The technological imagination from the early Romanticism through the historical Avant-Gardes to the Classical Space Age and beyond
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Faun - Sieben
7 Rosen roter wie Blut,
7 seidene Hemden dazu,
7 Namen, die geb ich dir,
doch deinen Ring, den will ich dafür.
7 Rosen roter wie Blut,
7 seidene Hemden dazu,
7 Namen, die gibst du mir,
doch meinen Ring, den halt ich bei mir.
7 Rösser, so weiß wie der Schnee,
7 Schwäne im stille See,
7 Falken, die geb ich dir,
doch deinen Ring, den will ich dafür
7 Rösser so weiß wie der Schnee,
7 Schwäne im stillen See,
7 Falken, die gibst du mir,
doch meinen Ring, den halt ich bei mir.
Du wirst ziehen für immer und mehr,
dein Glück liegt 7 schritte vor dir.
7 Schritte und ein goldenes Land,
zeige ich dir für den Ring, der mich bannt.
Nein du wirst ziehen für immer und mehr,
die Welt misst 7 Schritte zu dir.
In deiner Welt, da läg ich falsch
und meinen Ring legst du mir um den Hals.
Nein du wirst ziehen für immer und mehr,
die Welt misst 7 Schritte zu dir,
7 Schritte sind 7 zu viel,
Wege führen weiter ohne Ziel.
http://www.faune.de/web/index-en.html
domingo, 14 de agosto de 2011
O Fim dos Profetas - Entrevista com o Publicista e Redator de Política do “Die Zeit” Richard Herzinger* (Mais!)
“República sem Centro, um Ensaio Político” Siedler, Berlim, 2001
Entrevista com o publicista e redator de Política do “Die Zeit” Richard Herzinger
*Esta é a versão original de minha entrevista realizada com o redator de política do semanário "Die Zeit", às vésperas das eleições gerais de 2002, sobre seu trabalho ensaístico até então, editada e publicada pelo caderno Mais!, da Folha, em 07.07.2002. Conheci Richard Herzinger em Berlim, em 1992, quando fora bolsista do Instituto Goethe de São Paulo, durante meu mestrado sobre a poética do dramaturgo da ex-RDA Heiner Müller, na UNICAMP. A influência de sua dissertação e dos pontos de vista de seu então ex-orientador Horst Domdey, da Freie Universitaet Berlin, sobre meu trabalho, naquele estágio, impreganaram, definitivamente, não apenas minha visão sobre o processo de ocidentalização do país desde o Milagre Econômico, os limites e perspectivas da Reunificação, ainda incipiente com dois anos, mas, sobretudo, sobre a dinâmica peculiar dos debates intelectuais e seu “pathos” moralizante numa esfera pública que se remodelava a passos acelerados depois de 40 anos, ainda engessada sob o fantasma do fogo cruzado da propaganda ideológica, sobretudo em Berlim. Pois era a própria “normalização” mesma da vida intectual num país integrado finalmente na OTAN e na dianteira da integração européia com o então Chanceler Kohl que retirava a última máscara dos supostos intelectuais "guardiães da moral", aqui também conhecidos como "Praeceptor Germaniae". É difícil escolher qual seria o pior deles, páreo duro, mas a minha escolha recai sobre o arrogante Guenther Grass do SPD, mas isto já e uma outra história. Como se diz por aqui:„Wer zu spät kommt, den bestraft das Leben“. Traduzindo o que Gorbachev disse a Honecker: "Quem chega ou acorda tarde demais, ou perde o passo, é punido pela vida". Havia também uma guerra selvagem à porta nos Balcãs, visitei vários alojamentos de refugiados e vi coisas na TV que não chegavam ao Brasil de Collor às vésperas de ser chutado do Planalto, como, por exemplo, um raid de uma milícia sérvia numa aldeia em tempo real e, depois de abaterem seus inimigos, urinavam sobre os cadáveres em triunfo. Todos os lados desta guerra bestial eram selvagens. Eram imagens que mostravam como aqueles antigos intelectuais sabichões não tinham mais nada a dizer. Foi o início de uma profunda ruptura em meu espírito e, por que não dizer, também, de minha visão sobre a universidade e sua hierarquia, um processo que culminou no 11 de setembro e na maneira traumática e extremamente pessoal em que o experimentei. Mais do que isto, a reflexão de Herzinger representou em minha biografia, e quase 20 anos depois entre os alemães, o encontro com uma visão genuinamente liberal do que seja uma sociedade aberta, seus desafios, da imensa tarefa civilizatória e pacificadora que a hegemonia cultural americana desempenhou sobre uma parcela da intelectualidade européia desde o Plano Marschall e, sobretudo, do valor da democracia e da expressão “mundo livre”, nome de seu blog no “Die Zeit”, “Freie Welt” (http://freie.welt.de/). Pela primeira vez na vida, deixei de sentir aquele complexo “vira-latas” e provinciano da nossa esquerda local e seu medo diante da pluralidade do debate com "Weltanschauungen” distintas, igualmente válidas e antagônicas. Uma coisa é ler Max Weber sob o conforto refrigerado do debate acadêmico do sexo dos anjos, outra coisa negociar politicamente, "administrar" este antagonismo na prática. A despeito de minha visão cada vez mais endurecida e desencantada das entranhas da sociedade alemã, sobretudo nos últimos cinco anos, desde a reforma Hartz IV, não deixo de admirar e invejar a capacidade gerencial única que os alemães têm em se antecipar e prevenir o pior na sociedade, com um sistema burocrático que detecta prematuramente encadeamentos explosivos. Mas como disse, isto mudou radicalmente com a maior reforma social do pós-Guerra, o pacote conhecido como Hartz IV, sobre o qual escrevi, com o ensaísta Robert Kurz, um grande dossiê para a revista eletrônica "Tróprico" e o antigo caderno "Mais!" da Folha de São Paulo, uma espécie de ABC para os brasileiros. Ele pode ser comparado quase a um gigantesco experimento de darwinismo social. Desde então, a velocidade das mudanças sociais na Alemanha suplantou a capacidade administrativa daquilo que os alemães denominam a grande "Máquina Social" ("Die grosse soziale Maschine"), ou o JobCenter, Arbeitsamt, Departamento de Trabalho, mas sobretudo aquilo que eu, José Galisi Filho, chamo de jornalismo preguiçoso da redações brasileiras, uma mescla de fantasias acadêmicas, complexo vira-lata, já que muitos deles idealizam a Alemanha como a Disneylandia da "Cultura", "Filosofia" e "Artes", do intercâmbio e turismo acadêmicos CAPES ou DAAD, a maioria desses jornalistas viaja a convite do governo alemão para coberturas, pouco importa, nada disto descreve mais a realidade social de um país em declínio muito rápido, que inevitavelmente levará a Europa consigo. Portanto, esta conversa ocupa um lugar muito especial em minha reflexão e a considero mais atual do que na época diante da miséria, da indigência e da estagnação do presente e daquilo que poderia ser também considerado a nova "hora zero" (o mito da Stunde Null") alemã, a prórpia Reforma e as cesuras que ela radicalizou no "Mitte", no centro. Quase uma década se passou e de linha de frente e foco intelectual da Guerra Fria, o debate e as polêmicas alemãs encolheram também para o tom acanhado e moralizante da província, num pais para lá de envelhecido em seu parlamento, com dificuldades em compatibilizar sua auto-imagem e peso econômico em declínio com seu tamanho real na nova ordem internacional. Há alguns meses atrás, a revista "Spiegel" chegou à conclusão de que a coalizão precária de Angela Merkel, e a paralisia que a sustenta neste vácuo da história, representavam, sem dúvida, a “pior elite política do pós-guerra” da República Federal. E na verdade isto ainda é um eufemismo. Não se trata da já quase proverbial "mediocridade" pessoal da Chanceler (a palavra mediocridade aqui tem um sentido positivo de equilíbrio na tradição burguesa do "Aufklaerung") e de sua falta de imaginação e coragem políticas, “vazadas” recentemente nos Wikeleaks com estardalhaço e a maioria dos alemães deu de ombros. Não se trata dessa marca pessoal. Merkel é quase um subproduto involuntário de uma visão tecnocrática da “politica como vocação” do antigo SED e, se vem administrando o colapso de seu país, como se diz por aqui, em pequenas prestações, tocando sua Alemanha como uma Caixa Econômica Estadual ou "Sparkasse", ou em nosso português coloquial, empurrando com a barriga, isto não significa que a história real esteja de férias, aposentada em um ressort mediterrâneo. Na verdade, nesta altura, é até indiferente se Merkel ou um “dummie” ocupem a cadeira já ocupada por europeus legendários como Helmut Schmidt e Willy Brandt, porque nada mais impedirá o declínio inevitável da Alemanha SA, ou Deutschland AG diante da ascensão dos novos atores. O que esta em jogo é, sim, e esta é a última trincheira, o fim definitivo do “projeto europeu”, do euro e da esperança de que ainda exista sobre a superficie do planeta um último soldado do “New Deal”. Na metade de maio , o filósofo Juergen Habermas acusou pessoalmente Angela Merkel de trair este “projeto” europeu com sua miopia doméstica e uma tradição alemã que se iniciou com a “Ostpolitik” no início dos setenta para a construção da Casa Européia, como se fosse possível voltar-se para os "containers", para a velha moldura dos Estados nacionais e sequer nisto, ou seja, a dissolução do antigo sistema prevedenciário, sua coalizão demonstra competência. A Reunificação alemã fora pensada, desde o início, como um projeto europeu, na verdade, sua última chance na História, não haverá outra. O fim desta utopia é uma perda de dimensões civilizatórias ainda não mensuráveis. Merkel e Sarkozy serão, sem dúvidas, uma nota de rodapé dos livros de história, quando pensamos em Willy Brandt ou Helmut Schmidt e existem ainda reservas intelectuais neste continente para salvar este projeto. Mas o que é desolador neste momento é a arrogância e vacuidade dessas personagens. Agosto de 2011
Na eleição de 1998, Gerhard Schroeder chegou ao poder, propondo a construção de um "novo centro" político na Alemanha. Desde a criação da República Federal, em 1949, as coalizões que conquistaram o centro do eleitorado mantiveram a base de um consenso estável sobre o qual a Alemanha reencontraria seu caminho para a unidade.
