar a curva de crescimento da população. Isso significa que o grosso do colapso não levará mais que cem anos, e, por volta do ano 2150, a biosfera deverá ter voltado, com segurança, à sua população de Homo sapiens pré-praga — algo entre meio e um bilhão.



Os humanos são como qualquer outra praga animal. Não podem destruir a Terra, mas podem facilmente danificar o ambiente que os sustenta. A conseqüência mais provável entre as quatro mencionadas por Lovelock é uma versão da primeira, na qual a prímatemaia disseminada é curada por uma queda, em grande escala, no número de humanos.


4
POR QUE A HUMANIDADE NUNCA DOMINARÁ A TECNOLOGIA

"Humanidade" não existe. Existem apenas humanos, impulsionados por necessidades e ilusões conflitivas e sujeitos a todo tipo de condições debilitantes da vontade e do julgamento.


Atualmente existem quase duzentos Estados soberanos no mundo. A maior parte é instável, oscilando entre uma democracia frágil e uma tirania frágil; muitos estão corroídos pela corrupção ou controlados pelo crime organizado; regiões inteiras do mundo — muito da Africa, do sul da Ásia, Rússia, os Bálcãs e o Cáucaso, e partes da América do Sul — abrigam Estados desgastados ou desmoronados.
Ao mesmo tempo, os Estados mais poderosos do mundo — Estados Unidos, China e Japão — não aceitarão nenhuma limitação fundamental a sua soberania. São ciumentos de sua liberdade de ação, especialmente, no mínimo, porque foram inimigos no passado e sabem que podem voltar a ser inimigos no futuro.

Não obstante, não é o número de Estados soberanos que torna a tecnologia ingovernável. É a própria tecnologia. A habilidade de criar novos vírus para uso em armas genocidas não requer enormes recursos em termos de dinheiro, instalações ou equipamentos. As novas tecnologias de destruição em massa são baratas; o conhecimento incorporado é gratuito. E impossível impedir que se tornem cada vez mais facilmente disponíveis.
Segundo Bill Joy, um dos pioneiros das novas tecnologias de informação, as tecnologias do século XXI — genéticas, nanotecnologias e robótica — são tão poderosas que podem engendrar tipos inteiramente novos de acidentes e mau uso.
Mais perigosamente ainda, e pela primeira vez, esses acidentes e abusos estão amplamente ao alcance de indivíduos ou pequenos grupos. Não requererão grandes instalações nem matérias-primas raras. Bastará o conhecimento para possibilitar seu uso. Assim, temos a possibilidade não apenas de armas de destruição em massa, mas de destruição em massa viabilizada pelo conhecimento, sendo sua destrutividade enormemente ampliada pelo poder de auto-replicação.


Em parte, os governos criaram essa situação. Ao ceder ao mercado tamanho controle sobre a nova tecnologia, conspiraram a favor de sua própria impotência. Ainda assim, a proliferação de novas armas de destruição em massa não resulta, em última instância, de erros na política. E uma conseqüência da difusão do conhecimento.
É impossível exercer controles sobre a tecnologia. A modificação genética de cultivos, animais ou humanos pode ser proibida em alguns países, mas avançará em outros. Os poderes mundiais podem jurar que a engenharia genética terá apenas usos benéficos, mas pode ser apenas uma questão de tempo tê-la usada para a guerra.
Talvez os Estados mais instáveis do mundo possam ser impedidos de adquirir capacidade nuclear. Mas como manter armas biológicas fora do alcance de forças que governo algum controla?
Se existe alguma coisa certa sobre este século, é esta: o poder conferido à "humanidade" pelas novas tecnologias será usado para cometer crimes atrozes contra ela. Se a clonagem de seres humanos se tornar possível, serão produzidos soldados nos quais as emoções humanas normais estarão podadas ou ausentes. A engenharia genética pode permitir que as doenças da velhice sejam erradicadas. Ao mesmo tempo, é provável que venha a ser a tecnologia predileta em futuros genocídios.


Os que ignoram o potencial destrutivo das novas tecnologias só o podem fazer porque ignoram a história. Os pogroms são tão velhos quanto a cristandade; mas sem estradas de ferro, telégrafo e gás venenoso não poderia ter havido nenhum Holocausto. Tiranias sempre existiram, mas sem modernos meios de transporte e comunicação Stalin e Mao não poderiam ter construído seus gulags. Os piores crimes da humanidade só foram possíveis devido à tecnologia moderna.


