«Da oggi assumo la direzione dell’ufficio politico. Voi saprete tutti che io fino a ieri mi sono occupato di assassinii, e con un certo successo.
Non è senza significato che abbiano destinato proprio me, in questo momento, alla direzione dell’Ufficio Politico.
Ciò è stato deciso poiché tra i reati comuni e i reati politici sempre più si assottigliano le distinzioni, che tendono addirittura a scomparire. Questo scrivetevelo bene nella memoria: sotto ogni criminale può nascondersi un sovversivo; sotto ogni sovversivo può nascondersi un criminale.
Nella città che ci è stata affidata in custodia, sovversivi e criminali hanno già steso i loro fili invisibili che spetta a noi di recidere.
Che differenza passa tra una banda di rapinatori che assaltano un istituto bancario e la sovversione organizzata, istituzionalizzata, legalizzata? Nessuna. Le due azioni tendono allo stesso obiettivo, sia pure con mezzi diversi, e cioè al rovesciamento dell’attuale ordine sociale.
» Seimila prostitute schedate.
» Un aumento del 20% di scioperi e di occupazioni di edifici pubblici e privati.
» Duemila case d’appuntamento accertate.
» In un anno trenta attentati dimostrativi contro la proprietà dello stato.
» Duecento stupri in un anno.
» Cinquantamila studenti delle scuole medie in corteo per le vie delle città.
» Un aumento del 30% delle rapine e degli assalti alle banche.
» Diecimila schedati in più fra le file dei sovversivi.
» Seicento omosessuali schedati.
» Più di settanta gruppi di giovani sovversivi che agiscono al di fuori dei limiti parlamentari.
» Un aumento del 50% delle bancarotte fraudolente e dei protesti cambiari.
» Un numero indescrivibile di riviste politiche che invitano alla rivolta.
L’uso della libertà minaccia da tutte le parti i poteri tradizionali, le autorità costituite. L’uso della libertà che tende a fare di qualsiasi cittadino un giudice, che ci impedisce di espletare liberamente le nostre sacrosante funzioni.
Noi siamo a guardia della legge, che vogliamo immutabile, scolpita nel tempo…
Il popolo è minorenne. La città è malata. Ad altri spetta il compito di curare e di educare. A noi il dovere di reprimere.
La repressione è il nostro vaccino!
Repressione è civiltà!»
The technological imagination from the early Romanticism through the historical Avant-Gardes to the Classical Space Age and beyond
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Time Enough at Last
Ticking away the moments that make up a dull day
You fritter and waste the hours in an off hand way
Kicking around on a piece of ground in your home town
Waiting for someone or something to show you the way
Tired of lying in the sunshine staying home to watch the rain
You are young and life is long and there is time to kill today
And then one day you find ten years have got behind you
No one told you when to run, you missed the starting gun
And you run and you run to catch up with the sun, but it's sinking
And racing around to come up behind you again
The sun is the same in a relative way, but you're older
Shorter of breath and one day closer to death
Every year is getting shorter, never seem to find the time
Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines
Hanging on in quiet desperation is the English way
The time is gone the song is over, thought I'd something more to say
Home, home again
I like to be here when I can
When I come home cold and tired
It's good to warm my bones beside the fire
Far away across the field
The tolling of the iron bell
Calls the faithful to their knees
To hear the softly spoken magic spells
Videodrome - The Ghosts of the New Flash
Your Ghost - Kristin Hersh
If I walk down this hallway, tonight,
It's too quiet,
So I Pad through the dark
and call you on the phone
Push your old numbers
and let your house ring
til I wake you ghost.
Let him walk down your hallway
it's not this quiet
slide down your receiver
sprint across the wire
follow my number
slide into my hand.
It's the blaze across my nightgown
it's the phone's ring.
I think last night
you were driving circles around me.
I can't drink this coffee
til I put you in my closet
let him shoot me down
let him call me off
I take it from his whisper
you're not that tough.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
The Shock of the New (Complete) Robert Hughes
The site Urania is proud to offer you the classic series by Robert Hughes!
THE SHOCK OF THE NEW: EPISODE GUIDE
Intelligent, gripping, innovative, Robert Hughes' eight-part exploration of modern art gets an airing on BBC Four. First shown on BBC Two in the 1980s, the series looks at different themes rather than presenting the art chronologically.
Ben Lewis: "It is the greatest series on art ever made"
The Mechanical Paradise - Episode 1
Traces how developments in technology inspired art between 1880 and the end of WWI, leading to movements like cubism and futurism.
The Powers that Be - Episode 2
Hughes explores the interplay between art and politics, seeing how artists were affected by the development of mechanised warfare and ideologies like fascism and communism.
The Landscape of Pleasure - Episode 3
The French artists who attempted to reconcile man with nature, from the determination of the impressionists to paint outside to Matisse's vibrant use of colour.
Trouble in Utopia - Episode 4
How modern architects in the wake of the Bauhaus aspired to change societies with their designs, a move represented both by Le Corbusier and the plans for the city Brasilia.
The Threshold of Liberty - Episode 5
The art movement that gripped its exponents with the fervour of a religion: surrealism. Artists like Di Chirico, Ernst, Miró and Dalí; brought the subconscious to the fore and attempted to tap into innocent and irrationality.
The View From the Edge - Episode 6
Expressionism sprung out of the harsh, secular atmosphere of the 20th Century and evolved, through the strong colours and often sombre moods of artists like Munch, to the non-figurative work of Pollock and De Kooning.
Culture as Nature - Episode 7
Artists began to take man-made images as their inspiration, leading to the pop art of Andy Warhol and Roy Lichtenstein as well as Stuart Davis' collages inspired by jazz.
The Future That Was - Episode 8
The final episode in the series explores the decline of modernism and how various artists have reacted to the consequent commercialisation of their art.
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Hinos - 7 de Setembro 2011 e O "Sentimento Íntimo" da Nacionalidade
Um de meus passatempos prediletos nas raras ocasiões em que estou com meu filho Juliano Gigeck Galisi em São Paulo é escutar hinos e reconhecer as bandeiras das quase duas centenas de países neste pequeno ponto azul do universo. De maneira espantosa, ele conseguiu memorizar quase todas as capitais do mundo e demonstrou um interesse extraordinário pelo Pacífico Sul, sabendo de cor o nome de quase todas as minúsculas ilhas que foram palco das batalhas mais sanguinárias entre o Exército Imperial japonês e os mariners americanos. Indiferente às peculiaridades de dois teatros de guerra totalmente distintos, a saber, das diferenças essenciais dos estilos de comando e objetivos estratégicos das campanhas de Nimitz (Pacífico Central) e Douglas MacArthur (Pacífico Sul e Filipinas), entre Marinha e Exército, a ilha do Palau, para meu filho será sempre um lugar pacífico onde as crianças, todos os dias de manhã antes das aulas, cantam o hino e hasteiam a bandeira desse belíssimo canto do mundo. Mas o hino predileto mesmo do Juju é o de Israel, já que sempre sonhamos o dia em que estaremos reunidos novamente, e depois de pesquisas intensivas na Wikipedia, ele adotou o querogrilo como o animal símbolo do páis e assim decorou seu quarto, muito embora a Wikipédia o informe que essa criatura seja "abominável" para a Torá e não deva ser degustada sob hipótese alguma, em respeito à Lei, para sorte, é claro, desses simpáticos roedores.
E foi assim que comecei a colecionar hinos no youtube e ler nos comentários postados, com um sentimento de indignação crescente, como alguns seres humanos, confirmando o que Nietzsche já diagnosticara, podem ser, justamente naquilo que têm de PIOR, o mais MESQUINHO e ínfimo o possível, não um grandioso "son of a bitch", mas um pobre diabo RESSENTIDO. Só um paralelo me ocorre: Nixon, no auge de sua carreira na visita à China, naquele único instante de glória em que entra pela porta principal da História, caçando e vingando-se de todos aqueles "son of a bitchs" dos jornalistas de sua extensa lista negra (desde a infância) que deveriam ser riscados da comitiva oficial. Pois os seres humanos "normais", isto é, em condições padrão de temperatura e pressão ao nível do mar, mesmo diante de um momento sublime, como nos dois vídeos abaixo, conseguem tecer comentários grosseiros e infames muito "além da imaginação" da mesquinharia e até abaixo do Mar Morto.
Será que a angelical Avi, esta menina que faz até o Terminator chorar com sua voz, tem alguma coisa a ver com o Hamas e o Hizbollah e estaria apenas fazendo propaganda sionista?
Será que o fato de uma crianca ter orgulho de seu país e amar seus pais e avós impede outras crianças palestinas de sentir o mesmo, o que só depende da responsabilidade de suas elites? E por que alguém se dá ao trabalho de fazer um comentário assim e perde a oportunidade de calar a boca, já que o provérbio o "silencio é de ouro" existe em quase todas as línguas?
Seriam, por acaso, estas crianças os netos abomináveis de "Gengis Khan ", nesta interpretaçao maravilhosa do hino da Mongólia, na qual a Mongólia e seus filhos desejam ser apenas um país para aprender e coexistar com outros?
Em 1992, quando era estagiário do Instituto Goethe em Staufen, conheci duas moças de Ulan Bator e tive conversas inesquecíveis sobre o que mais amo: desertos e temperaturas polares. Os -10 C daquele inverno na Floresta Negra eram uma primavera gentil diante de -45 C de um dia qualquer de inverno lá no Goethe de Bator. Desde então, a Mongólia ocupa um lugar especial em meu coração.