É com surpresa então que o novo livro do crítico de literatura e redator de política do diário "Die Zeit", Richard Herzinger, "Republik ohne Mitte" [República sem Centro, ed. Siedler], propõe a tese de que, desde a reunificação das duas Alemanhas, em 1990, esse centro meridiano da política está vazio, e essa tomada de consciência levaria finalmente a mudanças radicais na esfera pública do país, sobretudo entre seus intelectuais.
O livro é também a síntese do pensamento de um dos mais brilhantes intelectuais da nova geração de Berlim, cuja carreira de jornalista teve como eixo um levantamento exaustivo das figuras do conservadorismo político alemão -em especial seu antiamericanismo- e começou com um trabalho acadêmico fulminante sobre o dramaturgo Heiner Müller -"Masken der Lebensrevolution" (Máscaras da Revolução, ed. Wilhelm Fink, 1992). Herzinger buscava na obra de Müller aquilo que o próprio autor apontava como as duas premissas de seu trabalho: 1) distanciar suas idéias e visão de mundo como um "material" da atualidade e descobrir, assim, qual era o seu significado político real; e 2) julgá-la sem tabus em razão disso, uma estratégia que Müller empregara sistematicamente com Brecht.
Distanciando-se de uma germanística desconstrutivista, descritiva e laudatória, que fizera da intertextualidade da obra e seus sistemas de auto-referências à tradição literária um quebra-cabeça do qual nenhuma citação escapava ilesa, Herzinger se propôs a traduzir a retórica monumental das imagens de Müller para o presente. Herzinger não acreditava que Müller tivesse superado as "premissas escatológicas" e "maniqueístas" de uma "visão de mundo" arraigada na ex-República Democrática Alemã (RDA) desde sua constituição, isto é, uma visão antiocidental que se afirmara desde a luta contra Brecht e o "formalismo" e que havia determinado a organização da esfera cultural na RDA.
Ao estalinizar o partido em todas as suas esferas no início dos anos 50, Walter Ullbricht [1893-1973, estadista alemão que foi um dos responsáveis pela criação da RDA e do Muro de Berlim" e seu grupo partiram na época para uma campanha difamatória contra a obra de Brecht e seus discípulos. E foi justamente nesse momento que a denúncia do "cosmopolitismo" representado pelo "barbarismo da cultura americana" mostrava que, tanto à esquerda quanto à direita, havia uma unidade indissolúvel na tradição alemã de recusa ao Ocidente -e, durante a Guerra Fria, à América.
De fato, Herzinger mostra, na entrevista abaixo, como Heiner Müller reaviva as principais coordenadas do complexo cultural conservador da crítica civilizatória alemã, a saber: a oposição entre cultura e civilização sob o conceito de decadência; o ressentimento contra a sociedade liberal como lugar da massificação e comercialização da alma e do espírito; e sobretudo a recusa ao Ocidente e a seu "imperialismo tecnológico", a partir da qual surge a idéia alternativa de que o socialismo deveria opor uma "outra trilha temporal" e uma qualidade mais "vital" e "orgânica". A busca incessante de Heiner Müller por um "outro" e uma "diferença" na ruptura do "continuum" benjaminiano encontraria assim os mais eminentes fantasmas românticos.
Essas posições, longe de serem "críticas", legitimariam o socialismo real no seu ocaso. O mais interessante no trabalho de Herzinger, contudo, é seu pressuposto teórico: no exato momento em que o socialismo desaparecia, ele não via mais sentido em usar as coordenadas direita ou esquerda, preferindo se servir das categorias de ocidental ou antiocidental de modo a encontrar um denominador comum diante da irracionalidade do presente: terrorismo ecológico, nova e velha direitas etc.
José Galisi Filho – Desde a reunificação, o Sr vem enfatizando a continuidade das figuras e dos afetos anti-americanos da inteligência alemã, a saber, do Ressentimento contra o Ocidente, originário da crítica romântica de início do XIX à civilização e à Decadência. Já em seu livro “Profetas dos Fins dos Tempos ou a Ofensiva dos Anti-Ocidentais: Fundamentalismo, Antiamericanismo e a Nova Direita”, 1995, o Sr. descrevia esses afetos, que uniam direita e esquerda numa zona morta marcada pelo declínio do pensamento utópico. Quais seriam, resumidamente, as figuras e os atores deste processo?
Richard Herzinger – Comecei meu trabalho acadêmico sobre Heiner Müller (“Masken der Lebensrevolutionen”, Wilhelm Fink, 1992) no início dos noventa sob de pano de fundo desta reviravolta, a saber, a questão chave do papel da Alemanha no mundo pós-Guerra Fria. Naquele momento, esta questão ainda levantava o fantasma do caminho “alternativo” da Alemanha à modernidade como “Sonderweg”, ou seja, o fascismo.
Era natural que, diante do rápido desabamento do Império Soviético, a questão alemã, o fantasma desse “Sonderweg” alemão estivesse na ordem do dia. Ninguém sabia, de fato, aonde levava aquela estrada.
A Alemanha reunificada seria integrada finalmente ao sistema cultural ocidental, liberal, ou a Alemanha iria procurar novamente um alinhamento ao Leste, como no passado a Prússia? Em outras palavras, retomaríamos o romantismo político que nos conduziu à catástrofe, ou seríamos um “Novo Centro” (“Neue Mitte”) no coração da Europa, uma ponte entre o Ocidente e o Leste? Como era natural, esta questão não tinha uma resposta clara e até hoje permanece aberta.
No passado, a centralidade da Alemanha foi um fator que acentuou suas ambições hegemônicas no interior do continente e conduziu à catástrofe do nacional-socialismo. Com a divisão do país depois da derrota e a assimilação compulsória de sua parte ocidental ao sistema de segurança da Nato com Adenauer, a República Federal iniciou um caminho democrático num sistema de valores liberal, enquanto o outro lado permanecia atrelado à hegemonia do bloco soviético.
A Alemanha se reconhece depois da Reunificação como parte constitutiva deste sistema ocidental, mas o que é o “Ocidente” depois da Reunificação, quando os blocos deixaram de existir? Até vinte anos atrás, seria muito fácil responder à questão onde ficava o Ocidente. Mas com a desnacionalização dos Estados e a globalização esta questão assume um novo significado.
Em meu trabalho acadêmico e agora como redator de política do “Die Zeit”, não compreendo o Ocidente como uma instância metafísica, substancial, isto é, algo que pudesse ser definido a priori, ou de maneira unívoca, nem tampouco uma ideologia precisa, ou seja, que o Ocidente seja idêntico a “Weltanschauung” judaico-cristã. As sociedades modernas e seculares são, pela definição weberiana, plurais e antagonísticas.
O Ocidente também não é idêntico à democracia, não obstante, a democracia parlamentar seja um de seus apanágios. Ocidente significa, para mim, antes de tudo, a liberdade de ter a própria opinião, desde que esta opinião não seja inimiga declarada da democracia.
O segredo do Ocidente é que ele coloca esta questão: como a sociedade pode organizar-se e resolver seus complexos problemas culturais, sociais e econômicos dentro das regras do jogo da liberdade, sem que o indivíduo seja aniquilado pelo domínio cego do coletivo,
como no fascismo, sem que a liberdade que temos como meta seja ameaçada, mesmo quando este coletivo se veja confrontado com uma grande ameaça, como hoje, o terrorismo internacional.
Esta é questão aberta do Ocidente, que se reconhece plural, mas que protege, antes de tudo, as minorias contra a ditadura da maioria, ou seja, apenas quando o direito do indivíduo é garantido é que existe a democracia, senão é a ditadura do coletivo.
Dito de maneira sumária, a reunificação alemã emparedou todos os esquemas tradicionais de pensamento sobre os quais se alicerçava a hegemonia tutelar de nossas elites intelectuais e pulverizou seu “centro”, ou melhor, a ilusão de um centro substancial em torno da qual elas exerciam suas prerrogativas em função de um pensamento totalizador na busca de uma centralidade atribuidora de sentido, que se traduzia, até a Reunificação, politicamente, em torno do “consenso” que fundou a República Federal desde os anos cinqüenta. As respostas intelectuais a este processo reabilitaram com toda a força a matriz, a usina de força, por assim dizer, de nossa identidade cultural: a crítica romântica à civilização que era sobretudo impregnada por afetos anti-ocidentais.
Seria quase que impossível resumir todos os matizes desta superfície cultural, mas como escrevi um trabalho acadêmico sobre ele, destacaria o exemplo de Heiner Müller, que morreu no final de 1995.
Para entender melhor o contexto em que se coloca meu trabalho, teria de fazer uma pequena digressão. Nos anos setenta, surgiu na literatura da ex-RDA o que se convencionou denominar na crítica literária da República Federal de “Mudança de Paradigma Civilizatório”.