Existe uma razão mais profunda para dizer que a "humanidade" jamais controlará a tecnologia: a tecnologia não é algo que possa ser controlado pela humanidade. E um evento que calhou de acontecer ao mundo.
Uma vez que uma tecnologia entre na vida humana — seja ela o fogo, a roda, o automóvel, o rádio, a televisão ou a Internet —, a vida é transformada por ela de maneiras que nunca podemos compreender inteiramente. Os carros podem ter sido inventados para facilitar a movimentação, mas logo acabaram se transformando em materializações de desejos proibidos. De acordo com Illich, "o americano médio leva 1.600 horas para fazer 12 mil quilômetros: menos de sete quilômetros e meio por hora, não muito mais do que poderia cobrir com os próprios pés. O que é mais importante hoje: o uso dos carros como meios de transporte ou o seu uso como expressões de nossos anseios inconscientes por liberdade pessoal, expressão sexual e pela liberação final através de uma morte súbita?".

Nada é mais lugar-comum do que lamentar que o progresso moral não tenha conseguido acompanhar o conhecimento científico. Se pelo menos fôssemos mais inteligentes ou mais éticos, poderíamos usar a tecnologia somente para fins benéficos. A falta não está em nossas ferramentas, dizemos, mas em nós mesmos.
Em certo sentido, isso é verdade. O progresso técnico deixa apenas um problema a resolver: a fraqueza moral da natureza humana. Infelizmente, esse problema é insolúvel.

5
HUMANISMO VERDE

Os pensadores verdes entendem que os humanos não podem jamais ser senhores da Terra. Ainda assim, em sua batalha ludista contra a tecnologia, renovam a ilusão de que o mundo pode se tornar instrumento dos propósitos humanos. O que quer que digam, a maior parte dos pensadores verdes oferece apenas mais uma versão do humanismo, não uma alternativa a ele.

A tecnologia não é um artefato humano: é tão velha quanto a vida na Terra. Como nota Brian J. Ford, ela também existe no reino dos insetos:

O empreendimento realizado por algumas formigas-cortadeiras é semelhante ao cultivo agrícola. Elas escavam grandes ninhos subterrâneos que servem de habitação para a colônia. As trabalhadoras saem para coletar folhas, que cortam com suas mandíbulas e levam para o ninho.
Essas folhas são usadas para cultivar colônias de fungos, cujas enzimas podem digerir as paredes de celulose das células das folhas e torná-las adequadas para serem comidas pela colônia. (...) O jardim é vital para a sobrevivência das formigas; sem o contínuo trabalho de cultivar e alimentar os fungos, toda a colônia de formigas está condenada. Elas estão envolvidas em um empreendimento agrícola que mantêm sistematicamente.


As cidades são tão artificiais quanto colmeias. A Internet é tão natural quanto uma teia de aranha. Como escreveram Margulis e Sagan, nós próprios somos artifícios tecnológicos inventados por antigas comunidades de bactérias como forma de sobrevivência genética: "Somos uma parte numa intrincada rede que vem desde a tomada original da Terra pelas bactérias. Nossos poderes e inteligência não pertencem especificamente a nós, mas a toda a vida."
Pensar nossos corpos como naturais e nossas tecnologias como artificiais confere importância excessiva ao acidente de nossas origens. Se formos substituídos por máquinas, isso constituirá uma mudança evolutiva em nada diferente daquela em que bactérias se combinaram para criar nossos primeiros ancestrais.

O humanismo é uma doutrina de salvação — a crença de que a humanidade pode assumir a responsabilidade por seu destino. Entre os verdes, isso se tornou o ideal de a humanidade transformar-se no sábio curador encarregado de cuidar dos recursos do planeta. Mas, para qualquer um cujas esperanças não estejam centradas em sua própria espécie, a noção de que a ação humana pode salvar os humanos ou o planeta tem que parecer absurda. Eles sabem que o resultado final não está em mãos humanas. Eles agem assim não pela crença em que podem ser bem-sucedidos, mas por um instinto antigo.

Por muito de sua história e por toda a pré-história, os humanos não se viam em nada diferentes de outros animais entre os quais viviam. Caçadores-coletores viam suas caças como iguais, se não superiores, e animais eram cultuados como divindades em muitas culturas tradicionais. O senso humanista da existência de um abismo entre nós e outros animais é uma aberração. O normal é o sentimento animista de ser parte da natureza, assim como tudo o mais.
Por mais débil que se revele hoje, o sentimento de partilhar um destino comum com outras coisas vivas está entranhado na psique humana. Aqueles que lutam para conservar o que sobrou do meio ambiente são levados pelo amor às coisas vivas, biofilia, o frágil vínculo de sentimento que liga a humanidade à Terra.