Mas trata-se, como afirmou Machado de Assis em um célebre ensaio, daquele "sentimento íntimo" da nacionalidade contra o Exu Hegeliano Tranca Fronteiras do chauvinismo do Espírito. Pois é possível ser brasileiro, escocês, alemão, polonês, mesmo quando se fala das coisas distantes, pois as obras do Espírito são patrimônio comum, pertencem a todos os seres humanos e pertencem, sobretudo, às crianças e ao futuro. E mesmo que nossos compatriotas tropecem nos hipérbatos e na sintaxe enviesada de nosso hino, vale o esfoço dessa gente trabalhadora em tentar e, como sabemos, antes de qualquer jogo da seleção, este hino ganha um sentido quase religioso e, enfim, quem está se lixando para a letra, já que só a camisa amarela tem cinco belas estrelas?
Eu dedico este post ao meu filho Juju e a todos os querogrilos de todas as nacionalidades
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
O nascimento do Pós-Ocidente Entrevista com Timothy Garton Ash (Mais!)
Membros da Polícia do Povo durante parada militar em Pequim (China)
São Paulo, domingo, 09 de janeiro de 2005
O autor de "Mundo Livre" defende o Google como forma de violar segredos de Estado e diz que EUA e Europa têm somente 20 anos para consolidar os valores democráticos no resto do planeta
JOSÉ GALISI FILHO
ESPECIAL PARA A FOLHA
O conflito entre Estados Unidos e Europa na questão iraquiana radicalizou a crise já em curso no Pacto Atlântico que se seguiu às rápidas mudanças das coordenadas geopolíticas do pós-Guerra Fria. Depois do 11 de Setembro, a emergência de um novo terrorismo desvinculado de qualquer centro de poder estatal implodiu finalmente o próprio conceito estratégico de Ocidente, vinculado à Otan [aliança militar ocidental]. A Europa perdeu seu papel de parceiro privilegiado de Washington e, em ambos os lados do Atlântico, clivagens políticas internas acentuaram o sentimento de perda de identidade que se ocultou até agora sob o "pathos" do marketing político de plantão.
Enquanto historiadores como Francis Fukuyama ["O Fim da História e o Último Homem", ed. Rocco], [o colunista do "Washington Post"] Robert Kagan ["Americanos São de Marte e os Europeus de Vênus", incluído em "Do Paraíso e do Poder", ed. Rocco], [o cientista político americano] Samuel Huntington [autor de "O Choque de Civilizações", ed. Objetiva] postulavam um "novo patriotismo" americano, e [o secretário de Defesa dos EUA] Donald Rumsfeld avacalhava os antigos parceiros Alemanha e França, que se opunham a uma aventura no Iraque, como a "Velha Europa", intelectuais europeus como Jürgen Habermas e Jacques Derrida engajavam-se na cruzada moral de uma suposta identidade européia na defesa da liberdade e do direito contra o Estado de Natureza hobbesiano do unilateralismo da Doutrina Bush [documento divulgado pela Casa Branca em 2002 que estabelece as diretrizes da política externa e de segurança dos EUA].
Para o historiador britânico Timothy Garton Ash, diretor do Centro de Estudos Europeus da Universidade de Oxford, essa exaltação dos ânimos é apenas o epifenômeno de um processo mais complexo de diferenciação do Ocidente clássico, como o conhecemos até 2001 e que não mereceu até agora uma análise detalhada de sua história remota.
Em seu novo livro ["Free World -America, Europe, and the Surprising Future of the West", Mundo Livre -América, Europa e o Surpreendente Futuro do Ocidente, Penguin, 308 págs., 17,99 libras], um ensaio-manifesto, Ash argumenta que esse espelhamento de auto-representações estereotipadas oculta a emergência de um "Pós-Ocidente".
Os EUA, divididos entre [o presidente reeleito pelo Partido Republicano George W.] Bush e [o candidato democrata John] Kerry, projetam-se, por sua vez, numa Europa e sua retaguarda intelectual polarizadas entre o "eurogaulismo" de Jacques Chirac [presidente da França] no eixo franco-alemão, na fantasia retrospectiva de uma Europa rival, contra a Inglaterra e sua tradicional face de Janus no projeto (fracassado) "neochurchillista" de Tony Blair [premiê inglês] de recuperar o papel de "relacionamento especial" na ponte transatlântica.
Essa crise, antes de dividir EUA e Europa, representaria, para Ash, a última chance de redefinir e ampliar o sentido da democracia e da liberdade no mundo com base nos valores comuns entre Estados Unidos e Europa numa frente comum diante dos novos desafios do século, como a miséria, a fome, o aquecimento global, a modernização do mundo árabe, o terrorismo, mas, sobretudo, a ascensão das novas potências asiáticas, em especial da China.
"Europeus e americanos têm, no máximo, mais 20 anos para mudar o curso da história do mundo. Essa é a nossa última chance. Caso contrário, imagino um mundo como o de "1984", do escritor George Orwell, em conflito entre blocos como Eurásia e Oceania". Garton Ash concedeu a entrevista a seguir em Hamburgo, onde estava para lançar a tradução alemã de seu livro.
Folha - O que o sr. entende como "Pós-Ocidente"?
Timothy Garton Ash - No apêndice de meu livro há vários mapas, e um deles é o dos atuais regimes democráticos. Esse mapa nos mostra que as democracias liberais já ultrapassaram há muito as fronteiras do Ocidente clássico, isto é, da Europa e dos Estados Unidos, como a América Latina, a Índia, Taiwan e África do Sul. Defendo a tese de que a crise das relações transatlânticas no pós-Guerra Fria (1989, queda do Muro de Berlim) e a partir do 11 de Setembro e da ocupação do Iraque nos coloca a questão de redefinir o mundo politicamente, ou seja, para além daqueles limites militares geoestratégicos que o caracterizaram no período bipolar da Otan.
Esse "Ocidente-Otan", contra a ameaça do Exército Vermelho, não existe mais, não pode ser restabelecido. Denomino "Pós-Ocidente" a comunidade de nações liberais que emerge dessa crise e que abriga hoje mais da metade da humanidade.
Folha - Foi sobretudo a afirmação de Donald Rumsfeld sobre a posição francesa e alemã diante do Iraque como "Velha Europa" que pôs definitivamente o dedo na ferida do orgulho continental e desencadeou uma ampla mobilização intelectual. Jürgen Habermas exigiu uma resposta à altura da "provocação americana", argumentando que a política externa de Bush seria movida apenas por interesses econômicos espúrios, enquanto a Europa representaria um pólo da cultura e da democracia. Já o escritor Durs Grünbein denominou essa reação, positivamente, como a "rebelião dos vassalos". O livro reconstrói detalhadamente essa polêmica. Como o sr. avalia o apelo de Habermas?
Garton Ash - Escrevi este livro como um europeu britânico, procurando responder a esse tipo de argumentação, isto é, procuramos um inimigo e o encontramos agora nos Estados Unidos. Essa definição negativa de Europa é insuficiente para que possamos encontrar as respostas para esta crise. Considero essa argumentação completamente absurda, definir-se negativamente em relação aos Estados Unidos.
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Chamo "Pós-Ocidente" a
comunidade de nações
liberais que emerge após a
queda do Muro e o 11/9 e
que abriga hoje mais da
metade da humanidade
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Chamo "Pós-Ocidente" a comunidade de nações liberais que emerge após a queda do Muro e o 11/9 e que abriga hoje mais da metade da humanidade
Em segundo lugar, esse núcleo de identidade européia, tal e qual Habermas o define abstratamente, não existe; existem várias composições de Estados europeus, há várias europas superpostas, uma Europa da política de defesa, uma Europa dos subsídios agrícolas. O que Habermas postula é que a Europa seria "outra", mas esse outro, ou seja, a não-América, significa "somos melhores". Esse raciocínio, muito em curso hoje, mesclado com um sentimento antiamericano já arraigado na França e na Alemanha, é uma simplificação inadmissível.
Os europeus se orgulham de terem abolido a pena de morte e opõem conquistas da democracia social e valores como solidariedade, defesa ambiental, multilateralidade a uma América supostamente hobbesiana e arcaica, que se impõe pela força. É um fenômeno interessante. Se você levar em conta as teses de Fukuyama, Huntington e Kagan, ou seja, idéias que alimentam o mundo folhetinesco e tangenciam com o senso comum, então perceberemos que essa autodefinição da Europa, ironicamente, é, por sua vez, um reflexo distorcido desses esquemas simplificatórios. Haveria assim, supostamente, dois ocidentes, um europeu e um americano.
Denomino essa generalização em meu livro como "fábula das duas europas", tolices como os europeus são de Vênus e a América de Marte. Por sua vez, também se dissemina nos Estados Unidos esse tipo de generalização caricata em relação à Europa. Numa análise mais sóbria, veremos então as linhas divisórias que atravessam cada uma dessas sociedades. Do ponto de vista histórico, haveria assim uma posição "eurogaulista" e "euroatlântica" ou "neochurchillista".
A questão central prática é encontrar uma convergência na política de defesa comum para a União Européia. Esse seria o passo decisivo para encontrar um compromisso entre os dois pólos dessa Europa dos 25, entre Inglaterra e França, entre o "eurogaulismo" de Jacques Chirac, ou seja, esta péssima fantasia de uma Europa rival da América, e Tony Blair, com seu "churchillismo" de "relacionamento especial". E o papel da Alemanha seria central como moderador desses dois pólos.