Do nosso ponto de vista da República Federal, parecia que esta mudança temática indicava uma atitude crítica e distanciada dos autores da inteligência leal da RDA à estagnação do socialismo real, Autores como Christa Wolf, Volker Braun e, sobretudo, Heiner Müller, passaram a tematizar em ensaios, romances e peças explicitamente motivos básicos da crítica à civilização, em especial, dentro da tradição frankfurtiana. Christa Wolf via em “Kassandra” o Patriarcado como matriz do desenvolvimento catastrófico do Ocidente.
Já em Müller, vê-se com toda a força em peças como “Filoctetes”, mas sobretudo “Gundling”, uma peça sobre Lessing e a relação entre o intelectual e o poder, uma tematização e criminalização nominal do Esclarecimento, como Adorno e Horkheimer em “A Dialética do Esclarecimento”.
A minha tese, que acabou desencadando uma polêmica, é que na verdade esta “guinada” à crítica civilizatória tinha um caráter conservador, na medida em que esta inteligência leal legitimava seus privilégios, sacralizando o socialismo real, e recuando à matriz do pensamento romântico alemão. Eu procurava uma unidade mais profunda da inteligência alemã depois do regime da divisão, de fato, minha especialidade era o próprio pensamento conservador e suas figuras, que reaparecia naquele contexto com toda a força.
Müller representava a consciência de um estamento intelectual da ex-RDA, que pretendia manter a utopia de um socialismo “alternativo” depois do colapso do Partido da Unidade Socialista (SED), já que Müller era também uma, por sua vez, uma dissidência, porém “integrada”. A Reunificação alemã foi experimentada por Müller com um sentimento trágico de profunda infelicidade pessoal. Ela representava a anexação da RDA ao Ocidente, à “plutocracia” do Marco, ao “ditado” do Ocidente.
Foi um grande golpe intelectual. Era como ser ocupado por um Estado inimigo, por uma potência estrangeira, como sua autobiografia “Guerra sem Batalha” comprova. Müller repetia nesses anos que a “democracia era tediosa” para um artista, em outras palavras, a vitalidade artística dependeria da “pressão da experiência autêntica”, uma idéia benjaminiana de Müller. Ora, a democracia é tudo, menos “tediosa”, a democracia formal, que ele desprezava, era sinônima de “consumo”, do entorpecimento da sensibilidade pela indústria cultural, pois a historia do socialismo real fora feita de “sacrifícios” e agora, com a desaparecimento da RDA, desapareceria também a memória da experiência autêntica do fascismo que esta inteligência leal encarnava e ritualizava.
Mas a questão é: o que se esconde nesta visão de mundo: quase todos os topoi, com poucas exceções, de uma fantasia maniqueísta do Ocidente como barbárie civilizatória. O Ocidente, isto é, Auschwitz, representa para Müller o princípio da aceleração tecnológica, movido pelo pensamento instrumental do Entendimento kantiano, e a este princípio ele opõe, contra avalanche civilizatória, o Leste, a estepe e sua reserva territorial seriam um caminho alternativo a esta força “colonizadora”. O Esclarecimento coloniza a “Vida”, as reservas vitais da cultura.
Ora, estes temas vinculavam-se de maneira inequívoca aos motivos românticos da crítica à civilização. O Ocidente, para Müller, seria assim a “puta Babilônia” do consumo, dos dejetos das “grandes idéias”, com o fim da “experiência autêntica”, que o socialismo realmente existente supostamente representaria. Ele estilizou de tal maneira esta visão de mundo que se tornou impossível, a partir de certo ponto, dissociá-la de uma relação neurótica diante de uma realidade que o desmentia.
Há um ensaio bastante emblemático desta visão de mundo maniqueísta, “Alemanha Nenhum Lugar”, de 1991, em que se retematiza o conflito entre “Roma e Bizâncio”, o Ocidente como Novo Império Romano e o Leste como Bizâncio.
Depois da Queda do Muro, a Alemanha estaria literalmente na fronteira dos dois impérios, de duas visões de mundo, como uma fratura, uma “zona de terremotos” entre dois mundos antagônicos.
Ele sugere que Adenauer enxergava o Elba, na época a fronteira com a Zona de Ocupação Soviética, como uma “fronteira asiática”, ou seja, a criação da República Federal fora uma reação ao medo de invasão da “estepe asiática” sobre o “mundo da manufatura alemã”. Dessa maneira, o Leste começava exatamente onde os romanos haviam parado há dois mil anos.
Neste romantismo, o Ocidente é também um veneno ao espírito alemão, à sua vitalidade orgânica.
Grande parte da plasticidade das imagens de Müller decorre desta mescla e conjuração de forças vitais, que projeta uma metafísica da História, como vemos em suas peças “Mauser” e “A Missão”. Estas forças vitais se opõem à linearidade colonizadora do Esclarecimento, à sua obra civilizadora. Ao mesmo tempo, este repertório de metáforas e tiradas escatológicas que alimentava naqueles anos a contento a máquina folhetinesca da República Federal. Foi sem dúvida um papel bem desempenhado e de grande ambigüidade e todos os críticos que me jogam na cara o fato de eu utilizar as declarações e entrevistas de Müller de maneira literal fazem a mesma coisa, só que com outros própositos. O que me interessa é a visão de mundo subjacente destas declarações, e esta visão de mundo é artística e política ao mesmo tempo, como o próprio Müller se cansava de repetir.
Já Botho Strauss poderia ser visto como a variante “hedonista” desta crítica civilizatória.
Contudo, Botho Strass é um intelectual já criado num sistema democrático com laços fortes com as tradições culturais do Ocidente, com a Inglaterra e a América, ao contrário de Müller e outros intelectuais como Cristha Wolf. No final dos anos oitenta, quando a reunificação se aproximava, Strauss redescobre a Nação como um valor metafísico, ao demonstrar cada vez mais um mal-estar civilizatório diante da “Decadência” cultural do entretenimento e da cultura dos talk shows. Como dramaturgo, Strauss está impregnado do “pathos” trágico que vê o conforto e afluência que o pluralismo democrático produz como uma espécie de doença, ou seja, ele experimenta o “vazio” do centro social como a decadência dos valores substanciais e das visões de mundo tradicionais. Strauss recupera, dessa forma, a busca romântica e restaurativa da unidade perdida entre política e poesia. De fato, ele busca uma unidade imaculada e pura de uma história ainda não corrompida pelo nacional-socialismo, reabilitando politicamente o caminho romântico alemão para a modernidade, antes deste desvio. É uma tentativa curiosas de amputar da história esta parte podre que se alimentava do mesmo manancial romântico.
Strauss mergulha tão fundo neste romantismo seminal do XIX que se opõe até à tradição do “Aufklärung”, que ele passa a propagar a simbiose de liberdade individual e essência nacional como “Volksgeist”, uma comunidade autêntica de laços afetivos antes que a sociedade burguesa se estabeleça. Em outras palavras, a fantasia pré-burguesa de uma virtude e ingenuidade do indivíduo. Esta espécie Pólis “novaliana” seria organizada pelo ideal da Poesia, o Estado como poesia.
Já em Peter Handke,
temos uma variante menos refletida deste anti-ocidentalismo, em oposição ao nível de auto-reflexividade da arte de Strauss. Enquanto Bothos Strauss propõe uma espécie de sacerdócio artístico, este seria o pressuposto, pois somente na medida em que o artista se volta sobre si mesmo, ele é capaz de encarnar um ideal político, Handke engaja-se diretamente na política real como no caso da Guerra dos Balcãs. Handke engajou-se ao lado dos sérvios, idealizando o regime sérvio de Milosevic, como se este fosse a vítima da difamação da mídia ocidental.
Ele passou então a acusar a Nato
de entidade fascista e terrorista a serviço do massacre da “verdadeira identidade” do povo sérvio. E mais uma vez reaparece o fantasma romântico que já havíamos mencionado, só que transferido numa outra essência popular, ou seja, uma Sérvia ideal
como reduto autêntico de um espírito não destruído pelo consumismo ocidental.
Este seria um pressuposto romântico em Handke, mas traduzido de maneira explícita em seu engajamento à Sérvia. Além do que, e dito de maneira “neutra”, Handke é um tipo de pessoa meio impulsiva e truculenta, muita agressiva, um tremendo egocêntrico que se coloca ao lado de Milsovic para defende-lo no Tribunal Internacional de Haia contra os crimes contra a humanidade de seu regime.
José Galisi Filho – E o que mudou neste caráter anti-ocidental da inteligência depois do genocídio do 11 de setembro? As reações intelectuais foram maioritariamente histéricas, indo do espectro do delírio à acusação franca à América. O músico Stockhausen afirmou que o genocídio foi quase um “ato puro de vanguarda” em sua bestialidade. Já Grass e Martin Walser culpam a política externa norte-americana. Sloterdijk, que o Sr. denomina de “apóstolo da auto-justiça”, mal disfarça a alegria de ver a uma América bombardeada, perdendo finalmente sua invulnerabilidade. A memória das tempestades de fogo Hamburgo (Operação Gomorra) e Dresden (fevereiro de 45) é um dado profundo da identidade alemã, ainda presente na população. Diante da diante da relativa irrelevância da Europa, que papel caberia à “inteligência” alemã?
Richard Herzinger – Para minha surpresa, o 11 de Setembro mostrou finalmente, de maneira cabal, que estes sentimento de aversão ao sistema ocidental da Alemanha estão mais disseminados entre a população do que se supunha. O ressentimento intelectual é parte de um complexo de inferioridade e medo, vale a pena analisá-lo de longe. Montou-se uma verdadeira operação de guerra durante a visita de Bush a Berlim.