A massa da humanidade é governada não por suas intermitentes sensações morais, menos ainda pelo auto-interesse, mas pelas necessidades do momento. Parece fadada a destruir o equilíbrio da vida na Terra — e, assim, ser o agente de sua própria destruição. O que poderia ser mais sem esperanças do que pôr a Terra aos cuidados dessa espécie notadamente destrutiva? Os amantes da Terra sonham não em se tornarem seus sábios curadores, mas com um tempo em que os humanos terão deixado de ter importância.





















6
CONTRA 0 FUNDAMENTALISMO - RELIGIOSO E CIENTÍFICO

Os fundamentalistas religiosos vêem o poder da ciência como a principal fonte do desencanto moderno. A ciência suplantou a religião como fonte de autoridade, mas ao preço de tornar a vida humana acidental e insignificante. Se é para nossas vidas terem algum sentido, o poder da ciência tem de ser derrubado, e a fé restabelecida. Mas a ciência não pode ser eliminada de nossas vidas por um ato da vontade. Seu poder deriva da tecnologia, que está mudando a maneira como vi-vemos a despeito do que possamos querer.

Os fundamentalistas religiosos se vêem como detentores de remédios para as moléstias do mundo moderno. Na realidade, eles próprios são sintomas da doença que apenas aparentam curar. Esperam recuperar a fé direta, não mediada pelo pensamento, das culturas tradicionais, mas isso é uma fantasia peculiarmente moderna. Não podemos crer da maneira que quisermos; nossas crenças são traços deixados por nossas vidas não escolhidas. Uma visão de mundo não é algo que possa ser invocado como e quando queremos. Uma vez passadas, formas de vida tradicionais não podem ser recuperadas.
O que quer que inventemos para substituí-las será apenas mais uma novidade em nossa incessante busca por novidades. Por mais que queiram, pessoas em cujas vidas corre ciência não podem retornar a um ponto de vista pré-científico.
Os fundamentalistas científicos afirmam que a ciência é a busca desinteressada da verdade. Mas representar a ciência dessa forma é ignorar as necessidades humanas às quais ela serve. Entre nós, a ciência serve a duas necessidades: de esperança e de censura. Hoje apenas a ciência apoia o mito do progresso.
Se as pessoas se agarram à esperança do progresso, não é tanto por uma crença genuína, mas pelo medo do que possa advir se abrirem mão dela. Os projetos políticos do século XX falharam ou ficaram muito aquém do que haviam prometido. Ao mesmo tempo, o progresso da ciência é uma experiência diária, confirmada a cada vez que compramos um novo aparelho eletrônico ou usamos um novo medicamento. A ciência nos dá um senso de progresso que a vida ética e a vida política não podem dar.
Por outro lado, só a ciência tem o poder de silenciar hereges. Hoje é a única instituição que pode reivindicar autoridade. Como a Igreja no passado, ela tem o poder de destruir ou marginalizar pensadores independentes.
(Considere o leitor como a medicina ortodoxa reagiu a Freud e o darwinismo ortodoxo a Lovelock.) Na verdade, a ciência não produz nenhuma imagem fixa das coisas, mas, ao censurar pensadores que se afastam excessivamente das ortodoxias correntes, ela preserva a reconfortante ilusão de que existe apenas uma única visão de mundo bem estabelecida. Da perspectiva de qualquer um que dê valor à liberdade de pensamento, isso pode ser desalentador, mas é sem dúvida a principal fonte da atração exercida pela ciência. Para nós, a ciência é o lugar onde nos refugiamos da incerteza, pois ela nos promete — e, em alguma medida, produz — o milagre de nos livrar de pensar, enquanto as igrejas passaram a ser lugares de proteção e refúgio para dúvidas.

Bertrand Russell, um defensor da ciência mais sábio do que os atuais ideólogos da ciência, gostava de dizer:


Quando falo da importância do método científico em relação à condução da vida humana, estou pensando no método científico em suas formas mundanas. Não que eu despreze a ciência como uma metafísica, mas o valor da ciência como metafísica pertence a outra esfera. Pertence à mesma esfera da religião, da arte e do amor, da busca da visão beatífica, da loucura prometéica que faz com que os maiores homens lutem por se tornarem deuses. Talvez o único verdadeiro valor da vida humana seja encontrado nessa loucura prometéica. Mas é um valor religioso, não político, e nem mesmo moral.