Folha - Mas a Alemanha no momento é um vale de lamúrias, enclausurada na lógica de sua própria crise econômica. Os alemães, justificadamente, têm sérias dúvidas sobre seu futuro e apenas uma certeza: seu declínio.
Garton Ash - A Alemanha é o paciente europeu, todos sabem que a economia alemã está debilitada depois da reunificação e sua situação social, em razão das reformas e ajustes fiscais, declinou consideravelmente nos últimos anos. Mas mesmo uma Alemanha economicamente enfraquecida tem um peso decisivo nessa mediação, pois ela é o centro político meridiano do continente entre essas duas contracorrentes.
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Há uma tendência em
fetichizar a ONU; veja bem,
a intervenção em Kosovo não
foi legal, porém legítima
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Na questão iraquiana, embora a França tenha liderado a recusa, foi a Alemanha que deu o golpe decisivo em 2002 e não em razão apenas de um cálculo eleitoral. Chamei o capítulo de "A Posição dos Sentimentos Alemães".
Mais do que na Inglaterra e França, existe na Alemanha a memória de um trauma duradouro em razão da devastação completa de suas cidades pelo bombardeio aéreo, um verdadeiro repúdio a qualquer forma de guerra que vem sendo recuperado na historiografia e no debate público. Bush pai tinha prometido à Alemanha reunificada uma "parceria" na liderança depois de 45 anos de soberania limitada, e agora dissemina-se o sentimento de ser tratada como "vassala" de segunda classe.
Folha - Por que a cooperação entre regimes democráticos não é tão eficiente quanto a articulação entre grupos terroristas?
Garton Ash - Esse é o grande erro dos neoconservadores em torno de Bush em sua guerra ao terror, em comparações descabidas como uma cruzada contra o "Eixo do Mal", como a Segunda Guerra Mundial e, pior ainda, convictos de que essa guerra pode ser ganha militarmente. O que eles esquecem é que o terror é um apenas meio para chantagear diferentes objetivos políticos, e, portanto, a única maneira lógica de combatê-lo é atacar suas motivações políticas no Oriente Médio e na Ásia. Uma reconstrução do Pós-Ocidente pressupõe um trabalho de cooperação entre as democracias.
Temos que distinguir entre terrorismo e terror. O que se passa na Tchetchênia, nas Filipinas, na Indonésia, no ETA [grupo separatista basco] ou no IRA [Exército Republicano Irlandês] tem causas políticas locais diferenciadas. Há uma cooperação operativa entre as várias organizações, mas politicamente elas são muito diferenciadas. Meu livro é um manifesto para que, para além das emoções e das diferentes percepções e maneiras de pensar, possamos realizar uma análise sóbria da situação e das ameaças reais.
A ameaça é real, sem dúvida, mas somente a partir dessa perspectiva política poderemos combater o terror em suas diferentes manifestações. É do interesse comum da Europa, Estados Unidos e América Latina preservar e estender esse espaço democrático, e são justamente diferenças nesse pós-Ocidente que nos devem fornecer os meios para isso.
Folha - O Sr. compara Bush a Nero num mundo em chamas e retoma um conceito da tragédia clássica para definir sua obstinação na questão iraquiana: "hybris", a soberba que conjura a catástrofe. Poder, para Bush, como o sr. enfatiza, reduz-se simplesmente à dissuasão do poder militar. Como os europeus se acomodarão a seu segundo mandato? Seria uma saída honrosa, a médio prazo, mandar tropas da ONU para o Iraque?
Garton Ash - Bush será necessariamente mais cauteloso com seus parceiros europeus e reformulará uma oferta de cooperação. Sou da opinião de que devemos negociar a oferta. Assim como muitos, eu esperava um outro resultado, pois seria muito mais fácil negociar com Kerry as alternativas a essa crise, mas esse é "o melhor governo americano" que temos, isto é, democrático. A Europa tem um interesse comum na modernização pacífica do Oriente Médio e na questão palestina, pois são nossos imigrantes, uma minoria que nos ameaça.
Na questão da intervenção, eu não fetichizaria o papel da ONU, como é recorrente. Há uma tendência em fetichizar a ONU. Veja bem, a intervenção em Kosovo não foi legal, porém legítima. Não houve nenhuma resolução do Conselho de Segurança, mas ela foi legítima, pois se justificava para impedir um genocídio em curso e tinha em sua retaguarda o respaldo de uma maioria de nações democráticas; ou seja, essa legitimidade supera, em determinadas circunstâncias, uma noção restrita de legalidade.
Folha - O seu livro reconstrói também a longa história de inimizade entre franceses e ingleses desde Agincourt [batalha decisiva vencida pelos ingleses na Guerra dos Cem Anos, em 1415] , a mais antiga da Europa, que reaparece no estranhamento entre Blair e Chirac. No entanto o sr. reconhece que "tanto o "neochurchillista" Blair como o "eurogaulista" Chirac são irmãos em espírito". O capítulo central é dedicado à face de Janus da Inglaterra. Quais foram os erros de Blair? Uma Europa unida teria impedido a intervenção no Iraque?
Garton Ash - A Europa e a América se encontram na Inglaterra. Blair compreendeu perfeitamente que, se a Inglaterra fosse fiel à sua vocação histórica de um "relacionamento especial" com os Estados Unidos, não poderia senão desempenhar esse papel, mas Blair cometeu dois erros graves: o primeiro foi que sua tática destruiu sua estratégia. Ao colocar-se de maneira tão ostensiva ao lado de Bush contra os europeus, acabou maculando sua estratégia e prestígio dentro da Inglaterra e na Europa continental. Todas as pesquisas mostravam que não havia nos Estados Unidos uma maioria para uma intervenção no Iraque sem aliados, mas Blair acabou fornecendo o álibi que faltava, embriagado por seu carisma e projeto de liderança.
Nesse sentido, se não fosse o papel da Inglaterra, os europeus talvez tivessem impedido essa intervenção. Existe sim uma ameaça real do terrorismo, de armas de destruição em massa, mas elas não estavam no Iraque, e esse perigo está de fato no Afeganistão e na Arábia Saudita. Em segundo lugar, falta na Inglaterra um consenso mínimo em seu dilema entre integrar-se finalmente à Europa ou permanecer na posição de parceiro privilegiado dos EUA, e, nessa posição pendular, apenas uma minoria apóia essa estratégia.
A Europa dispõe de um razoável poder militar, sobretudo econômico e diplomático, mas nem os Estados Unidos nem a Europa isolados têm mais o poder para contrabalançar essas novas ameaças.
Folha - Nesse sentido, a ampliação da União Européia, nesse impasse inglês, não significaria um aprofundamento da identidade européia, mas simplesmente a consolidação de uma zona de comércio livre, como muitos ingleses desejam?
Garton Ash - Mas ela não é, já faz um bom tempo, apenas uma zona de comércio livre. Naturalmente, quando consideramos as diferenças e o peso econômico desses 25 Estados, há sim o risco de que essa identidade esteja ameaçada. Quem poderia imaginar nos anos do pós-guerra que esse processo de integração avançaria tanto? Se alguém tivesse afirmado naquela época que a União Européia integraria a Polônia e os Estados bálticos, ninguém teria acreditado.
Esta Europa não será jamais os "Estados Unidos da Europa", com uma língua, um presidente, mas nessa constelação pós-nacional de início de século o próprio sentido do poder mudou; hoje, temos "soft powers". Justamente em razão dessas mudanças, acredito que a Turquia e a Rússia devam ser admitidas inicialmente como parceiros privilegiados e, em apenas 15 ou 20 anos, se tornar membros plenos da UE. O atual governo turco, moderado, vem se empenhando ao máximo em avançar nesse processo de ocidentalização e encontrar um compromisso com a modernização, mas, mesmo assim, a resposta até agora é um não -o que tem conseqüências dramáticas no mundo islâmico.
Esse processo durará no mínimo entre dez e 15 anos. Não há precedente histórico de um processo de integração nessa escala.
Folha - O sr. escreveu seu livro na condição de "patriota europeu britânico". O que é um "patriota europeu britânico"?
Garton Ash - A diferença entre nacionalismo e patriotismo é que o nacionalismo muitas vezes é, como já apontei, uma forma de se definir negativamente contra o outro, enquanto o patriotismo tem uma conotação diferente. Um patriotismo europeu justifica-se por essa construção histórica de 50 anos entre o Atlântico e o Báltico, uma constelação extremamente diversificada de nacionalidades, unidas por um sentimento democrático, o que não significa que sejamos melhores ou piores que os americanos.
Folha - Pela primeira vez Brasil, Índia, Japão e Alemanha são candidatos a uma vaga fixa no Conselho de Segurança da ONU. Qual é o papel da América Latina neste novo contexto?
Garton Ash - O papel da América Latina é decisivo, pois é o maior continente democrático, e gostaria ouvir sua voz nesse concerto democrático. Acredito que a parte transatlântica da Europa, Espanha e Portugal, tenham assumido um um papel político decisivo nos últimos anos, com Javier Solana [chefe de política externa da União Européia] e José Manuel Barroso [presidente da Comissão Européia], ambos clássicos eurotransatlânticos, e não ingleses.