Até agora era este sentimento anti-ocidental de matriz romântica parecia exclusiva de intelectuais e artistas que têm a licença poética para falarem o que bem quiserem, mesmo diante do horror, mas ele não parecia ter uma expressão política tão clara. E agora, para mim, fica evidente o contrário. Este anti-americanismo é mais forte do que pensávamos. Passado um primeiro momento de choque e solidariedade popular, mais por medo, justamente como você mencionou, a memória da destruição pelo ar é um dado mal resolvido e acabado do passado- e apesar do governo de Schroeder ter sido o único que prometeu de “solidariedade ilimitada à OTAN-, esta decisão política não tem nada a ver com este profundo sentimento anti-americano na população.
Este sentimento indica duas coisas: em primeiro lugar um complexo de inferioridade de ser dominado pela América, já que a Europa não consegue definir qual é o seu papel neste novo mundo.
Mas é um sentimento ambíguo, pois nunca houve nenhuma época da história européia em que houvesse tanta liberdade e conforto, sem nenhuma guerra, com exceção da Guerra do Balcãs.
É um sentimento ambíguo, pois a Era de Ouro da Europa foi a era de Ouro da Pax Americana. Foi sob a tutela americana que nós alemães atingimos este patamar social. É um mal-estar por se beneficiar dos efeitos indiretos desta Pax, mas também diante da impotência que ele significa.
Antes de responder pela política externa alemã, Fischer enfrentava policiais
Por outro lado, este anti-americanismo traz em seu cerne um complexo de medo atávico, pois para a população este acontecimento diz respeito apenas à América, seria um fato isolado.
A população acredita que estes terroristas, que afinal saíram daqui mesmo, de Hamburgo, não vão cometer uma barbaridade destas por aqui, pois nós não temos nada a ver com eles. Por que eles atacariam nossas usinas nucleares, ou como nesta semana se afirma iriam abater um grande avião de carreira no espaço aéreo de Frankfurt? Ou seja, medo e inferioridade cominam-se neste fronte. Ou seja se permanecemos neutros, não seremos atacados, pois não temos nada a ver com eles, somos apenas alemães.
Mas no campo intelectual surgiu desde o 11 de setembro uma busca desesperada pela culpa dos americanos. Enfim, o subtexto é: “mas os americanos vinham pedindo por isto”. Enfim, eles têm de ser culpados. Esta é a razão que leva Günther Grass, Soloterdijk e Walter Jens, a maioria esmagadora da intelectualidade de maneira grotesca a pôr a culpa na América pelo que aconteceu no 11 de setembro, no “imperialismo” e na “unilateralidade” do governo de Bush que leva estes desesperados e pobres terroristas suicidas a uma reação tão radical. Ou seja, são argumentos tão frágeis que tenho certeza de não convencem nem a eles mesmos.
É como se estes terroristas fossem explorados que não tinham como reagir. Para não falar da palavra de ordem da globalização Eu particularmente fico impressionado com o que ouvi, com a falta de sensibilidade moral e intelectual de algumas de pessoas que considero inteligentes como Günther Grass. Grass lamenta que tenham morrido 3000 inocentes civis americanos, e no cálculo dele isto não e nada diante das vitimas da fome do mundo produzida pela Pax Americana. Lamento, como alemão, que Gunther Grass não tenha sequer entendido que a sociedade americana é complemente heterogênea, que ela não apóia as medidas unilaterais de seu governo, os Estados Unidos são a pátria da desobediência civil, que a população americana foi, é e sempre será isolacionista.
No WTC havia pessoas de mais de 100 nacionalidades, sobretudo nações do Terceiro Mundo, muçulmanos e muitos hindus morreram naquela fornalha de Nova Iorque. Esta cegueira diante da realidade é um forte distúrbio neurótico no qual o medo nos leva a achar argumentos, por mais absurdos que sejam e mais uma vez nos afastar do real diante de algumas fantasias. Argumentos que nos comprovem que não temos nada a ver.
José Galisi Filho – Neste sentido, para falar com o historiador Heinrich Winkler, “O Longo Caminho para o Ocidente”, ainda não se perfez na Alemanha?
Richard Herzinger - Muito longe disto. O que se vê é que em todos os debates na esfera publica por aqui é como é difícil fugir do pathos moralizante, como no debate sobre a imigração. Como é difícil para a Alemanha aceitar-se finalmente - o que já é um fato irreversível-, como uma nação nao-homogêna etnicamente. Ou seja, vivemos num tempo que Habermas definiu como a constelação pós-nacional. As nações não são e nem podem mais ser mais homogêneas etnicamente num mundo globalizado. Embora a Alemanha esteja na dianteira deste processo como o pais europeu com o maior percentual de estrangeiros, a política não consegue traduzir esta realidades num programa de ação, ficando a reboque de um eleitorado temeroso e daquelas imagens imagens originais como se estivéssemos num container isolado. É o debate recente sobre uma suposta “Leitkultur” alemã, ou seja, e traduzindo de maneira trivial: primeiro temos de germanizar este gente para uma cultura homogênea dominante alemã. É risível. Mais uma vez reaparece o espírito romântico do Volksgeist, como se ele existisse, como se tivesse existido, como imaginavam os nazistas, em algum momento da História deste país, uma “Leitkultur” alemã que pudéssemos incutir nos novos bárbaros. E neste sentido mas uma vez, os americanos, o que não deixa de ser irônico, são o suspeito numero um, pois a sociedade americana é a prova cabal de que a fantasia romântica da pureza racial não existe e sim o pluralismo, sobretudo cultural. A América é o modelo da sociedade multicultural, mas especificamente no caso da Alemanha, temos um dificuldade muito, em função desta herança romântica e do desastre que ele significou em nossa história, em aceitar que não somos mais, ou que nunca fomos “homogêneos”, isto é que não exista nenhuma origem, nem ponto de partida fora do tempo ao pudéssemos recuar nossa imaginação.
José Galisi Filho – Mas pela primeira vez em sua história, parece e existir na Alemanha uma convergência positiva de Estado e Nação, isto é, a normalidade democrática, finalmente, começa a apagar estes fantasmas e seus profetas. Por que a República de Berlim não precisaria de centro, ou o novo centro, como o Sr. afirma em seu novo livro, um ensaio político? Há muitos ponto em como entre seu argumento e o ensaio clássico de Hans Magnus Enzenberger, “Mediocridade e Loucura”, de 1984. O Sr. poderia discorrer sobre eles?
Richard Herzinger – A expressão República de Berlim surgiu no início dos noventa vinculando a expectativa de que com o retorno da capital, em oposição á provinciana Bonn, a Alemanha se tornaria novamente uma nação forte, com uma capital que representasse o centro de gravidade europeu em todos os sentidos: cultural, político e econômico, que pudesse fazer a mediação. A República de Berlim projetava no início dos noventa a promessa do Centro, do um Novo Centro, expressão que mais tarde a coalizão SPD Grün tornaria programa de governo como Schröder em 1998.
E foi justamente no momento que Berlim tornou-se novamente a capital, que se constatou finalmente o contrário, ou seja, que em vez de Berlim representar, este novo centro mediador, os conflitos explodiram com toda a força depois de décadas de um consenso harmônico e de status privilegiado que a cidade tinha durante a Guerra Fria, escondendo seus problemas reais e sua diversidade: conflitos étnicos com minorias, mas sobretudo conflitos sobre valores fundamentais como o capital genético e seu gerenciamento, ou seja, o debate sobre a produção artificial de vida. Este foi a primeiro grande debate da República de Berlim, o debate que colocou as questões essenciais do futuro Aquilo que era até anos atrás natureza tornou-se um problema muito sério com a manipulação genética implicando uma redefinição da esfera básica de direitos constitucionais do indivíduo, o cerne de qualquer democracia. A irrupção destes novos conflitos mostrou também que aquele sistema de valores que organizava a esfera pública em nosso pais nas últimas décadas não tinha mais o Centro, pois estas questões, por definição, não tem nenhuma solução ética, em princípio as questões morais colocados pelo debate genéticos são insolúveis e somente podem gerenciadas na esfera política de maneira pragmática, quando criamos compromissos. Foi isto que mudou o centro de gravidade, no meio ponto de vista, da esfera pública alemã e lhe trouxe uma nova percepção: o centro está vazio, não há nada nele, as idéias orbitam ao seu redor, as idéias morais decorrentes do problemas do avanço tecnológico, mas este lugar “mágico”, em nome do qual se proclamava o consenso e em nome do qual os intelectuais reivindicavam uma tutela moral, desapareceu e descobriu-se, assim, finalmente que só os um país normal e democrático, enfim, a Alemanha descobriu-se como uma sociedade aberta na qual a tutela destas doutrinas proféticas e românticas não atinge mais a realidade e fica cada vez mais distante. Berlim acelerou estes conflitos e a desorientação e criou um impulso modernizador fortíssimo em nossa sociedade, transformando em sociedade aberta, a saber uma sociedade das questões em aberto livre da tutela moralizante do debate.
O SPD procurou com o Novo Centro reabilitar este mito do centro forte, mas, ao proclamar isto, o SPD se pretendia representar o conjunto da sociedade, um conceito alias que tem para nos uma sugestão quase que mágica, pois ele nos induz a acreditar que exista no centro algo valores substancial a priori e na verdade, quando os aproximamos deste centro, percebemos que ele é vazio e a tarefa da política é construir, diante de cada nova situação, os compromissos que regulamentam os conflitos. A coalizão que entrou no poder com grandes expectativas transformou-se desde então no governo de administração permanente de crises. Um governo que foi de um crise a outra, sobretudo na questão dos Balcãs que mexeu com tabus sérios de nosso passado. Este conceito governo de crises não é uma censura, mas a constatação de que com as mudanças a política tornou-se uma administração regular das crises. A ilusão do Centro rompe-se de vez com a República de Berlim e agora podemos ser pragmáticos, é um impulso libertário, porque nos traz a pluralidade, as discussões e um maior espaço de liberdade, nos torna, no bom sentido do termo, liberais. Ninguém pode ocupar mais este centro.