A autoridade da ciência advém do poder sobre o ambiente que ela confere aos humanos. Uma vez ou outra, talvez a ciência possa se afastar de nossas necessidades práticas e servir à busca da verdade. Mas pensar que ela pode, em algum momento, incorporar tal busca é uma noção pré-científica — é dissociar a ciência das necessidades humanas e fazer dela algo que não é natural, mas transcendental. Pensar a ciência como busca da verdade é renovar uma fé mística, a fé de Platão e Agostinho, de que a verdade governa o mundo, de que a verdade é divina.



















7
AS ORIGENS IRRACIONAIS DA CIÊNCIA

Como descrita por seus fundamentalistas, a ciência é a suprema expressão da razão. Eles nos dizem que, se ela governa nossas vidas hoje, isso só foi possível após uma longa luta na qual sofreu oposição incessante da Igreja, do Estado e de todo tipo de crença irracional. Tendo surgido da luta contra a superstição, a ciência—dizem eles — tornou-se a materialização da investigação racional.


Esse conto de fadas oculta uma história mais interessante. As origens da ciência não estão na investigação racional, mas na fé, na magia e no logro. A ciência moderna triunfou sobre seus adversários não através de sua racionalidade superior, mas porque seus fundadores do final da Idade Média e inícios da Idade Moderna eram mais hábeis do que eles no uso da retórica e nas artes da política.

Galileu venceu sua campanha a favor da astronomia copernicana não porque tivesse se conformado a qualquer preceito do "método científico". Como Feyerabend argumentou, ele prevaleceu devido à sua capacidade de persuasão—e porque escreveu em italiano. Escrevendo em italiano, em vez de latim, Galileu conseguiu identificar a resistência à astronomia de Copérnico com o escolasticismo falido de seu tempo e, assim, ganhou o apoio de pessoas opostas às antigas tradições de aprendizado:
"Copérnico agora significa progresso também em outras áreas. Ele é um símbolo para os ideais de uma nova classe que tem às costas os tempos clássicos de Platão e Cícero e diante de si a sociedade livre e plural que antevê."
Galileu venceu não porque tivesse os melhores argumentos, mas porque foi capaz de representar a nova astronomia como parte de uma tendência social já em andamento. Seu sucesso ilustra uma verdade crucial. Limitar a prática da ciência através de controles sobre o método reduziria o avanço do conhecimento ou poderia até mesmo sustá-lo:



A diferença entre ciência e metodologia, que é um fato tão óbvio da história, (...) indica uma fraqueza da segunda, e talvez também das "leis da razão". (...) Sem "caos" não há conhecimento. Sem um freqüente abandono da razão não há progresso. Idéias que hoje constituem a própria base da ciência existem porque existiram coisas como preconceito, vaidade, paixão; porque essas coisas se opuseram à razão; e porque tiveram permissão para seguir o seu próprio curso.



De acordo com o mais influente filósofo da ciência do século XX, Karl Popper, uma teoria é científica apenas na medida em que seja falseável, e deve ser deixada de lado tão logo isso aconteça. De acordo com esse critério, as teorias de Darwin e Einstein nunca deveriam ter sido aceitas. Quando foram apresentadas pela primeira vez, cada uma delas estava em desacordo com alguma evidência disponível; só mais tarde houve evidências que lhes deram o apoio crucial. Se a definição popperiana de método científico tivesse sido adotada, teriam sido mortas ao nascer.


Os maiores cientistas nunca se sujeitaram ao que hoje é visto como as regras do método científico.
E nem as filosofias dos fundadores da ciência moderna — mágicas e metafísicas, místicas e ocultas — tinham muito em comum com o que hoje é tido como a visão de mundo científica. Galileu via-se como um defensor da teologia, não como um inimigo da Igreja. As teorias de Newton tornaram-se a base de uma filosofia mecanicista, mas, em sua própria mente, suas teorias eram inseparáveis de uma concepção religiosa que via o mundo como uma ordem divinamente criada. Newton explicava ocorrências aparentemente anômalas como evidências deixadas por Deus.
Tycho Brahe as via como milagres. Johannes Kepler descrevia anomalias na astronomia como reações da "alma telúrica". Como observa Feyerabend, crenças que hoje são vistas como pertencendo à religião, ao mito ou à magia ocupavam uma posição central nas visões de mundo das pessoas que deram origem à ciência moderna.