Essa voz é também cada vez mais clara nas negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) para derrubar as barreiras protecionistas do Norte. Mais da metade da humanidade vive com menos de US$ 2 por dia em razão do protecionismo agrícola. A redução de barreiras alfandegárias européias teria um efeito explosivo na extensão e consolidação dessa liberdade nessa outra metade do mundo.
Folha - O sr. vê no programa de busca Google uma ferramenta revolucionária, que destrói os segredos de Estado. Não lhe parece muito otimista essa posição?
Garton Ash - Criei recentemente um portal chamado www.freeworldweb.net. É naturalmente um experimento, no qual se podem discutir vários temas, no qual franceses, americanos ou brasileiros podem discutir entre si como num café on-line. A iniciativa de um tratado antiminas nasceu de uma articulação espontânea entre ONGs e cidadãos na internet e terminou como realidade num acordo internacional. Como podemos agir? A resposta pode ser: escrevendo e-mails, plugando-se. Essa é uma prova concreta de que a tão propalada ilusão de apatia e desinteresse pela política partidária tradicional vem encontrando outros canais para se articular.
Se no passado o grande inimigo eram os regimes totalitários, hoje nos confrontamos com a apatia pela política. Temos hoje a falsa convicção, sobretudo entre os mais jovens, de que a política é apenas um jogo dos conglomerados e que o engajamento partidário é impotente. Mas nos sobram a ação civil espontânea, seja em ONGs, passeatas. Este é um mundo de muitas ameaças mas também um mundo no qual nunca tantos homens foram tão livres. Mais da metade da humanidade vive em países democráticos, e não existe mais uma ameaça totalitária.
A revolução de 1989 foi um exemplo único em que cidadãos desarmados, munidos apenas de palavras, marcharam contra um poder totalitário e derrubaram um muro. Hoje temos que derrubar os muros da intolerância, da ignorância e do preconceito.
Onde encomendar
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Livros em inglês podem ser encomendados, em SP, na livraria Cultura (tel. 0/xx/ 11/ 3170-4033) e, no RJ, na Leonardo da Vinci (tel. 0/ xx/ 21/ 2533-2237) ou no site www.amazon.co.uk
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José Galisi Filho é doutor em germanística pela Universidade de Hanover (Alemanha).
São Paulo, domingo, 09 de janeiro de 2005
O autor de "Mundo Livre" defende o Google como forma de violar segredos de Estado e diz que EUA e Europa têm somente 20 anos para consolidar os valores democráticos no resto do planeta
JOSÉ GALISI FILHO
ESPECIAL PARA A FOLHA
O conflito entre Estados Unidos e Europa na questão iraquiana radicalizou a crise já em curso no Pacto Atlântico que se seguiu às rápidas mudanças das coordenadas geopolíticas do pós-Guerra Fria. Depois do 11 de Setembro, a emergência de um novo terrorismo desvinculado de qualquer centro de poder estatal implodiu finalmente o próprio conceito estratégico de Ocidente, vinculado à Otan [aliança militar ocidental]. A Europa perdeu seu papel de parceiro privilegiado de Washington e, em ambos os lados do Atlântico, clivagens políticas internas acentuaram o sentimento de perda de identidade que se ocultou até agora sob o "pathos" do marketing político de plantão.
Enquanto historiadores como Francis Fukuyama ["O Fim da História e o Último Homem", ed. Rocco], [o colunista do "Washington Post"] Robert Kagan ["Americanos São de Marte e os Europeus de Vênus", incluído em "Do Paraíso e do Poder", ed. Rocco], [o cientista político americano] Samuel Huntington [autor de "O Choque de Civilizações", ed. Objetiva] postulavam um "novo patriotismo" americano, e [o secretário de Defesa dos EUA] Donald Rumsfeld avacalhava os antigos parceiros Alemanha e França, que se opunham a uma aventura no Iraque, como a "Velha Europa", intelectuais europeus como Jürgen Habermas e Jacques Derrida engajavam-se na cruzada moral de uma suposta identidade européia na defesa da liberdade e do direito contra o Estado de Natureza hobbesiano do unilateralismo da Doutrina Bush [documento divulgado pela Casa Branca em 2002 que estabelece as diretrizes da política externa e de segurança dos EUA].
Para o historiador britânico Timothy Garton Ash, diretor do Centro de Estudos Europeus da Universidade de Oxford, essa exaltação dos ânimos é apenas o epifenômeno de um processo mais complexo de diferenciação do Ocidente clássico, como o conhecemos até 2001 e que não mereceu até agora uma análise detalhada de sua história remota.
Em seu novo livro ["Free World -America, Europe, and the Surprising Future of the West", Mundo Livre -América, Europa e o Surpreendente Futuro do Ocidente, Penguin, 308 págs., 17,99 libras], um ensaio-manifesto, Ash argumenta que esse espelhamento de auto-representações estereotipadas oculta a emergência de um "Pós-Ocidente".
Os EUA, divididos entre [o presidente reeleito pelo Partido Republicano George W.] Bush e [o candidato democrata John] Kerry, projetam-se, por sua vez, numa Europa e sua retaguarda intelectual polarizadas entre o "eurogaulismo" de Jacques Chirac [presidente da França] no eixo franco-alemão, na fantasia retrospectiva de uma Europa rival, contra a Inglaterra e sua tradicional face de Janus no projeto (fracassado) "neochurchillista" de Tony Blair [premiê inglês] de recuperar o papel de "relacionamento especial" na ponte transatlântica.
Essa crise, antes de dividir EUA e Europa, representaria, para Ash, a última chance de redefinir e ampliar o sentido da democracia e da liberdade no mundo com base nos valores comuns entre Estados Unidos e Europa numa frente comum diante dos novos desafios do século, como a miséria, a fome, o aquecimento global, a modernização do mundo árabe, o terrorismo, mas, sobretudo, a ascensão das novas potências asiáticas, em especial da China.
"Europeus e americanos têm, no máximo, mais 20 anos para mudar o curso da história do mundo. Essa é a nossa última chance. Caso contrário, imagino um mundo como o de "1984", do escritor George Orwell, em conflito entre blocos como Eurásia e Oceania". Garton Ash concedeu a entrevista a seguir em Hamburgo, onde estava para lançar a tradução alemã de seu livro.
Folha - O que o sr. entende como "Pós-Ocidente"?
Timothy Garton Ash - No apêndice de meu livro há vários mapas, e um deles é o dos atuais regimes democráticos. Esse mapa nos mostra que as democracias liberais já ultrapassaram há muito as fronteiras do Ocidente clássico, isto é, da Europa e dos Estados Unidos, como a América Latina, a Índia, Taiwan e África do Sul. Defendo a tese de que a crise das relações transatlânticas no pós-Guerra Fria (1989, queda do Muro de Berlim) e a partir do 11 de Setembro e da ocupação do Iraque nos coloca a questão de redefinir o mundo politicamente, ou seja, para além daqueles limites militares geoestratégicos que o caracterizaram no período bipolar da Otan.
Esse "Ocidente-Otan", contra a ameaça do Exército Vermelho, não existe mais, não pode ser restabelecido. Denomino "Pós-Ocidente" a comunidade de nações liberais que emerge dessa crise e que abriga hoje mais da metade da humanidade.
Folha - Foi sobretudo a afirmação de Donald Rumsfeld sobre a posição francesa e alemã diante do Iraque como "Velha Europa" que pôs definitivamente o dedo na ferida do orgulho continental e desencadeou uma ampla mobilização intelectual. Jürgen Habermas exigiu uma resposta à altura da "provocação americana", argumentando que a política externa de Bush seria movida apenas por interesses econômicos espúrios, enquanto a Europa representaria um pólo da cultura e da democracia. Já o escritor Durs Grünbein denominou essa reação, positivamente, como a "rebelião dos vassalos". O livro reconstrói detalhadamente essa polêmica. Como o sr. avalia o apelo de Habermas?
Garton Ash - Escrevi este livro como um europeu britânico, procurando responder a esse tipo de argumentação, isto é, procuramos um inimigo e o encontramos agora nos Estados Unidos. Essa definição negativa de Europa é insuficiente para que possamos encontrar as respostas para esta crise. Considero essa argumentação completamente absurda, definir-se negativamente em relação aos Estados Unidos.
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Chamo "Pós-Ocidente" a
comunidade de nações
liberais que emerge após a
queda do Muro e o 11/9 e
que abriga hoje mais da
metade da humanidade
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Chamo "Pós-Ocidente" a comunidade de nações liberais que emerge após a queda do Muro e o 11/9 e que abriga hoje mais da metade da humanidade
Em segundo lugar, esse núcleo de identidade européia, tal e qual Habermas o define abstratamente, não existe; existem várias composições de Estados europeus, há várias europas superpostas, uma Europa da política de defesa, uma Europa dos subsídios agrícolas. O que Habermas postula é que a Europa seria "outra", mas esse outro, ou seja, a não-América, significa "somos melhores". Esse raciocínio, muito em curso hoje, mesclado com um sentimento antiamericano já arraigado na França e na Alemanha, é uma simplificação inadmissível.
Os europeus se orgulham de terem abolido a pena de morte e opõem conquistas da democracia social e valores como solidariedade, defesa ambiental, multilateralidade a uma América supostamente hobbesiana e arcaica, que se impõe pela força. É um fenômeno interessante. Se você levar em conta as teses de Fukuyama, Huntington e Kagan, ou seja, idéias que alimentam o mundo folhetinesco e tangenciam com o senso comum, então perceberemos que essa autodefinição da Europa, ironicamente, é, por sua vez, um reflexo distorcido desses esquemas simplificatórios. Haveria assim, supostamente, dois ocidentes, um europeu e um americano.