Hans Magnus Enzensberger foi um dois primeiros a insistir na normalidade democrática do centro vazio contra o pensamento unificador e metafísico.
Em “Mediocridade e Loucura” e um elogio da normalidade emancipada de um núcleo substancial, normalidade no sentido de Enzensberger significa uma variante do Esclarecimento e do pragmatismo: é sempre possível fazer “mais alguma coisa”, sem “surpresas” e “milagres” dos grandes esquemas explicadores da sociedade como unidade homogêneo, e isto, como Enzensberger afirma, é revolucionário.
Isto quer dizer também que, ao contrário do que está no senso comum, a sociedade aberta não é dividida pelos conflitos, mas unificada por eles. São os conflitos que nos unificam, e não o contrário. Diante da pluralidade de opiniões, substratos culturais, religiosos, étnicos e de percepção e sistema de valores, estes conflitos nos tornam plurais. Não são os aparentes valores inquestionáveis desta metafísica dos grandes esquemas teóricos, que unificam a sociedade, mas a ação política real.
José Galisi Filho – Neste sentido haveria diferenças entre Stoibler, que está à frente nas pesquisas e a continuidade da coalizão de Schroeder?
Richard Herzinger – Há poucas diferenças entre ambos, diria no grau do populismo. Com Stoibler haveria certamente uma ênfase nestes dados do conservadorismo no debate imigratório ou na questão do casamento homossexual. Mas mesmo aí haveria compromissos e a administração de crises. Ambos os lados, por um lado os verdes e o SPD, por outro o CSU CDU e FPD ainda estão fundamentos ainda num consenso da velha republica Federal, ou seja de que seja possível harmonizar os interesses, quando na verdade este consenso, que fundou a Alemanha Federal, acabou para sempre. Eles procuram ainda ser os baluartes do “consenso” para manter o centro, o novo centro, tanto faz se mais à direita ou à esquerda.
Agora Stoibler procura tirar partido das promessas fracassadas deste governo de reduzir pela metade o desemprego. Não podemos estar certos se Stoibler ganhará, já que o eleitorado tem mudando muito rapidamente nestes últimos anos. Este é um aspecto interessante da política eleitoral. As mudanças de tendência do eleitorado são cada vez mais rápidas. Não há mais o centro que sempre votava num partido e no outro. Hoje as posições flutuam ao sabor das conjunturas. Sempre houve na Alemanha coalizões duradouras, a Grande Coalizão dos sessenta, o 16 anos da Era Kohl, talvez o governo de Schroeder dure apenas estes 4 anos, ninguém sabe. As pesquisas diziam ha duas semana que Stoibler seria eleito, agora, afirmam o contrário.
José Galisi Filho – A República sem Centro é também uma república de Desempregados. São 4 milhões. Não existe “direito à vadiagem na Alemanha”, afirmou Schroeder em entrevista ao Bild. O que quer dizer isto? O Sr. discorre em seus ensaio sobre uma iniciativa de desempregados berlinenses de Prenzlauer Berg de criarem um movimento e “desempregados felizes”. Como é possível ser desempregado e feliz na República Federal?
Richard Herzinger – Esta expressão populista e autoritária de Schroeder é em primeiro lugar uma difamação aos desempregados e busca desviar o ressentimento popular diante das dificuldades de financiar um sistema social. Apesar de tudo, nossos benefícios sociais ainda são um modelo no mundo, mas o financiamento deste sistema tornou-se incompatível com o novo mercado de trabalho, que cresce cada vez mais e do qual se aproveitam grupos que não precisam em absoluto de ajuda social.Nostaligia de Capitalismo e da Era de Ouro da Plena Ocupação
Justamente aqueles que mais precisam de ajuda social estão sendo atingidos diante da redução destes benefícios, enquanto certos funcionários públicos gozam de privilégios obscenos e de pensões. O ressentimento que Schroeder tenta mobilizar é real. As aberrações estão todos os dias na imprensa marrom, mas daí a difamar os desempregado com este populismo barato. Dahrendorf, um grande liberal, rebateu esta frase, dizendo. Justamente na sociedade liberal o direito à vadiagem é sagrado, o direito de não ter de trabalhar sob o chicote. Este seria um direito fundamental da sociedade liberal. Os desempegados felizes de Prenzlauer Berg, o centro da cena boêmia berlinense, .formulam, demaneira surrealista, algo muito simpático, para mim: diante do fracasso da política, podemos formular uma variante poética, um estilo de vida alternativo. Seria possível nesta sociedade altamente tecnológica e mediática viver num nicho de felicidade sem ter de trabalhar, sem se sentir culpado por ser desemrpegado, eles propõem happenings sessões de vadiagem. Se o desemprego nos leva a um tempo morto e a uma condição passiva na qual vivemos a consciência infeliz do não desempenho, por que não dar à preguiça uma força produtiva? Isto enfurece muitos que os chamam simplesmente de vagabundos, mas outros os convidam aos talk shows.
Entrevista com ex-Presidente alemão Richard von Weizsäcker
No final de maio deste ano, uma comissão de notáveis presidida pelo ex-presidente alemão Richard von Weizsäcker entregou ao Chanceler Schröder um relatório de 100 páginas que quebrava um tabu num país que já teve a iniciativa de desencadear neste século duas guerras mundias: a flexibilização e supressão tendencial do serviço militar obrigatório. Dez anos depois do fim da Guerra Fria e de sua Reunificação, a Alemanha empreenderá uma reforma adminstrativa radical em sua Bundeswehr, que reestruturá o eixo do conceito de defesa continental europeu e de seu papel dentro da OTAN. A Alemanha, que participou no Kosovo com um pequeno efetivo, sob o fogo cruzado das bases da coalização dirigente rote-grüne, pretende, finalmente, entender-se no mundo como uma nação “normal”, com direito a um exército regular, despedindo-se dos clichês de seu passado. O mundo parece ainda não ter entendido, mas a Alemanha tem em comum com este passado apenas o seu nome. Weizsäcker fora soldado da Wehmacht de Hitler na sua cruzada de extermínio contra o bolchevismo soviético. Mas como membro de um regimento da elite prussiana do exército, pertencia também ao círculo que conspiraria com Stauffenberg para eliminar o Führer, quando os Aliados já estavam às portas de Paris em julho de 1944.
Poucas personagens da história recente da República Federal encarnam de maneira tão ambígua esta tarefa em relação ao passado, e talvez apenas uma tenha brilhado tanto por sua sutileza retórica e pela capacidade em usar a palavra certa no momento exato. Para o ultra-consevador bávaro do CDU Joseph Strauss,
eterno candidato a Chanceler, o ex-presidente Richard von Weizsäcker era simplesmente o “mestre das palavras” e o “preferido” da mídia. Contudo, se a história da República Federal foi determinada desde o seu início, sobretudo durante o auge da Guerra Fria, pela busca de um centro moral em figuras patriarcais, como o primeiro Chanceler Adenauer,
o carisma de Weizsäcker e o consenso que sua figura projetou ao longo dos dez anos em que permaneceu no cargo entre 1984 e 1994, racionalizaram a autoridade e seus fantasmas e ganharam um valor emblemático, pois a ideía mesma deste centro ruía para sempre no processo que conduziu à reunificação e até hoje não foi mais ocupado.
Pragmatismo Kantiano
Autocrontrole, renúncia e o rigorismo da noção de dever moral compõem em Weizsäcker uma mescla de luteranismo e kantinsmo, justamente na discrição e extrema elegância de quem se mantém sempre preso a um protocolo e à disciplina do pensamento de quem faz um uso público da Razão. Profundamente marcado pela tradição de uma família aristocrática da Suábia e pelas virtudes tradicionais de uma educação prussiana de início do século, Richard von Weizsäcker, que completou oitenta anos em abril, reúne algumas virtudes anacrônicas que simplesmente o incompatibilizam com o ritual partidário moderno, a saber, a auto-encenação e a fiedelidade permamente ao lugar-comum em torno do qual o poder se exerce em nome de uma idéia abstrata de maioria, naquele domínio weberiano da instrumentalidade adminstrativa. Se a política somente pode ser pensada hoje em função de seus processos autoregulatórios e reagentes ao problemas do mundo exterior - daí a absoluta imunidade dos políticos às exigências éticas -, Weizsäcker defende uma concepção muito substantiva de racionalidade e autonomia para caber dentro dela. O ex-presidente não é um pensador político, sequer um filósofo como seu irmão Carl Friedrich,
mas entende-se, na verdade, antes como um “pragmático” no sentido kantiano do termo. Este pragmatimo não diz respeito, de fato, ao “conteúdo” dos valores em si, pois a moralidade para Kant pressupõe sempre a liberdade na medida em que a Razão estabeleça por si aquilo que se deva obedecer no terreno da conduta. Não basta apenas apelar a esta liberdade em sentido abstrato, mas é apenas esta que atribui, em seu exercício, um conteúdo a um sistema de valores numa ética da consciência. Este deveria ser o ponto de fuga da ação política como universalização dos intereses da Razão. A confiança de Weizsäcker na capacidade do convencimento racional pelo dialógo fazem-no recusar, já de antemão, a ilusão tradicional de política como representação e delegação de interesses.