Como mostrado pelos filósofos, a ciência é uma atividade sumamente racional. Ainda assim, a história da ciência mostra cientistas ignorando as regras do método científico. Não apenas as origens da ciência, mas também seu progresso decorrem de atitudes contrárias à razão.


















8
A CIÊNCIA COMO UM REMÉDIO PARA 0 ANTROPOCENTRISMO

Em todos os seus usos práticos, a ciência contribui para fortalecer o antropocentrismo. Ela nos encoraja a crer que, diferentemente de qualquer outro animal, podemos entender o mundo natural e, assim, curvá-lo à nossa vontade.
Ainda assim, o fato é que a visão das coisas sugerida pela ciência é extremamente desconfortável para a mente humana. O mundo, tal como visto por físicos como Erwin Schrõdinger e Werner Heisenberg, não é um cosmo organizado. E um meio-caos que os humanos só podem esperar compreender parcialmente. A ciência não tem como satisfazer a necessidade humana de encontrar ordem no mundo. As ciências físicas mais avançadas sugerem que causalidade e lógica clássica talvez não façam parte da natureza das coisas. Mesmo os aspectos mais básicos de nossa experiência ordinária podem ser enganadores.
A passagem do tempo é um aspecto integrante da vida cotidiana. No entanto, como observa Barbour, a ciência sugere que talvez o tempo não faça parte do esquema existente. A lógica clássica nos diz que o mesmo evento não pode, ao mesmo tempo, acontecer e não acontecer. Mas, na interpretação "muitos-mundos" da física moderna, é precisamente isso o que ocorre. Tornou-se parte do senso comum acreditar que o mundo físico não é alterado pelo fato de nós o observarmos. Mas a alteração do mundo por seus observadores está no cerne da mecânica quântica. Assim como a tecnologia, a ciência se desenvolveu para atender às necessidades humanas; e, também como no caso da tecnologia, ela revela um mundo que os humanos não podem controlar nem jamais entender totalmente.
A ciência tem sido usada para respaldar a idéia fantasiosa de que os humanos são diferentes de todos os outros animais em sua habilidade para entender o mundo. Na realidade, seu valor supremo pode estar em mostrar que o mundo que os humanos estão programados para perceber é uma quimera.

9
VERDADE E CONSEQÜÊNCIAS

Os humanistas acreditam que, se soubermos a verdade, seremos livres. Ao afirmar isso, imaginam que são mais sábios do que os pensadores de outros tempos. Na realidade, estão aprisionados nas garras de uma religião esquecida.
A fé moderna na verdade é uma relíquia de um credo antigo. Sócrates fundou o pensamento europeu erigindo-o sobre a fé de que a verdade nos torna livres. Ele nunca duvidou de que o conhecimento e a boa vida andassem juntos. Passou essa fé para Platão e, assim, para o cristianismo. O resultado é o humanismo moderno.

Sócrates pôde acreditar que a vida examinada é melhor porque pensava que o verdadeiro e o bom eram uma e mesma coisa: existe uma realidade imutável além do mundo visível, e ela é perfeita. Quando os humanos vivem a vida não-examinada, correm atrás de ilusões. Passam suas vidas buscando o prazer ou fugindo da dor, e o prazer e a dor são ambos temporários. A verdadeira realização está nas coisas imutáveis. Uma vida examinada é melhor porque nos conduz à eternidade.

Não temos que duvidar da realidade da verdade para rejeitar essa fé socrática. O conhecimento humano é uma coisa, o bem-estar humano é outra. Não existe nenhuma harmonia predeterminada entre os dois. A vida examinada pode não valer a pena ser vivida.
A fé de Sócrates na vida examinada pode bem ter sido um resíduo de uma religião arcaica: ele "usualmente ouvia uma voz interior que sabia mais do que ele mesmo, e lhe obedecia

(...) ele a chamava, simplesmente, 'a voz de Deus"- Sócrates era guiado por um daimon, um oráculo interior cujos conselhos seguiu sem duvidar, mesmo quando o levaram à morte. Ao admitir ser guiado por urna voz interior, mostrou o duradouro poder das práticas xamânicas nas quais os humanos, desde tempos imemoriais, têm buscado a comunhão com espíritos.


