dossiê
LITERATURA BRASILEIRA
Uma antologia na contramão
Por José Galisi Filho
Para os professores Ligia Chiappini e Marcel Vejmelka, organizadora e tradutor da primeira reunião de textos de Antonio Candido na Alemanha, o crítico brasileiro pode ser um antídoto à predominância dos estudos culturais no país
A publicação da primeira antologia de Antonio Candido em alemão, "Literatur und Gesellschaft" ("Literatura e sociedade", Vervuert, Frankfurt am Main, 228 págs., 24 euros), organizada pela professora Ligia Chiappini, titular da cadeira de Brasilianística da Universidade Livre de Berlim, e traduzida por Marcel Vejmelka, professor adjunto da Universidade de Potsdam, é resultado de um trabalho de dois anos em colaboração com Antonio Candido e vai de encontro à diluição dos estudos brasileiros no quadro geral da América Latina nas universidades alemãs.
"No caso da literatura, o Brasil sempre foi um apêndice de Portugal, nos departamentos de Romanística das universidades, ou dos estudos hispano-americanos, nos departamentos ou institutos latino-americanos. E aí também a situação piora dia a dia, com o português fazendo parte de uma estrutura que sempre privilegia o espanhol", diz Chiappini, que vê na divulgação do método dialético de Candido, formado na estilística de Leo Sptizer e Auerbach, um antídoto a uma linha dominante de pesquisa nesses institutos, a saber, à falsa dicotomia entre estudos literários e culturais, hegemonicamente marcados pela escola americana.
Ligia Chiappini foi professora titular de teoria literária e literatura comparada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da USP, onde defendeu tese de mestrado, doutorado e livre-docência com Antonio Candido. Desde 1997 está em Berlim, ocupando a cátedra de Brasilianística, única da Alemanha, a qual conquistou por concurso público feito em 1990. Entre suas publicações, destaca-se "Quando a pátria viaja", sobre Antonio Candido, que mereceu o prêmio Casa de las Américas em 1983. Ela já orientou mais de 40 teses de mestrado e doutorado, inclusive o trabalho do tradutor alemão de Antonio Candido, Marcel Vejmelka, uma análise comparativa entre Thomas Mann e Guimarães Rosa, que obteve a nota máxima há quase dois anos atrás.
A antologia de Antonio Candido é a primeira de uma série que Chiappini e Vejmelka planejam organizar com a obra de grandes intelectuais brasileiros ou que, sendo estrangeiros, produziram a maior parte de seu trabalho no Brasil, como é o caso de Otto Maria Carpeaux. De Berlim, eles falaram sobre a organização da coletânea e o estágio atual da pesquisa brasileira na República Federal.
Como foi organizada a antologia?
Lígia Chiappini - Queríamos fazer uma antologia expressiva das várias etapas da obra e de suas facetas, desde textos de intervenção mais curtos e políticos, até os mais analíticos e teóricos, que tematizassem a dialética literatura e sociedade, bem como outros sobre as relações do Brasil com a América Hispânica. Depois de uma primeira seleção, remetemos o material para Antonio Candido, que acabou sugerindo novos textos, excluindo uns e introduzindo outros e, somente então, chegamos a esta estrutura dividida em quatro blocos e um apêndice.
A relação de Antonio Candido com a cultura alemã é prematura e decisiva na constituição de seu método. A revista “Clima” denunciava a versão tupiniquim do fascismo nos anos de Estado Novo. Já no pós-guerra, ele alertava sobre o perigo de uma demonização da figura de Nietzsche na tradição. Há também um ensaio inédito sobre o diário de viagem de Ernst Jünger ao Brasil. Como você vê esta relação com os “autores malditos” da modernidade e, sobretudo, a avaliação do Holocausto, cujos horrores começavam a vir a tona nesses anos?
Chiappini - Acredito que fique evidente, não só nos textos, mas também no depoimento concedido, que registramos em vídeo, que o tempo que ele passou em Berlim, embora curto, foi fundamental para a sua visão de mundo. Até então, ele tinha uma formação muito francesa, pois seu pai viajava muito a Paris. Contudo, antes da Segunda Guerra, a família permaneceu um curto período na Alemanha. Foi então que ele se apaixonou por alguns aspectos da cultura germânica, embora sua mãe não gostasse muito dos alemães, pois os associava ao militarismo.