Denomino essa generalização em meu livro como "fábula das duas europas", tolices como os europeus são de Vênus e a América de Marte. Por sua vez, também se dissemina nos Estados Unidos esse tipo de generalização caricata em relação à Europa. Numa análise mais sóbria, veremos então as linhas divisórias que atravessam cada uma dessas sociedades. Do ponto de vista histórico, haveria assim uma posição "eurogaulista" e "euroatlântica" ou "neochurchillista".
A questão central prática é encontrar uma convergência na política de defesa comum para a União Européia. Esse seria o passo decisivo para encontrar um compromisso entre os dois pólos dessa Europa dos 25, entre Inglaterra e França, entre o "eurogaulismo" de Jacques Chirac, ou seja, esta péssima fantasia de uma Europa rival da América, e Tony Blair, com seu "churchillismo" de "relacionamento especial". E o papel da Alemanha seria central como moderador desses dois pólos.
Folha - Mas a Alemanha no momento é um vale de lamúrias, enclausurada na lógica de sua própria crise econômica. Os alemães, justificadamente, têm sérias dúvidas sobre seu futuro e apenas uma certeza: seu declínio.
Garton Ash - A Alemanha é o paciente europeu, todos sabem que a economia alemã está debilitada depois da reunificação e sua situação social, em razão das reformas e ajustes fiscais, declinou consideravelmente nos últimos anos. Mas mesmo uma Alemanha economicamente enfraquecida tem um peso decisivo nessa mediação, pois ela é o centro político meridiano do continente entre essas duas contracorrentes.
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Há uma tendência em
fetichizar a ONU; veja bem,
a intervenção em Kosovo não
foi legal, porém legítima
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Na questão iraquiana, embora a França tenha liderado a recusa, foi a Alemanha que deu o golpe decisivo em 2002 e não em razão apenas de um cálculo eleitoral. Chamei o capítulo de "A Posição dos Sentimentos Alemães".
Mais do que na Inglaterra e França, existe na Alemanha a memória de um trauma duradouro em razão da devastação completa de suas cidades pelo bombardeio aéreo, um verdadeiro repúdio a qualquer forma de guerra que vem sendo recuperado na historiografia e no debate público. Bush pai tinha prometido à Alemanha reunificada uma "parceria" na liderança depois de 45 anos de soberania limitada, e agora dissemina-se o sentimento de ser tratada como "vassala" de segunda classe.
Folha - Por que a cooperação entre regimes democráticos não é tão eficiente quanto a articulação entre grupos terroristas?
Garton Ash - Esse é o grande erro dos neoconservadores em torno de Bush em sua guerra ao terror, em comparações descabidas como uma cruzada contra o "Eixo do Mal", como a Segunda Guerra Mundial e, pior ainda, convictos de que essa guerra pode ser ganha militarmente. O que eles esquecem é que o terror é um apenas meio para chantagear diferentes objetivos políticos, e, portanto, a única maneira lógica de combatê-lo é atacar suas motivações políticas no Oriente Médio e na Ásia. Uma reconstrução do Pós-Ocidente pressupõe um trabalho de cooperação entre as democracias.
Temos que distinguir entre terrorismo e terror. O que se passa na Tchetchênia, nas Filipinas, na Indonésia, no ETA [grupo separatista basco] ou no IRA [Exército Republicano Irlandês] tem causas políticas locais diferenciadas. Há uma cooperação operativa entre as várias organizações, mas politicamente elas são muito diferenciadas. Meu livro é um manifesto para que, para além das emoções e das diferentes percepções e maneiras de pensar, possamos realizar uma análise sóbria da situação e das ameaças reais.
A ameaça é real, sem dúvida, mas somente a partir dessa perspectiva política poderemos combater o terror em suas diferentes manifestações. É do interesse comum da Europa, Estados Unidos e América Latina preservar e estender esse espaço democrático, e são justamente diferenças nesse pós-Ocidente que nos devem fornecer os meios para isso.
Folha - O Sr. compara Bush a Nero num mundo em chamas e retoma um conceito da tragédia clássica para definir sua obstinação na questão iraquiana: "hybris", a soberba que conjura a catástrofe. Poder, para Bush, como o sr. enfatiza, reduz-se simplesmente à dissuasão do poder militar. Como os europeus se acomodarão a seu segundo mandato? Seria uma saída honrosa, a médio prazo, mandar tropas da ONU para o Iraque?
Garton Ash - Bush será necessariamente mais cauteloso com seus parceiros europeus e reformulará uma oferta de cooperação. Sou da opinião de que devemos negociar a oferta. Assim como muitos, eu esperava um outro resultado, pois seria muito mais fácil negociar com Kerry as alternativas a essa crise, mas esse é "o melhor governo americano" que temos, isto é, democrático. A Europa tem um interesse comum na modernização pacífica do Oriente Médio e na questão palestina, pois são nossos imigrantes, uma minoria que nos ameaça.
Na questão da intervenção, eu não fetichizaria o papel da ONU, como é recorrente. Há uma tendência em fetichizar a ONU. Veja bem, a intervenção em Kosovo não foi legal, porém legítima. Não houve nenhuma resolução do Conselho de Segurança, mas ela foi legítima, pois se justificava para impedir um genocídio em curso e tinha em sua retaguarda o respaldo de uma maioria de nações democráticas; ou seja, essa legitimidade supera, em determinadas circunstâncias, uma noção restrita de legalidade.
Folha - O seu livro reconstrói também a longa história de inimizade entre franceses e ingleses desde Agincourt [batalha decisiva vencida pelos ingleses na Guerra dos Cem Anos, em 1415] , a mais antiga da Europa, que reaparece no estranhamento entre Blair e Chirac. No entanto o sr. reconhece que "tanto o "neochurchillista" Blair como o "eurogaulista" Chirac são irmãos em espírito". O capítulo central é dedicado à face de Janus da Inglaterra. Quais foram os erros de Blair? Uma Europa unida teria impedido a intervenção no Iraque?
Garton Ash - A Europa e a América se encontram na Inglaterra. Blair compreendeu perfeitamente que, se a Inglaterra fosse fiel à sua vocação histórica de um "relacionamento especial" com os Estados Unidos, não poderia senão desempenhar esse papel, mas Blair cometeu dois erros graves: o primeiro foi que sua tática destruiu sua estratégia. Ao colocar-se de maneira tão ostensiva ao lado de Bush contra os europeus, acabou maculando sua estratégia e prestígio dentro da Inglaterra e na Europa continental. Todas as pesquisas mostravam que não havia nos Estados Unidos uma maioria para uma intervenção no Iraque sem aliados, mas Blair acabou fornecendo o álibi que faltava, embriagado por seu carisma e projeto de liderança.
Nesse sentido, se não fosse o papel da Inglaterra, os europeus talvez tivessem impedido essa intervenção. Existe sim uma ameaça real do terrorismo, de armas de destruição em massa, mas elas não estavam no Iraque, e esse perigo está de fato no Afeganistão e na Arábia Saudita. Em segundo lugar, falta na Inglaterra um consenso mínimo em seu dilema entre integrar-se finalmente à Europa ou permanecer na posição de parceiro privilegiado dos EUA, e, nessa posição pendular, apenas uma minoria apóia essa estratégia.
A Europa dispõe de um razoável poder militar, sobretudo econômico e diplomático, mas nem os Estados Unidos nem a Europa isolados têm mais o poder para contrabalançar essas novas ameaças.
Folha - Nesse sentido, a ampliação da União Européia, nesse impasse inglês, não significaria um aprofundamento da identidade européia, mas simplesmente a consolidação de uma zona de comércio livre, como muitos ingleses desejam?
Garton Ash - Mas ela não é, já faz um bom tempo, apenas uma zona de comércio livre. Naturalmente, quando consideramos as diferenças e o peso econômico desses 25 Estados, há sim o risco de que essa identidade esteja ameaçada. Quem poderia imaginar nos anos do pós-guerra que esse processo de integração avançaria tanto? Se alguém tivesse afirmado naquela época que a União Européia integraria a Polônia e os Estados bálticos, ninguém teria acreditado.
Esta Europa não será jamais os "Estados Unidos da Europa", com uma língua, um presidente, mas nessa constelação pós-nacional de início de século o próprio sentido do poder mudou; hoje, temos "soft powers". Justamente em razão dessas mudanças, acredito que a Turquia e a Rússia devam ser admitidas inicialmente como parceiros privilegiados e, em apenas 15 ou 20 anos, se tornar membros plenos da UE. O atual governo turco, moderado, vem se empenhando ao máximo em avançar nesse processo de ocidentalização e encontrar um compromisso com a modernização, mas, mesmo assim, a resposta até agora é um não -o que tem conseqüências dramáticas no mundo islâmico.
Esse processo durará no mínimo entre dez e 15 anos. Não há precedente histórico de um processo de integração nessa escala.
Folha - O sr. escreveu seu livro na condição de "patriota europeu britânico". O que é um "patriota europeu britânico"?