Se a filosofia socrática tem origem no xamanismo, o racionalismo europeu nasceu de uma experiência mística. O humanismo moderno difere da filosofia socrática basicamente no deixar de reconhecer suas origens irracionais — e na extrema pretensão de suas ambições.
A herança de Sócrates foi atrelar a busca da verdade a uma idéia mística do bem. No entanto nem Sócrates nem nenhum outro pensador antigo imaginaram que a verdade pudesse tornar livre a humanidade. Eles entenderam que a liberdade permaneceria sendo sempre o privilégio de uns poucos; não havia qualquer esperança para a espécie. Ao contrário, entre os humanistas contemporâneos a fé grega de que a verdade nos liberta tem sido fundida com um dos mais dúbios legados do cristianismo — a crença em que a esperança de liberdade pertence a todos.
O humanismo moderno é a fé de que através da ciência a humanidade pode conhecer a verdade e, assim, ser livre.
Mas, se a teoria da seleção natural de Darwin estiver certa, isso é impossível. A mente humana serve ao sucesso evolutivo, não à verdade. Pensar de outra forma é ressuscitar o erro pré-darwinista de que os humanos são diferentes de todos os outros animais.
Um exemplo é a teoria dos memes. Os memes são aglomerados de idéias e crenças que presumivelmente competem uns com os outros de forma bem semelhante à dos genes. Na vida da mente, bem como na evolução biológica, existe um tipo de seleção natural de memes através da qual os memes mais adaptáveis sobrevivem.
Infelizmente os memes não são genes. Na história das idéias, não há nenhum mecanismo de seleção semelhante ao da seleção natural de mutações genéticas em evolução.
De qualquer modo, apenas alguém milagrosamente inocente em relação à história poderia acreditar que a competição entre idéias possa resultar no triunfo da verdade. Certamente as idéias competem umas com as outras, mas os vencedores são normalmente aqueles que têm o poder e a loucura humana do seu lado. Quando a Igreja medieval exterminou os cátaros, terão os memes católicos prevalecido sobre os memes dos hereges?
Se a Solução Final [de Hitler para a questão judaica] tivesse sido ultimada, isso teria demonstrado a inferioridade dos memes hebreus?
A teoria de Darwin nos diz que um interesse pela verdade não é algo necessário para a sobrevivência ou a reprodução. A rigor, é uma desvantagem. Enganar o outro intencionalmente é comum entre primatas e pássaros. Como Heinrich observa, os corvos fingem esconder suas provisões de comida num lugar enquanto as ocultam em outro. Psicólogos evolucionistas mostraram que o logro é prática disseminada na comunicação animal.
Entre os humanos, os melhores enganadores são os que enganam a si mesmos: "enganamos a nós mesmos para melhor enganar os outros", diz Wright. Um amante que promete fidelidade eterna tem mais probabilidade de ser acreditado se ele próprio acredita em sua promessa; mas não tem maior probabilidade de cumpri-la. Numa competição por parceiros, uma capacidade de auto-engano bem desenvolvida é uma vantagem. O mesmo é verdade na política e em muitos outros contextos.

Se é assim, a idéia de que aglomerados de crenças falsas — memes inferiores — tenderão a ser eliminados pela seleção natural só pode ser equivocada. A verdade não tem nenhuma vantagem evolutiva sobre o erro. Bem ao contrário, a evolução irá "selecionar um certo grau de auto-engano, tornando inconscientes alguns fatos e motivos para que não de¬nunciem — pelos sutis sinais do autoconhecimento — o engano sendo perpetrado".
Como observa Trivers, a evolução favorece o erro útil: "A idéia convencional de que a seleção natural favorece os sistemas nervosos que produzem imagens do mundo cada vez mais precisas tem de ser uma concepção muito simplista da evolução mental."
Na luta pela vida, um gosto pela verdade é um luxo — ou então uma incapacidade:

apenas
pessoas atormentadas querem a verdade.
O homem é como outros animais, quer comida e sucesso e
mulheres, não verdade. Apenas se a mente
Torturada por alguma tensão interior tiver se desesperado da felicidade: então ela odeia
sua jaula-vitalícia e continua a buscar.


A ciência nunca será usada prioritariamente para a busca da verdade ou para aprimorar a vida humana. Os usos do conhecimento serão sempre tão instáveis e corrompidos como o são os próprios humanos. Os humanos usam o que sabem para satisfazer suas necessidades mais urgentes — mesmo que o resultado seja a ruína. A história não é feita na luta pela autopreservação, como Hobbes imaginava ou queria acreditar.
Em suas vidas diárias, os humanos lutam para computar lucros e perdas. Quando em tempos desesperados, agem para proteger sua prole, vingar-se de inimigos ou simplesmente dar vazão a seus sentimentos.