Figuras
Durante uma década, Weizscäker e Kohl formaram um dos contrapontos mais interessantes da história política republicana alemã. Foi na verdade o ex-Chanceler, nos anos sessenta, então uma jovem estrela em ascensão no CDU renano, que descobriria no brilho retórico de Weizssäker o político e moderador que poderia revigorar o coeficiente de inteligência e a combatitividade de seu partido no debate parlamentar, ampliando sua rede de influências. Foi Kohl que lançaria Weizsäcker à prefeitura de Berlin em 1981, uma cidade falida, com um desemprego recorde e problemas habitacionais de Terceiro Mundo como a ocupação ilegal de centenas de imovéis. Weizsäcker mostrou, mais uma vez, seu talento de negociador, dialogando com o amplo espectro alternativo que ia dos verdes até os grupos anarquistas, em vez de optar por uma solução policial. Mas se Kohl inciara seu primeiro mandato em 1982 com a assim chamada “virada moral” era Weizsäcker, de fato, que parecia desempenhar este papel até o final dos oitenta. Enquanto Weizsäcker revela-se um intelectual cosmopolita, Kohl parecia ser apenas um político provinciano e bisonho.
Mas foi justamente desempenhando este papel que Kohl bateria todos seus adversários, sobretudo em seu partido, sob o qual escondia-se uma sede nata de poder. Se até certo ponto Kohl e seus colaboradores incomodavam-se com a popularidade do presidente, a aceleração do relógio histórico a partir de 1987 fez simplesmente os acontecimentos correrem em sua direção, até ser consagrado como o “grande estadista” por Georg Bush. Weizsäker costuma repetir que não se pode negar a Kohl o mérito ter sabido aproveitar a “oferta da hora” e de atrelar a Reunificação alemã no processo de União Européia, mas a distância entre ambos somente aumentou nos anos finais do seu segundo mandato.
O ex-Chanceler cairia em desgraça e seria defenestrado pelo próprio partido depois do escândalo caixinhas no final do ano passado. Já com o “pragmático visionário”, Willy Brandt o contraste de personalidades tinha como pano de fundo a convergência da atuação intensiva de Weizsäcker na Ostpolitik.
Mas enquanto Brandt era oriundo de um meio operário no norte da Alemanha, Weizsäcker era proveniente de uma rica família burguesas. Brandt havia emigrado para Noruega tão logo Hilter chegara ao poder, enquanto Weizsäcker seria tenente da Wehrmacht na Rússia. Em 1946, enquanto Brandt trabalhava como jornalista para jornais escandinavos, Weizsäcker participava como assistente de defesa de seu pai em Nuremberg, Carl Ernst von Weizsäcker, por colaboração no Ministério de von Ribbentrop.
Weizsäcker, ao contrário de Brandt não ingressara na carreira política nos anos de reconstrução, mas participou do conselho executivo da Mannesmann nos anos do milgare ecoômico, até ingressar finalmente no CDU em 1954.
Comunitarismo e coragem civil
Foi justamente em 1992 no momento mais crítico da reunificação, quando o espectro da anarquia da República de Weimar estava nas ruas e criancas, mulheres e trabalhadores estrangeiros eram assassinados por jovens desocupados,
que Weizsäcker perdeu finalmente sua “modéstia” e paciência diante da classe política: “A República de Weimar não fracassou porque desde muito cedo havia muitos nazistas, mas por que durante muito tempo havia muito poucos democratas”. Dois anos antes, Weizsäcker proclamara a unidade alemã diante do Reichstag em 3 de outubro de 1990, afirmando que a Alemanha “desejava servir a paz do mundo”. Mas esta mesma Alemanha adintou-se em reconhecer a indenpedência da Eslovênia e da Croácia, sabendo que não poderia impedir a carnificina que se seguiria isto.
Diante do teatro das pulsões de uma nova subjetividade balcânica da guerra civil molecular, desatrelada finalmente de vernizes ideológicos,
diante de Maastricht, que regulamentava num mesmo anexo o trânsito de estrangeiros à criminalidade comum, uma nova forma autista de violência desafiava a soberania kantiana da Razão.
Durante uma visita aos Estados Unidos, a pátria do darwinismo social, o ex-presidente lançou um ataque a toda classe política e à estagnação do sistema partidário alemão e sua “Verdrossenheit” apatia. Diante dos novas regras do jogo da concorrência internacional, os alemães seriam as primeiras vítimas se não tivessem imaginação em reiventar a política além dos partidos. Weizsäcker exigia dos cidadãos a revigoração do sentimento da coragem civil e da ação espontânea comunitária, tentando salvar o individualismo ou a noção de sujeito corrompida por este darwinismo liberal anglo-saxônico.
Se o sistema partidário falira, existia pelo menos uma sociedade civil moralmente ativa, cujos valores poderiam e deveriam ser reabilitados. O repúdio da população ao ódio aos estrangeiros era maciço, levando milhares de pessoas às ruas das principais cidades em vigília, mas não havia mais dos políticos respostas rápidas, sequer da polícia.
Para Weizsäcker, a reunificação estava corrompendo finalmente o credo da economia social de mercado, uma conquista cujo preco os alemães nao poderiam esquecer diante de sua história sangrenta. O mal-estar generalizado pela erosão do sistema partidário unia explosivamente o sentimento de impotência individual aos novos processos de dessolidarização. Kohl e sua coalização em sua sede de poder conseguiram a proeza de elevar o desemprego estrutural à cifra de 5 milhões, um índice recorde desde a República de Weimar,
o que parecia apenas confirmar do ponto de vista prático, para a maioria silenciosa, a incapacidade da democracia parlamentar de reverter o curso de desastre. A extrema-direita juvenil crescia nos novos Bundesländer, confirmando a velha idéia de Carl Schimitt, de que a política deveria ser substituída finalmente pela polícia. Para aumentar o cinismo no início dos anos noventa, um novo termo anglo-saxônico integrava-se ao vocabulário político: o “politicamente correto”, mas a própria sociedade civil ao qual Weizsäcker apelava não encontrava mais substância para o renascimento de uma cultura política, abalada por escândalos financeiros e pelos custos fiscais de uma Reunificação que fracassava moralmente.
Retomando uma declaração de Hans Maguns Enzensberger, Jürgen Habermas afirmava que depois da Reunificação alemã uma “segunda mentira” vinha novamente à tona, cuja origem fora lançada nos anos de Adenauer: o fato que “todos os alemães eram democratas”.
Mas era justamente esta apatia “Verdrossenheit” com a política que dava a Alemanha justamente, segundo Habemas, a idéia de ser novamente um país “normal”.
Weizsäcker dava exemplos, ia aos alojamentos de estrangeiros, escolas, asilos, conversava e ouvia pacientemente. Depois do bárbaro de uma família turca em Solingen, 1993,
Weizscäcker viaja à Turquia, onde acompanhou em lágrimas o enterro. A despedida do antigo Estado e sua tutela moral deixava claro que não havia mais modelos e, neste sentido, assumir o motor da unidade européia de Kolh parecia um slogan cínico e vazio. O que se via nestes anos era muito menos a articulação de novas forças políticas, do que a prórpia divisão do espectro conservador, que culminaria com a avasaladora vitória de Schröder e da coalizão SPD Verdes em 1998.
Em novembro de 1992, em Berlin, durante uma demonstração contra o ódio aos estrangeiros, Weizsäcker é apedrejado em seu palanque por manifestantes de extrema-direita, que não mais se intimidavam sequer com a polícia e gritavam em coro: “A Alemanha para os alemães”.
Weizsäcker responde categórico e soberano: “Não, o artigo número um da Constituição alemã não afirma que a honra do alemão e intocavél, mas a honra do Homem. A Alemanha não é um tijolo, mas uma palavra que vive em nosso coração. Esta é a nação de Goethe e Kant, esta é a Alemanha que brilha em nosso coração”. O patriotismo de Weizsäcker parecia ser a tradução de um “sentimento íntimo” de ser alemão, para falar com Machado de Assis, que não é a fatalidade de falar uma língua, nem tampouco pertencer a um lugar, mas que é a prova mais acabada da universidalide do projeto da Razão. A Alemanha espiritual de Weizsäcker não é uma fatalidade, mas antes uma tarefa, que somente uma concepção orgânica de cultura e formação poderiam resgatar.
Weizsäcker sempre teve um relação muito estreita com artistas da vanguarda e nunca escondeu sua paixão pela filamônica. Joseph Beuys, e em especial, Heiner Müller foram reconhecidos pelo ex-presidente como modelos de uma liberdade estética que poucos artistas do presente atingiram. Müller, o filho rebelde da ex-RDA fora um artista da consciência dialecerada alemã, e Beuys, ex- piloto da Lutwaffe, pretendia estender o território estético à política ao declarar que todos éramos artistas.
“A capacidade de enxergar a verdade nos olhos”
No centro da trajetória de Weizsäcker como presidente está o seu célebre discurso sobre os 40 anos da capitulação incondicional do Terceiro Reich.
Desde Theodor Heuss,
o primeiro presidente da República Federal em 1949, esta data sintetizava a ambigüidade moral de um país fundado sobre ruínas. Heuss afirmava que o “paradoxo da História” estava justamente no fato de que a “redenção” significava também o “extermínio” da Alemnha como nação. E esta ambigüidade projetava imaginariamente também o mito de uma suposta “hora zero” na qual se bloqueva o trabalho efetivo da culpa e da reminsciência. Heinrich Böll resumiria muito bem este paradoxo na forma da “espera de uma liberdade” que vem, paradoxalmente, do “próprio inimigo”. A libertação era também uma derrota militar, na verdade, uma capitulação.