Garton Ash - A diferença entre nacionalismo e patriotismo é que o nacionalismo muitas vezes é, como já apontei, uma forma de se definir negativamente contra o outro, enquanto o patriotismo tem uma conotação diferente. Um patriotismo europeu justifica-se por essa construção histórica de 50 anos entre o Atlântico e o Báltico, uma constelação extremamente diversificada de nacionalidades, unidas por um sentimento democrático, o que não significa que sejamos melhores ou piores que os americanos.
Folha - Pela primeira vez Brasil, Índia, Japão e Alemanha são candidatos a uma vaga fixa no Conselho de Segurança da ONU. Qual é o papel da América Latina neste novo contexto?
Garton Ash - O papel da América Latina é decisivo, pois é o maior continente democrático, e gostaria ouvir sua voz nesse concerto democrático. Acredito que a parte transatlântica da Europa, Espanha e Portugal, tenham assumido um um papel político decisivo nos últimos anos, com Javier Solana [chefe de política externa da União Européia] e José Manuel Barroso [presidente da Comissão Européia], ambos clássicos eurotransatlânticos, e não ingleses.
Essa voz é também cada vez mais clara nas negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) para derrubar as barreiras protecionistas do Norte. Mais da metade da humanidade vive com menos de US$ 2 por dia em razão do protecionismo agrícola. A redução de barreiras alfandegárias européias teria um efeito explosivo na extensão e consolidação dessa liberdade nessa outra metade do mundo.
Folha - O sr. vê no programa de busca Google uma ferramenta revolucionária, que destrói os segredos de Estado. Não lhe parece muito otimista essa posição?
Garton Ash - Criei recentemente um portal chamado www.freeworldweb.net. É naturalmente um experimento, no qual se podem discutir vários temas, no qual franceses, americanos ou brasileiros podem discutir entre si como num café on-line. A iniciativa de um tratado antiminas nasceu de uma articulação espontânea entre ONGs e cidadãos na internet e terminou como realidade num acordo internacional. Como podemos agir? A resposta pode ser: escrevendo e-mails, plugando-se. Essa é uma prova concreta de que a tão propalada ilusão de apatia e desinteresse pela política partidária tradicional vem encontrando outros canais para se articular.
Se no passado o grande inimigo eram os regimes totalitários, hoje nos confrontamos com a apatia pela política. Temos hoje a falsa convicção, sobretudo entre os mais jovens, de que a política é apenas um jogo dos conglomerados e que o engajamento partidário é impotente. Mas nos sobram a ação civil espontânea, seja em ONGs, passeatas. Este é um mundo de muitas ameaças mas também um mundo no qual nunca tantos homens foram tão livres. Mais da metade da humanidade vive em países democráticos, e não existe mais uma ameaça totalitária.
A revolução de 1989 foi um exemplo único em que cidadãos desarmados, munidos apenas de palavras, marcharam contra um poder totalitário e derrubaram um muro. Hoje temos que derrubar os muros da intolerância, da ignorância e do preconceito.
Onde encomendar
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José Galisi Filho é doutor em germanística pela Universidade de Hanover (Alemanha).
"O espaço é nosso lar" Entrevista - Sergei Krikalev (Veja)
Edição de 11/28/2001
O astronauta russo pioneiro das estações orbitais diz que a humanidade vai um dia abandonar a Terra
José Galisi Filho, de Moscou
Aos 43 anos, o russo Sergei Krikalev é o astronauta mais experiente em atividade no mundo. Em treze anos de carreira, viajou cinco vezes para o espaço. Engenheiro de vôo de duas missões à estação Mir, destruída no começo do ano, Krikalev agora se dedica à construção da Estação Espacial Internacional, que está sendo montada a 420 quilômetros da Terra. Participou da primeira missão de montagem da estação, quando o módulo americano Unity foi acoplado ao russo Zarya, em 1998. Também fez parte da primeira equipe de astronautas a morar na estação, de novembro de 2000 a março deste ano. Em sua mais longa missão, viveu dez meses no espaço, na Mir, entre 1991 e 1992, cinco além do previsto. Nesse período, a União Soviética implodiu. Krikalev decolou soviético e aterrissou russo. “Ficamos preocupados com nossos parentes e amigos que estavam em Moscou, que chegou a ser sitiada por tanques, mas tínhamos de cumprir todas as tarefas de bordo, e não faria a menor diferença se esse trabalho fosse pela Rússia como Estado independente ou pela velha União Soviética”, diz ele. Casado, pai de uma filha, Krikalev falou a VEJA no complexo de treinamento de astronautas conhecido como Cidade das Estrelas, nos arredores de Moscou.
Veja — As imagens da destruição do World Trade Center foram registradas por satélites. Elas seriam vistas a olho nu por astronautas em órbita da Terra?
Krikalev — A 420 quilômetros de altitude, a órbita das estações espaciais, podemos ver catástrofes, sejam naturais, sejam humanas. Elas deixam traços indeléveis na paisagem. Erupções vulcânicas, desmatamentos ou mesmo mobilizações militares de larga escala, como a que os Estados Unidos estão organizando neste momento, são bem visíveis. É possível observar também, daquele ponto de vista, os melhores produtos da inteligência e do trabalho humanos, como grandes represas e usinas.
Veja — Agora que os russos perderam a Mir, seus cosmonautas serão apenas coadjuvantes na ISS, a nova Estação Espacial Internacional?
Krikalev — Os americanos são nossos parceiros em pé de igualdade, e essa parceria é a premissa de qualquer desdobramento do que venha a ser o futuro da ISS. Nossa longa experiência no espaço converge e amadurece agora na ISS. Como uma parte de meu treinamento é realizada em Houston — já decolei duas vezes com o ônibus espacial, em 1994 e 1998 —, sei que a imprensa americana ainda alimenta essa idéia nostálgica de que a ISS será uma estação com participação majoritária dos Estados Unidos. Mas a ISS já nasceu como um consórcio internacional, e sua realidade não cabe naqueles estereótipos do programa espacial nacional americano, como ele foi durante a Guerra Fria.
Veja — Por que a tentativa de utilizar comercialmente a Mir fracassou?
Krikalev — Quando a Mir foi lançada, em 1986, essa questão não se colocava de maneira alguma. Ela era produto de um programa espacial estatal. Não acho que se possa aplicar às estações orbitais e à pesquisa espacial a mesma lógica de rentabilidade de curto prazo do mercado — essa lógica não funciona por lá, pois depende e sempre dependerá de investimentos estatais maciços.
Veja — Qual foi a maior conquista da Mir?
Krikalev — Só o fato de a Mir ter permanecido quinze anos em órbita já é, em si, uma proeza, pois ela havia sido concebida inicialmente para três anos. Aprendemos na Mir a trabalhar de maneira autônoma por períodos longos. Houve no passado também vôos longos, de seis meses ou mais, mas somente na Mir foi possível realizar experimentos contínuos durante um ano ou mais. Ela foi o primeiro habitat humano estável fora deste planeta. Com ela aprendemos a montar, a reparar e a administrar estruturas complexas em órbita. Isso era uma grande arte. A Mir exigia perícia para mantê-la operacional. Desenvolvemos no decorrer destes anos programas complexos para o monitoramento dessa estrutura.
Veja — O que o senhor acha da idéia de levar “turistas” para estações orbitais, como o milionário americano Dennis Tito, que voou em maio?
Krikalev — Tito foi uma exceção. Queria voar de todo jeito para o espaço e estava disposto a pagar qualquer preço por isso. Ele tinha a possibilidade de viajar com o ônibus espacial para a ISS ou para a Mir. Quando a Mir foi desativada, ele então acabou indo para a ISS. Não gostaria de fazer juízos de valor. Por enquanto não há lugar para “turistas” no espaço. Nenhuma decolagem é rotina, como nos recorda a Challenger, que explodiu ao decolar, em 1986.
Veja — O que o senhor sentiu quando a Mir finalmente se desintegrou sobre o Pacífico?
Krikalev — Não pude estar presente na central de controle, pois me encontrava em quarentena depois de retornar de um longo vôo na ISS. A Mir foi minha casa e meu ambiente de trabalho por quinze meses. Eu a conhecia em cada detalhe. Ela era parte de minha vida e também o coroamento de minha experiência profissional. Aposentá-la equivaleu a encerrar um capítulo de minha vida. Mas, afinal, ela chegou ao fim de sua vida útil. O próprio processo de desativação pode ser considerado também uma proeza técnica.
Veja — As mulheres adaptam-se tão bem às condições impostas pelas viagens espaciais quanto os homens?
Krikalev — A perda óssea é mais crítica para as mulheres. Elas têm a ossatura menos densa que a dos homens. O espaço é um meio muito hostil para o corpo humano, independentemente do sexo, sobretudo por causa da ausência de gravidade. Nessa situação, o organismo entende que não precisa tanto do esqueleto e passa a desestimular a acumulação de cálcio nos ossos. Já existem abordagens médicas para essa condição. Contornado esse problema, as mulheres são capazes de desempenhar com a mesma destreza a maioria das tarefas exigidas pelo programa. Nessa fase inicial de montagem da ISS, mulheres não serão muito empregadas porque o trabalho externo exige muita força muscular.
Veja — O senhor decolou em sua segunda missão à Mir como astronauta soviético, em maio de 1991, e retornou à Terra como russo, um estrangeiro, em março de 1992. Como acompanhou em órbita a desintegração da União Soviética?