Essas não são imperfeições que possam ser remediadas. A ciência não pode ser usada para reformar a humanidade de acordo com um molde mais racional. Qualquer nova versão da humanidade apenas reproduzirá as conhecidas deformidades de seus autores. É uma estranha fantasia supor que a ciência possa tornar racional num mundo irracional, quando o máximo que ela poderia um dia fazer seria dar uma nova aparência à loucura usual. Essas não são apenas inferências derivadas da história. A conclusão final da investigação científica é que humanos não podem ser nada além de irracionais. Curiosamente, essa é uma conclusão que poucos racionalistas têm estado dispostos a aceitar.


Tertuliano, um teólogo que viveu em Cartago por volta do ano 200 AD, escreveu sobre o cristianismo: Certum est> quia impossibile est (é certo porque é impossível). Os humanistas são menos esclarecidos, mas sua fé é igualmente irracional. Não negam que a história seja um catálogo de irracionalidades, mas o remédio que propõem é simples: a humanidade tem de ser — e será — razoável. Sem essa fé absurda, ao estilo de Tertuliano, o Iluminismo é um evangelho de desespero.























10
UM PASCAL PARA 0 ILUMINISMO


Os humanos não podem viver sem ilusão. Para os homens e mulheres de hoje, uma fé irracional no progresso pode ser o único antídoto contra o niilismo. Sem a esperança de que o futuro seja melhor do que o passado, não teriam como prosseguir. Nesse caso, podemos precisar de um Pascal tardio.
O grande pensador religioso do século XVII encontrou muitas razões para a crença, mas nunca imaginou que elas poderiam instilar a fé. Em vez disso, aconselhou que a razão fosse estupidificada. Pascal sabia que a fé está assentada sobre a força do hábito: "Não devemos em nada nos enganar sobre nós mesmos: somos tanto autômatos quanto a mente." Apenas submetendo-se à Igreja e assistindo à missa com os crentes a dúvida poderia ser aplacada.

Ao nos submetermos à autoridade da ciência, podemos esperar a mesma libertação do pensar. Ao reverenciar os cientistas e partilhar seu dom para a tecnologia, podemos alcançar o que Pascal almejava conseguir através de oração, incenso e água benta. Ao buscar a companhia de pesquisadores esforçados e máquinas inteligentes, podemos tornar estúpida nossa razão e fortalecer nossa fé na humanidade.



















11
HUMANISMO VERSUS NATURALISMO



Para Jacques Monod, um dos fundadores da biologia molecular, a vida é uma casualidade que não pode ser deduzida da natureza das coisas, mas que, uma vez surgida, evolui pela seleção natural de mutações randômicas. A espécie humana nâo é diferente de nenhuma outra quanto a ser uma jogada de sorte na loteria cósmica.


Para nós, essa é uma verdade difícil de aceitar. Como escreve Monod, "as sociedades liberais do Ocidente ainda demonstram uma concordância hipócrita a uma desagradável miscelânea de religiosidade judaico-cristã, progressismo cientificista, crença nos direitos 'naturais' do homem e pragmatismo utilitarista, apresentando-os como uma base para a moralidade".
O ser humano precisa deixar de lado esses erros e aceitar que sua existência é inteiramente acidental. Ele "tem de finalmente acordar de seu sonho milenar e descobrir sua total solidão, seu isolamento fundamental. Tem de compreender que, como um cigano, vive nas fronteiras de um mundo estranho; um mundo que é surdo à sua música e tão indiferente às suas esperanças quanto a seu sofrimento e a seus crimes".


Monod está certo ao afirmar que é difícil aceitar o fato de os humanos não serem diferentes de outros animais. Ele próprio não aceita. Ele corretamente menospreza a moderna visão de mundo, mas sua própria filosofia é outra versão da mesma sórdida mixórdia. Para Monod, a humanidade é uma espécie particularmente privilegiada. Apenas ela sabe que sua existência é um acidente, e só ela pode assumir seu destino. Como os cristãos, Monod acredita que a humanidade encon¬tra-se num mundo estranho e insiste em que ela tem de fazer uma escolha entre o bem e o mal: "O reino acima ou a escuridão abaixo: cabe a ela escolher." Nessa fantasia, a humanidade no futuro será diferente não apenas de qualquer outro animal, mas também de qualquer coisa que ela mesma já tenha sido. Os cristãos que se opuseram à teoria de Darwin temiam que ela faria com que a humanidade parecesse insignificante.
Não precisavam ter se preocupado. O darwinismo tem sido usado para pôr a humanidade de volta em seu pedestal.
Como muitos outros, Monod opera simultaneamente com duas filosofias irreconciliáveis — o humanismo e o naturalismo. A teoria de Darwin mostra a verdade do naturalismo: somos animais como quaisquer outros; nosso destino e o do resto da vida na Terra são o mesmo. Ainda assim, numa ironia ainda mais sutil, porque ninguém notou, o darwinismo é agora a principal escora da fé humanista de que podemos transcender nossas naturezas animais e governar a Terra.

