Depois de décadas de oscilação entre os clichês de uma culpa genérica ou do recalque e esquecimento, Weizsäcker tratará do tema em 1985 com soberania: “Nós temos a capacidade de ver a verdade nos olhos”. Nunca em toda a história política da Alemanha federal, um representante de Estado utilizará uma retórica tão inequívoca no reconhecimento da culpa pelos crimes do passado nazista, bem como procurará uma historicização do Terceiro Reich, sem ceder, num único instante, à sua completa peculiariade como tirania em resposta ao revisionisnmo de Ernst Nolte e da Polêmica dos Historiadores. Três verdades desconfortáveis articulavam o argumento de Weizsäscker, que teriam, sobretudo, um efeito inquietante na Alemanha reuinificada: a prioridade do motivo da libertação, a dificuldade em enumerar todas as vítimas do nacional-socialismo e devolver aos próprios alemães o direito à prórpia memória confiscada, e, por último, uma avaliação crítica da tema colaboração civil e pela individualização da culpa: “O 8 de maio é a data de nossa libertação... Mas não devemos nos esquecer que as causas deste descaminho da história alemã não estão no fim, mas sim no início, no 30 de janeiro de 1933”. O discurso teve um efeito estrondoso, sobretudo no exterior, e sua ressonância foi resultado, em parte, de um incidente diplomático.
A recente viagem de Reagan à Europa terminara num escândalo com a visita ao cemitério de Bitburg, no qual Kohl planejava um novo gesto de “reconciliação” com os americanos, semelhante ao do ano anterior ao dar a mão a Mitterand em Verdun.
A imprensa americana já bombardeava de antemão esta tentativa, pois se sabia sabia que naquele cemitério estavam enterrados vários SS, com os quais não pdoeria haver qualquer reconciliação. Nos quarenta e cinco minutos que Weizsäcker utilizou para lê-lo, algo mudava para sempre na autoconsciência da República Federal diante de si e do mundo.
Maioridade intelectual
Discreto e cerimonioso, Weizsäcker recebeu “República” em seu escritório no centro da capital alemã, em frente ao Museu Pérgamon, no dia 4 de julho, Dia da Independência americana. A conversa estendeu-se por quase duas horas. Weizsäcker considerou legítimas de “um ponto de vista estético”, algumas das colocações que fizera, mas lembrou-me, outras vezes que ficaria cirscunscrito apenas às “regras do debate racional”, se quisesse ideologizar algumas de minhas posições “radicais”. Confessou-me, no fim, que tinha, no fundo de seu seu coração muitos coisas contra o capitalismo e sobretudo contra a “hegemonia solitária” americana, que se acreditava ainda “invulnerável”. No final, entregou-me um exemplar das memórias de seu amigo Axel von Bussche, que conspirara com Stauffenberg para eliminar o Führer.
Bussche acreditava que, em função da sorte um tanto suspeita de Hitler, que sobrevivera já a uma dezena de golpes, somente um lance suicida seria capaz de ter êxio, mas é ferido em combate semanas antes. O atentado fracassou na tarde de 20 de julho de 1944. Antes de sairmos da sala, aponta-nos para uma pequena estátua de Kant sobre a prateleia: “o homem é responsável por sua própria minoridade intelectual”, afirma.
José Galisi Filho
REPÚBLICA - Lutero afirmou certa vez que mesmo se o mundo pertencesse inteiramente ao demônio, entao nao haveria mais motivo para termos medo e, assim, haveria ainda uma chance para a graça.
Neste entretempo, o mundo tornou-se inteiramente capital e para onde se olhe, enxergamos apenas as leis abstratas do mercado. Para o economista britânico John Gray, o capitalismo atual tornou-se quase que uma “religião civil mundial” americana. Já historiadores como o americano Luttwak denominam este estágio produtivo das forças do livre-mercado de “turbocapitalismo”. O “Segundo Fausto” de Goethe, encenado por Peter Stein na Expo 2000 de Hannover, revela-nos um megaempreendedor, quase um “Fusionierer”, que opera nas bolsas do mundo a mescla entre real e irreal, numa empreitada que começa, ironicamente, com a reforma financeira de um pequeno Estado, até ganhar a forma final do “imperialismo da subjetivade moderna” no teatro do mundo.
Ora, se o capitalimo é uma religião civil, a quem pertence ou deveria pertencer o privilégio da graça hoje, pois, ao que tudo indica, este jogo exclui, do ponto de vista lógico, todos seus participantes e já está de antemão decidido, como na célebre aposta com o demônio.
Richard von Weizsäcker - O que você está me colocando não é uma questão, mas já uma interpretação do mundo com acentos críticos perspicazes - que reputo interessantes -, mas com muitos dos quais também não posso concordar, e também nem estaria, tampouco, na posição de avaliar em seu conjunto.
Não acredito, por exemplo, que o mundo tenha se tornado apenas e tão somente Capital. O mundo é muito mais do que aquilo que corresponde às raízes e às finalidades do Capital. Nós não desejamos e não viveremos nunca sob um domínio exclusivo do Capital. A tentativa de fazer do capitalismo uma forma de religião acabada está destinada a fracassar. Recomendaria atenção com o conceito de religião civil.
Também na avaliação do americanos meu acento recairia em outro ponto. Sem dúvida, eles se prescreveram uma fórmula econômica capitalista, que, em seus abusos, poderia ser denominada também de turbocapitalismo. A maneira e a forma pela qual os americanos se apresentam no mundo é uma mistura muito peculiar.
Por um lado, eles perseguem, naturalmente, interesses materiais e políticos globais bastante concretos. Isto não deveria ser uma surpresa. Sua própria história e tradição constitucional os vocacionam igualmente à democracia e ao respeito de direitos humanos. Certamente, eles também infringem freqüentemente estes objetivos e fundamentos. Da mesma maneira, eles também se entendem como missionários globais em relação a estes objetivos. Isto é, em princípio legítimo, embora degenere muitas vezes na presunção, na arrogância.
Você fala em privilégio da graça. Não consigo entender muito bem esta afirmação. A graça não é um privilégio. Sua questão principia com uma citação de Lutero. A afirmação central de Lutero é que a prova da salvação vem apenas da graça de Deus. A graça é definida justamente pelo fato de que ela não é um privilégio, nem tampouco que a mereçamos ou não, ou mesmo possamos reivindicá-la, senão que o homem está destinado aos desígnios insondáveis da misericórdia de Deus.
A globalização estende-se em todos os domínios da ciência e da técnica, trazendo em si a precedência dos interesse econômicos e de seus riscos ecológicos. Este processo ocorre praticamente sem um espaço legal e moral previamente definido. Considero como a mais urgente tarefa do presente a criação, passo a passo, de um espaço moral e legal para esta globalização. Não desejamos e não devemos nos submeter a uma religião civil e, desta maneira, condenar a maioria da humanidade à miséria e ao desaparecimento.
REPÚBLICA - Os movimentos das fusões de capital sequer parecem arranhar política, ou por aquilo que ela ainda imagina regular. Não seria talvez uma grande ingenuidade dos políticos atuais da Terceira Via acreditar que será possível combinar, nem que em tese, a economia social de mercado com o jogo implacável da nova concorrência? Como o Sr. vê a retórica da “Terceira Via”, justamente levando em conta o seu percurso de empresário antes de chegar a política em 1969?
Richard von Weizsäcker - Temos de reconhecer inicialmente que numa democracia parlamentar luta-se por uma maioria que se espera conquistar na centro do potencial dos eleitores. Desta forma, os partidos acabam se deparando, em sua concorrência pela maioria nos países industrializados da Europa, num problema bastante semelhante: por um lado, um país deve procurar preservar sua capacidade concorrencial numa sociedade mundializada e sem fronteiras.
Contudo, não se pode manter esta capacidade quando os altos custos de nossos produtos, de fato, seus custos sociais não podem ser assimilados neste mercado mundial. Por outro lado, pertence à tarefa central de um governo manter a coesão social e restabelecê-la quando esta se desagrega Trazer a um denominador comum estes dois objetivos conflitantes é a tarefa mais urgente de nosso tempo.
Não se deve e não se pode sacrificar esta coesão e os fundamentos materiais da sociedade em nome da competitividade no mercado mundial. Desta forma, não se pode erigi-la em medida única de todas as decisões políticas, deixando à própria sorte, como vítimas sociais, aqueles que não atendem às condições de seu jogo.
Este é um campo de tensões clássico da política entre dois objetivos contraditórios. A busca deste novo caminho vem sendo designada recentemente como Terceira Via”. Esta não deveria ser absolutamente pura retórica. Há bons e mais exemplos da “Terceira Via”.
REPÚBLICA – Neste contexto, o Sr.se refere freqüentemente à aporia básica das máquinas partidárias, sempre às voltas entre estes pólos da “sede de poder” (“Machtversessenheit”) e “da amnésia do poder” (“Machtvergessenheit”), uma vez em que este é assegurado. O centro médio dos partidos na Alemanha parece ter implodido nos últimos dez anos e suas bases sociais mostram-se esgotadas. Para onde caminha este sistema e como romper com este movimento pendular?
Richard von Weizsäcker - A situação da Alemanha neste aspecto não se distancia radicalmente das demais democracias parlamentares européias. A luta pela maioria no processo eleitoral é impregnada por esta sede de poder, que se inscreve na estrutura mesma dos partidos. Mas uma vez atingido o poder por esta maioria, esquece-se freqüentemente de assumi-lo com responsabilidade, pois a este pertence também assumir objetivos incômodos de longo prazo. Considere, neste contexto, o atual debate sobre a reforma previdenciária aqui na Alemanha. É muito fácil enganar os eleitores com afirmações tranquilizadoras sobre a segurança e a quimera da manutenção de um patamar de renda em algumas décadas, justamente quando os responsáveis por estas decisões não estiverem mais lá. Não se trata aqui da próxima eleição estadual ou federal, mas dos efeitos destas decisões em trinta ou cinqüenta anos, não obstante, estas decisões produzam, a cuto prazo, muitos incômodos, custos onerosos, mas também novos pontos de vista. Deveria pertencer ao exercício do poder a coragem de tomar decisões de longo prazo. E isto, infelizmente, não ocorre com muita freqüência.