Krikalev — Não, eu não concordo que tenha retornado como “estrangeiro”. Meu uniforme ainda tinha a bandeira da União Soviética, que não existia mais, mas eu decolara de Baikonur, no Cazaquistão, e retornara ao mesmo Cazaquistão. A diferença é que naquela missão a União Soviética desapareceu como realidade política, dissolvendo-se em repúblicas soberanas. Foi uma mudança de estrutura política, mas esses acontecimentos não interferiram imediatamente na rotina da estação. Lembro-me de que em 19 de agosto de 1991 o pessoal de terra nos passou as instruções do dia de maneira mais lacônica que de costume. Órbitas depois, eles sintonizaram a rádio de Moscou na estação e soubemos então, com atraso de três horas, que tanques haviam tomado partes da capital. Ficamos preocupados com nossos parentes e amigos que estavam lá, mas tínhamos de cumprir todas as tarefas de bordo, e não faria a menor diferença se esse trabalho fosse para a Rússia como Estado independente ou para a União Soviética. Em cada tarefa que desempenhamos em órbita, por menor que seja, há centenas de cientistas em terra que a respaldam. Toda a nossa concentração deve estar voltada para os detalhes. Nosso cotidiano no espaço é sobrecarregado de tarefas de monitoramento, experimentos, e não há quase intervalos para assuntos pessoais, quanto mais para uma reflexão política. Só depois pude avaliar melhor o que acontecera. Na época, minha família e meus amigos do controle me pouparam dos detalhes, não queriam interferir em meu trabalho.
Veja — Os americanos perderam até hoje dez astronautas em seu programa espacial e todos são cultuados como heróis. As tragédias do programa russo custaram a vida de centenas de cientistas e técnicos cujos nomes foram mantidos sob sigilo e nunca tiveram seu lugar na história. O senhor não lamenta isso?
Krikalev — Não posso concordar com você que essas vítimas não sejam conhecidas ou não tenham um lugar em nossa história. Houve muitas catástrofes e, mesmo no auge da Guerra Fria, em 1960, grandes acidentes, como o que aconteceu na rampa de lançamento em Baikonur, foram divulgados. Eu já visitei o monumento a essas vítimas e depositei lá uma coroa de flores. Não eram astronautas, mas, sim, técnicos e cientistas que estavam na rampa quando a contagem regressiva foi disparada. Gagarin, por exemplo, também morreu num treino, e não como astronauta, e foi enterrado como herói soviético dentro dos muros do Kremlin. São fatos notórios. É claro que, no nosso mundo de artistas e celebridades, as pessoas não se interessam mais pelas tragédias dos pioneiros do programa espacial. Pertencem a um tempo que hoje parece muito remoto.
Veja — Por que o governo soviético ainda tem tanta dificuldade em falar a verdade, como se viu no episódio do afundamento do submarino nuclear Kursk?
Krikalev — Assim como aconteceu às vésperas dos ataques americanos contra o Afeganistão, o afundamento do Kursk envolvia segredos militares vitais da Rússia. Nenhum jornalista, por mais bem informado que estivesse, podia afirmar ao certo quando e como os americanos iriam atacar. No caso do Kursk, nos primeiros dias, reinou um verdadeiro caos, e os responsáveis pela tragédia estavam fora do alvo da imprensa. Apenas funcionários de segundo escalão apareceram, pessoas que não sabiam de nada e que pioraram muito as coisas. É uma prática habitual que, infelizmente, cerca os serviços de segurança. Mas nos últimos anos isso vem mudando na Rússia pela pressão da sociedade, que exige cada vez mais transparência e abertura. Sabemos que houve enorme incompetência no caso do Kursk, que resultou num desperdício monumental de vidas e recursos. A sociedade soviética aprendeu com essa tragédia que precisa haver transparência e o governo deve ser sempre questionado com dureza. Nunca saberemos ao certo o que ocorreu, mas a opinião pública está cada vez mais ativa na Rússia.
Veja — Quando será viável uma expedição tripulada a Marte?
Krikalev — Acho que ainda não estamos preparados para esse desafio, tanto do ponto de vista tecnológico quanto do social. É um empreendimento tão grandioso que implica um estágio civilizatório e de cooperação que não atingimos ainda. Mais cedo ou mais tarde, nossa espécie terá de começar a pensar em abandonar este planeta, e, ao que tudo indica, não temos opções dentro de nosso sistema solar. É uma situação semelhante à da Europa no século XV. A humanidade estava na margem dos grandes oceanos e nem sequer sabia se poderia atravessá-los. À época, parecia impossível descobrir e dominar outros continentes. O mesmo se coloca agora na infância de nossa história espacial. Viajaremos para outros planetas e para outras estrelas mais cedo ou mais tarde. É um processo natural. No começo, parecia que nossas possibilidades eram quase ilimitadas, mas logo se revelou quanto esse caminho seria longo, caro e cheio de sacrifícios. Mas estou convencido de que está inscrita na natureza do homem essa vocação. Estamos aqui sentados nesta margem do oceano e sonhamos com a outra. Queremos saber de qualquer maneira o que está do outro lado.
Veja — Como é o Brasil visto do espaço?
Krikalev — É um verde intenso que depois contrasta com o azul do Atlântico. A Floresta Amazônica é um continente inteiro. Outra situação muito interessante de observar são as variações das estações do ano e os contrastes entre o inverno e o verão no hemisfério norte e no sul. São impressionantes. Mas o efeito da devastação das florestas pelo desmatamento e pelas queimadas é visível lá de cima.
Veja — Vários astronautas do projeto Apollo se voltaram para o misticismo depois de retornar da Lua. O espaço também mudou sua vida?
Krikalev — Acho que essa virada em direção ao misticismo e a busca de explicação na religião são exceções. Seria exagero tomá-las como modelo. A imensa maioria dos astronautas que conheço são pessoas normais e de bom humor.
Veja — Impactos catastróficos de meteoros, como o de Tunguska, na Sibéria, que caiu em 1908, são um risco real para o futuro da humanidade?
Krikalev — Se nós fomos capazes de manter a Mir em órbita por quinze anos, também teríamos, em princípio, as condições de desenvolver uma tecnologia para desviar um meteoro que caísse sobre a Terra. Mas isso ainda não é possível. Precisamos de novos computadores e programas de vigilância mais precisos. No atual estágio, não podemos antecipar exatamente quais são os corpos do cinturão de asteróides que nos ameaçam mais.
O astronauta russo pioneiro das estações orbitais diz que a humanidade vai um dia abandonar a Terra
José Galisi Filho, de Moscou
Aos 43 anos, o russo Sergei Krikalev é o astronauta mais experiente em atividade no mundo. Em treze anos de carreira, viajou cinco vezes para o espaço. Engenheiro de vôo de duas missões à estação Mir, destruída no começo do ano, Krikalev agora se dedica à construção da Estação Espacial Internacional, que está sendo montada a 420 quilômetros da Terra. Participou da primeira missão de montagem da estação, quando o módulo americano Unity foi acoplado ao russo Zarya, em 1998. Também fez parte da primeira equipe de astronautas a morar na estação, de novembro de 2000 a março deste ano. Em sua mais longa missão, viveu dez meses no espaço, na Mir, entre 1991 e 1992, cinco além do previsto. Nesse período, a União Soviética implodiu. Krikalev decolou soviético e aterrissou russo. “Ficamos preocupados com nossos parentes e amigos que estavam em Moscou, que chegou a ser sitiada por tanques, mas tínhamos de cumprir todas as tarefas de bordo, e não faria a menor diferença se esse trabalho fosse pela Rússia como Estado independente ou pela velha União Soviética”, diz ele. Casado, pai de uma filha, Krikalev falou a VEJA no complexo de treinamento de astronautas conhecido como Cidade das Estrelas, nos arredores de Moscou.
Veja — As imagens da destruição do World Trade Center foram registradas por satélites. Elas seriam vistas a olho nu por astronautas em órbita da Terra?
Krikalev — A 420 quilômetros de altitude, a órbita das estações espaciais, podemos ver catástrofes, sejam naturais, sejam humanas. Elas deixam traços indeléveis na paisagem. Erupções vulcânicas, desmatamentos ou mesmo mobilizações militares de larga escala, como a que os Estados Unidos estão organizando neste momento, são bem visíveis. É possível observar também, daquele ponto de vista, os melhores produtos da inteligência e do trabalho humanos, como grandes represas e usinas.
Veja — Agora que os russos perderam a Mir, seus cosmonautas serão apenas coadjuvantes na ISS, a nova Estação Espacial Internacional?
Krikalev — Os americanos são nossos parceiros em pé de igualdade, e essa parceria é a premissa de qualquer desdobramento do que venha a ser o futuro da ISS. Nossa longa experiência no espaço converge e amadurece agora na ISS. Como uma parte de meu treinamento é realizada em Houston — já decolei duas vezes com o ônibus espacial, em 1994 e 1998 —, sei que a imprensa americana ainda alimenta essa idéia nostálgica de que a ISS será uma estação com participação majoritária dos Estados Unidos. Mas a ISS já nasceu como um consórcio internacional, e sua realidade não cabe naqueles estereótipos do programa espacial nacional americano, como ele foi durante a Guerra Fria.
Veja — Por que a tentativa de utilizar comercialmente a Mir fracassou?
Krikalev — Quando a Mir foi lançada, em 1986, essa questão não se colocava de maneira alguma. Ela era produto de um programa espacial estatal. Não acho que se possa aplicar às estações orbitais e à pesquisa espacial a mesma lógica de rentabilidade de curto prazo do mercado — essa lógica não funciona por lá, pois depende e sempre dependerá de investimentos estatais maciços.