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CACHORROS DE PALHA

O humanismo é uma religião secular montada com fragmentos deteriorados do mito cristão. Ao contrário, a hipótese Gaia — a teoria de que a Terra é um sistema auto-regulado cujo comportamento se assemelha, de certas formas, ao de um organismo — incorpora o mais rigoroso naturalismo científico.

No modelo de James Lovelock para Daisyworld, um planeta onde existem apenas margaridas pretas e brancas, a temperatura global torna-se auto-regulada. Daisyworld é iluminado por um sol cada vez mais quente. As margaridas brancas refletem o calor do sol, esfriando, assim, a superfície do planeta, enquanto as margaridas pretas absorvem o calor, esquentando a superfície.
Sem nenhum elemento de propósito, essas margaridas interagem para esfriar seu mundo, a despeito do sol cada vez mais quente.
Tudo que se requer para que exista uma biosfera auto-regulada são processos mecânicos e estocásticos que podem ser modelados numa simulação computacional. Explica Joel de Rosnay:

A simulação (...) começa com uma temperatura baixa.
As margaridas pretas, que absorvem melhor o calor do sol, sobrevivem, se desenvolvem e ocupam uma grande área. Como resultado, a temperatura do solo aumenta, tornando-o mais favorável à vida. As margaridas pretas têm alta taxa de re-produção, mas cobrem uma área extensa demais e a temperatura aumenta além de um ponto crítico; as margaridas pretas morrem em massa. Mas as brancas se adaptam, se desenvolvem e colonizam grandes áreas, refletindo o calor e esfriando o planeta de novo. A temperatura cai — demais. As margaridas brancas morrem e as pretas retornam em profusão. Após um certo número de flutuações, um "mosaico" de áreas pretas e brancas começa a coexistir e co-evoluir na superfície do planeta. Margaridas individuais nascem e morrem, mas as duas populações, através de sucessivos calores e frios, mantêm uma temperatura média favorável à vida de ambas as espécies, e essa temperatura flutua em torno de um equilíbrio ótimo. Ninguém determinou a temperatura, ela simplesmente emergiu — o resultado do comportamento das margaridas e de sua co-evolução.


Daisyworld surge do acaso e da necessidade.
Como mostra o modelo Daisyworld, a hipótese Gaia é consistente com a mais estreita ortodoxia científica. Ainda issim, a hostilidade que lhe votam os fundamentalistas científicos é bem-fundamentada. No fundo, o conflito entre a teoria Gaia e a ortodoxia corrente não é uma controvérsia científica. É um embate de mitos — um formado pelo cristianismo, o outro por uma fé muito mais antiga.
A teoria Gaia restabelece o vínculo entre humanos e o resto da natureza que era afirmado pela religião primordial da humanidade, o animismo. Nas fés monoteístas, Deus é o garantidor final de sentido à vida humana. Para Gaia, a vida humana não tem mais sentido do que a vida dos fungos.

Lovelock escreveu que Gaia recebeu o nome da antiga deusa grega da Terra por sugestão de seu amigo, o romancista William Golding. Mas a idéia de Gaia é antecipada mais claramente numa linha do Tao Te Ching, a mais antiga escritura taoísta. Nos antigos rituais chineses, cachorros de palha eram usados como oferendas para os deuses. Durante o ritual, eram tratados com a mais profunda reverência.
Quando terminava, e não sendo mais necessários, eram pisoteados e jogados fora: "Céu e terra não têm atributos e não estabelecem diferenças: tratam as miríades de criaturas como cachorros de palha." Se os humanos perturbarem o equilíbrio da Terra, serão pisoteados e jogados fora. Os críticos da teoria Gaia dizem que a rejeitam porque não é científica. A verdade é que têm medo e ódio da teoria, porque isso significa que os humanos nunca podem ser nada além de cachorros de palha.

John Gray. Cachorros de palha: Reflexões sobre humanos e outros animais. Tradução: Maria Lúcia de Oliveira. Rio de Janeiro, Record, 2005, p. 19-50.

Um comentário:

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