REPÚBLICA - O Sr. anunciou em 03 de outubro de 1990 a Unidade Alemã na União Européia. Dez anos depois, o que vemos é ainda a ênfase no interesse nacional e Brüssel como uma instância muito distante da autoconsciência do cidadão comum. Com o Chanceler Schröder, os interesses nacionais parecem cada vez mais transparentes na União e a fatalidade deste sobrepeso alemão ainda produz uma retórica chauvinista entre muitos vizinhos. Como o Sr. vê e União Européia dez anos depois de Maastricht, neste balanço de interesses nacionais ainda divergentes às vésperas do Euro?
Richard von Weizsäcker - Não compartilho de suas preocupações. Os alemães dispõem, de fato, de uma maioria demográfica, mas não de um sobrepeso no caminho da unificação européia. Não há de forma alguma objetivos chauvinistas que possamos levar a sério, ou também apenas uma retórica.
Certo é que estamos diante de objetivos extremamente ambiciosos. Por um lado, as instituições devem ser fortalecidas para que os atuais quinze membros da União Européia possam aprender a resolver seus problemas em pareceria. Por outro lado, não podemos perder a oportunidade de assimilar todos os países europeus que se reconheçam nos princípios da democracia e no respeito ao Estado de Direito. Não se trata de uma ampliação, mas antes do acabamento da Europa, e estes objetivos são extremamente ambiciosos.
Esta será uma Europa federativa de estados nacionais. Não podemos abdicar da idéia de nação. Mas deveríamos, num tempo de globalização, aprender a falar com uma única voz. Que no curso das negociações atuais Schröder defenda os interesses nacionais alemães é sua tarefa legítima. Da mesma forma, não existe na vontade de nosso governo qualquer dúvida no sentido de empreender, com todas suas energias - sobretudo com nossos vizinhos franceses -, todos os esforços necessários para levar a cabo a União. A forma e pela qual Schröder fala sobre estas chances é muito mais sóbria, muito menos impregnada de acentos emocionas que seus predecessores. Muito pelo contrário, nela vejo um progresso no sentido da União.
REPÚBLICA - Hölderlin dedicou uma vez o prólogo de “Hipérion” ao “amor dos alemães”. O que significa ser alemão hoje e quem deve ser alemão em sentido legal?
Richard von Weizsäcker - Hölderlin pertence a um tempo no qual não existia ainda uma nação política alemã. Não obstante, com seus contemporâneos, ele procurarava dar forma à necessidade de uma nação cultural alemã.
Erigiu-se, naquela época, um teatro nacional alemão, no qual a língua alemã procurava afirmar-se. Lessing, Schiller, Goethe, Jean Paul e também Hölderlin pertencem a este impulso formador. Neste sentido, os poetas, bem como também Hölderlin, poderiam falar naquela época de “amor dos alemães” à sua cultura, ou às suas raízes culturais.
Neste entretempo a história avançou desde “Hyperion”. As nações levaram a cabo seus processos de formação. Os italianos e os alemães foram os últimos a atingir sua unidade política. Segui-se a isto um nacionalismo devastador. Sua pior conseqüência foi que naquela época combinou-se este amor à Alemanha à recusa e até mesmo ao ódio ao país vizinho.
Pagamos muito caro pelos erros nefastos deste nacionalismo. Hoje estamos a caminho da unificação da Europa. As fronteiras estão abertas. Os antigas regras de cidadania estão superadas. Novas regras para os fluxos migratórios são necessárias. Podemos e devemos aprender a vincular este amor ao país com a faculdade e a vontade de assimilar e acolher, com generosidade, homens de diferentes tradições, religiões e concepções de mundo e etnias em nosso meio. Temos de aprender, sem medo, a sermos diferentes. Aquele que contribui nesta tarefa deve e pode se sentir alemão e amar seu páis. Estas são exigências bastante distintas do tempo de Hölderlin.
REPÚBLICA - No centro de sua trajetória está o famoso “Discurso sobre o 8 de Maio”, de 1985, por ocasião dos quarenta anos da Capitulação Incondicional. Este discurso é um divisor de águas na relação dos alemães com sua memória. Na verdade, o que estava em jogo não eram os argumentos históricos empregados, já conhecidos, mas a maneira nova pela qual ele revidava os clichês morais da culpa, colocando-se frontalmente contra a visão revisionista do passado e contra a famosa “Polêmica dos Historiadores”.
O discurso é, do ponto de vista estilístico, uma combinação de dois gêneros literários: a peroração e confissão. Peroração nos sentido do momento e do lugar em que esta verdade apresenta-se ao coletivo, mas confissão no sentido da culpa que se assume em nome deste coletivo no chamado nominal de quase todos elas. Neste sentido, o Sr. faz um uso bastante herético desta “verdade” e de suas versões, que muda inteiramente de sentido depois do discurso, naquela capacidade de “ver a verdade nos olhos”. O Sr. se refere a data não como uma derrota militar, mas como uma “libertação da tirania”, o que inverte tudo. O Sr. Poderia recompor para nós aquele contexto?
Richard von Weizsäcker - Sua interpretação do discurso de 8 de maio é, evidentemente, seu direito exclusivo. Mas para mim não mas não se trata de um cargo de pregador quando se é eleito para uma tarefa política. Também, em função de minhas convicções religiosas, não falaria, neste contexto, de uma pregação, ou mesmo de uma qualidade herética de proferir uma verdade. Sem dúvida, meu discurso teve o caráter de um testemunho político, histórico e moral. Nem todos se alegram com o que afirmei. Aquele que leva a sério o passado, deve abdicar de agradar a todos. Este passado foi duro e pesa bastante. Culpa ou inocência são sempre individuais. Mas somos todos responsáveis pelas conseqüências e pela maneiria como nos relacionamos com este passado.
REPÚBLICA - Se o golpe da aristocracia da generalidade tivesse êxito contra Hitler, como que seria possível explicar Auschwitz para os Aliados? Seu amigo Axel von Busche colocara-se a disposição de Stauffenberg
para um atentado suicida contra o Führer. O Sr. mesmo quebrou seu juramento de soldado uma vez ao atirar no retrato do Führer em solidariedade à sua companhia. Como explicar esta tragédia do obediência da generalidade e como vinculá-la à resistência espontânea e civil do cidadão comum e do exemplo da “weisse Rose”?
Richard von Weizsäcker - Quatro semanas antes do 20 de julho de 1944 - não me lembro exatamente da data, mas estava a par dos planos em linhas gerais de como o atendo seria conduzido-, tive uma longa e penosa conversa, com meus irmãos mais velhos e um amigo comum. Meus irmãos me lembraram da legenda da “punhalada pelas costas” da Primeira Guerra. Na Primeira Guerra, havia na Alemanha um sentimento de que a Revolução em casa levara à derrota militar, um erro de avaliação terrível ! Minha opinião em 1944 era outra. Quando se levava em conta quantas vidas inocentes se perdiam a cada dia, entre a população civil, nos campos de extermínio e nos frontes, se alguém pudesse interromper esta carnificina diária com um golpe certeiro, então seria absolutamente indiferente passar-se por traidor ou herói para a maioria da poupulação, ou quebrar o juramento de soldado, ou se nos julgassem para a História como os autores de uma outra “punhalada pelas costas”, como aquela de 1918 . Era muito mais importante dar um ponto final a tudo aquilo. E quando se tem bem claro que entre 20 de julho de 1944 e o fim da guerra morreram muito mais pessoas que nos quatro anos anteriores, então fica claro que fracassamos e até hoje culpados por isto.
REPÚBLICA - Em oposição ao cargo de nosso presidente, Fernando Henrique Cardoso, um acadêmico de carreira no poder há seis anos, o seu mandato tinha a aura de uma certa impotência. O que um intelectual pode, de fato, no poder? Como o Sr. vê esta aliança? Na peça sobre o intelectual “Gundling” de Heiner Müller, que o Sr. preza, Frederico refere-se a Voltaire como a Laranja que poderia ser esmagada na mão do Monarca: a laranja prussiana.
Richard von Weizsäcker - Se Gundling foi o que hoje podemos chamar de intelectual, não desejo opinar. De qualquer maneira, não podemos comparar nem de longe o papel do intelectual em nossa democracia com aquele que ele desempenha na monarquia absolutista.
Minha preocupação é que os nosso intelectuais mantêm-se distantes das grandes questões de nosso tempo. Na França, por exemplo, ou mesmo na América Latina seu papel é maior.
O problema principal do presente tem a ver com a falta de orientação para os homens, que vivemos numa liberdade garantida constitucionalmente, mas sempre fracassamos em permanecer nesta liberdade. E o problema da presidência entre nós não é que ela seja desprovida de competência e poder. Sua tarefa é contribuir para que as questões certas e, se possível, também as respostas a elas na busca de orientação e que aprendamos a compreender o vínculo indissolúvel entre a liberdade e a responsabilidade.
Revista "República" outubro de 2000 - Ano 4 - No.48
Assinar:
Postagens (Atom)





























































