Veja — Qual foi a maior conquista da Mir?
Krikalev — Só o fato de a Mir ter permanecido quinze anos em órbita já é, em si, uma proeza, pois ela havia sido concebida inicialmente para três anos. Aprendemos na Mir a trabalhar de maneira autônoma por períodos longos. Houve no passado também vôos longos, de seis meses ou mais, mas somente na Mir foi possível realizar experimentos contínuos durante um ano ou mais. Ela foi o primeiro habitat humano estável fora deste planeta. Com ela aprendemos a montar, a reparar e a administrar estruturas complexas em órbita. Isso era uma grande arte. A Mir exigia perícia para mantê-la operacional. Desenvolvemos no decorrer destes anos programas complexos para o monitoramento dessa estrutura.
Veja — O que o senhor acha da idéia de levar “turistas” para estações orbitais, como o milionário americano Dennis Tito, que voou em maio?
Krikalev — Tito foi uma exceção. Queria voar de todo jeito para o espaço e estava disposto a pagar qualquer preço por isso. Ele tinha a possibilidade de viajar com o ônibus espacial para a ISS ou para a Mir. Quando a Mir foi desativada, ele então acabou indo para a ISS. Não gostaria de fazer juízos de valor. Por enquanto não há lugar para “turistas” no espaço. Nenhuma decolagem é rotina, como nos recorda a Challenger, que explodiu ao decolar, em 1986.
Veja — O que o senhor sentiu quando a Mir finalmente se desintegrou sobre o Pacífico?
Krikalev — Não pude estar presente na central de controle, pois me encontrava em quarentena depois de retornar de um longo vôo na ISS. A Mir foi minha casa e meu ambiente de trabalho por quinze meses. Eu a conhecia em cada detalhe. Ela era parte de minha vida e também o coroamento de minha experiência profissional. Aposentá-la equivaleu a encerrar um capítulo de minha vida. Mas, afinal, ela chegou ao fim de sua vida útil. O próprio processo de desativação pode ser considerado também uma proeza técnica.
Veja — As mulheres adaptam-se tão bem às condições impostas pelas viagens espaciais quanto os homens?
Krikalev — A perda óssea é mais crítica para as mulheres. Elas têm a ossatura menos densa que a dos homens. O espaço é um meio muito hostil para o corpo humano, independentemente do sexo, sobretudo por causa da ausência de gravidade. Nessa situação, o organismo entende que não precisa tanto do esqueleto e passa a desestimular a acumulação de cálcio nos ossos. Já existem abordagens médicas para essa condição. Contornado esse problema, as mulheres são capazes de desempenhar com a mesma destreza a maioria das tarefas exigidas pelo programa. Nessa fase inicial de montagem da ISS, mulheres não serão muito empregadas porque o trabalho externo exige muita força muscular.
Veja — O senhor decolou em sua segunda missão à Mir como astronauta soviético, em maio de 1991, e retornou à Terra como russo, um estrangeiro, em março de 1992. Como acompanhou em órbita a desintegração da União Soviética?
Krikalev — Não, eu não concordo que tenha retornado como “estrangeiro”. Meu uniforme ainda tinha a bandeira da União Soviética, que não existia mais, mas eu decolara de Baikonur, no Cazaquistão, e retornara ao mesmo Cazaquistão. A diferença é que naquela missão a União Soviética desapareceu como realidade política, dissolvendo-se em repúblicas soberanas. Foi uma mudança de estrutura política, mas esses acontecimentos não interferiram imediatamente na rotina da estação. Lembro-me de que em 19 de agosto de 1991 o pessoal de terra nos passou as instruções do dia de maneira mais lacônica que de costume. Órbitas depois, eles sintonizaram a rádio de Moscou na estação e soubemos então, com atraso de três horas, que tanques haviam tomado partes da capital. Ficamos preocupados com nossos parentes e amigos que estavam lá, mas tínhamos de cumprir todas as tarefas de bordo, e não faria a menor diferença se esse trabalho fosse para a Rússia como Estado independente ou para a União Soviética. Em cada tarefa que desempenhamos em órbita, por menor que seja, há centenas de cientistas em terra que a respaldam. Toda a nossa concentração deve estar voltada para os detalhes. Nosso cotidiano no espaço é sobrecarregado de tarefas de monitoramento, experimentos, e não há quase intervalos para assuntos pessoais, quanto mais para uma reflexão política. Só depois pude avaliar melhor o que acontecera. Na época, minha família e meus amigos do controle me pouparam dos detalhes, não queriam interferir em meu trabalho.
Veja — Os americanos perderam até hoje dez astronautas em seu programa espacial e todos são cultuados como heróis. As tragédias do programa russo custaram a vida de centenas de cientistas e técnicos cujos nomes foram mantidos sob sigilo e nunca tiveram seu lugar na história. O senhor não lamenta isso?
Krikalev — Não posso concordar com você que essas vítimas não sejam conhecidas ou não tenham um lugar em nossa história. Houve muitas catástrofes e, mesmo no auge da Guerra Fria, em 1960, grandes acidentes, como o que aconteceu na rampa de lançamento em Baikonur, foram divulgados. Eu já visitei o monumento a essas vítimas e depositei lá uma coroa de flores. Não eram astronautas, mas, sim, técnicos e cientistas que estavam na rampa quando a contagem regressiva foi disparada. Gagarin, por exemplo, também morreu num treino, e não como astronauta, e foi enterrado como herói soviético dentro dos muros do Kremlin. São fatos notórios. É claro que, no nosso mundo de artistas e celebridades, as pessoas não se interessam mais pelas tragédias dos pioneiros do programa espacial. Pertencem a um tempo que hoje parece muito remoto.
Veja — Por que o governo soviético ainda tem tanta dificuldade em falar a verdade, como se viu no episódio do afundamento do submarino nuclear Kursk?
Krikalev — Assim como aconteceu às vésperas dos ataques americanos contra o Afeganistão, o afundamento do Kursk envolvia segredos militares vitais da Rússia. Nenhum jornalista, por mais bem informado que estivesse, podia afirmar ao certo quando e como os americanos iriam atacar. No caso do Kursk, nos primeiros dias, reinou um verdadeiro caos, e os responsáveis pela tragédia estavam fora do alvo da imprensa. Apenas funcionários de segundo escalão apareceram, pessoas que não sabiam de nada e que pioraram muito as coisas. É uma prática habitual que, infelizmente, cerca os serviços de segurança. Mas nos últimos anos isso vem mudando na Rússia pela pressão da sociedade, que exige cada vez mais transparência e abertura. Sabemos que houve enorme incompetência no caso do Kursk, que resultou num desperdício monumental de vidas e recursos. A sociedade soviética aprendeu com essa tragédia que precisa haver transparência e o governo deve ser sempre questionado com dureza. Nunca saberemos ao certo o que ocorreu, mas a opinião pública está cada vez mais ativa na Rússia.
Veja — Quando será viável uma expedição tripulada a Marte?
Krikalev — Acho que ainda não estamos preparados para esse desafio, tanto do ponto de vista tecnológico quanto do social. É um empreendimento tão grandioso que implica um estágio civilizatório e de cooperação que não atingimos ainda. Mais cedo ou mais tarde, nossa espécie terá de começar a pensar em abandonar este planeta, e, ao que tudo indica, não temos opções dentro de nosso sistema solar. É uma situação semelhante à da Europa no século XV. A humanidade estava na margem dos grandes oceanos e nem sequer sabia se poderia atravessá-los. À época, parecia impossível descobrir e dominar outros continentes. O mesmo se coloca agora na infância de nossa história espacial. Viajaremos para outros planetas e para outras estrelas mais cedo ou mais tarde. É um processo natural. No começo, parecia que nossas possibilidades eram quase ilimitadas, mas logo se revelou quanto esse caminho seria longo, caro e cheio de sacrifícios. Mas estou convencido de que está inscrita na natureza do homem essa vocação. Estamos aqui sentados nesta margem do oceano e sonhamos com a outra. Queremos saber de qualquer maneira o que está do outro lado.
Veja — Como é o Brasil visto do espaço?
Krikalev — É um verde intenso que depois contrasta com o azul do Atlântico. A Floresta Amazônica é um continente inteiro. Outra situação muito interessante de observar são as variações das estações do ano e os contrastes entre o inverno e o verão no hemisfério norte e no sul. São impressionantes. Mas o efeito da devastação das florestas pelo desmatamento e pelas queimadas é visível lá de cima.
Veja — Vários astronautas do projeto Apollo se voltaram para o misticismo depois de retornar da Lua. O espaço também mudou sua vida?
Krikalev — Acho que essa virada em direção ao misticismo e a busca de explicação na religião são exceções. Seria exagero tomá-las como modelo. A imensa maioria dos astronautas que conheço são pessoas normais e de bom humor.
Veja — Impactos catastróficos de meteoros, como o de Tunguska, na Sibéria, que caiu em 1908, são um risco real para o futuro da humanidade?
Krikalev — Se nós fomos capazes de manter a Mir em órbita por quinze anos, também teríamos, em princípio, as condições de desenvolver uma tecnologia para desviar um meteoro que caísse sobre a Terra. Mas isso ainda não é possível. Precisamos de novos computadores e programas de vigilância mais precisos. No atual estágio, não podemos antecipar exatamente quais são os corpos do cinturão de asteróides que nos ameaçam mais.
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