Como leitor precoce, ele devorou tudo que achou, freqüentou muitos museus e tornou-se muito familiar de algumas figuras da história alemã, sobretudo, Frederico II. Daí nasceu um interesse permanente, que foi se aprofundando em novas leituras. Já aos 16 anos, ele publicou um artigo no jornal de seu ginásio chamado “O Ariel”, um texto bastante pretensioso para a idade: uma análise de por que a política externa de Bismarck não tinha dado certo. O erro de Bismarck teria sido ter trocado a aliança com a Rússia por uma aliança com o Império Austro-Húngaro, já decadente. Percebemos que ele parecia muito familiarizado não apenas com Bismarck, mas também com a nobreza dessa época, que conspirava contra o Chanceler.
É muito interessante como um menino de 16 anos, num jornal de escola, propõe-se simplesmente a escrever um texto deste tipo. Antonio Candido nos autorizou a publicá-lo no apêndice, mas insistiu de que não se trata de nenhuma análise interessante ou profunda, e sim de um texto ilustrativo desse interesse precoce pela Alemanha. E realmente esse interesse precoce vai se desenvolver na juventude e maturidade, pois ele nunca mais deixou de ler e se interessar pela história alemã, apesar de não ser germanista, pelos grandes nomes da cultura alemã, sobretudo Goethe, que leu exaustivamente e do qual afirma ter formado sua visão de mundo.
Outra referência fundamental na constituição seu método analítico foi Auerbach, quando este ainda não era conhecido no Brasil. Para a leitura de Auerbach, ele foi aprender alemão. Por outro lado, foi sua militância de esquerda com uma visão na sectária da política, que lhe permitiu ter uma visão, para usar hoje uma palavra fora de moda, “dialética” de figuras como o Nietzsche, por exemplo, ou mesmo da ruptura nazista, que ele dissociava dessa matriz cultural. Sem negar a absoluta singularidade do Holocausto, ele acredita que ele poderia se repetir, dadas as mesmas condições históricas, e não como prerrogativa de uma nação.
Marcel Vejmelka - Parece-me um texto muito corajoso para a época e que se recusa a um posicionamento fácil, a saber, “estou do lado certo”. Quando se condena o Holocausto, é preciso ver que o mal está também em outras partes. É uma solução muito agradável imaginar um povo demoníaco e se eximir da própria culpa. Ele acredita que incriminar um povo para desculpar os outros não funciona. Para nós, é recompensador ler um texto deste tipo. Ele era muito polêmico há 60 anos e ainda hoje o é, sobretudo como posicionamento contra o dogmatismo da esquerda.
Como você enfrentou o desafio desta tradução?
Vejmelka - Sempre achei, desde o princípio, a linguagem de Candido extremamente clara e transparente. Portanto, a tradução em si, num primeiro momento, não parece ser difícil, porque o tradutor, como leitor, acompanha o movimento desta escrita. A dificuldade foi descobrir depois as alusões e o conhecimento implícito no texto, que não é tão aparente, pois não é uma erudição que se ostenta.
Por trás desta aparente simplicidade, estão todas as leituras e referências em segundo plano. É um estilo agradável para se ler, mas provavelmente muito difícil para se escrever, imagino. Interessante para mim é como Antonio Candido mimetiza a lógica de cada autor tratado, dando forma ao tema, na exposição de uma constelação dos problemas imanentes da forma.
Como a clareza e a concisão do método dialético irá se adaptar numa paisagem colonizada pelo descontrutivismo francês, como é a da universidade alemã?
Chiappini - O lado do clareza sempre conviveu com a obscuridade. Talvez hoje, e a partir do estruturalismo para cá, o lado da obscuridade ganhou em peso. Tenho um colega no Brasil que dizia que esta clareza seria “ideologia”. Auerbach e Marx são extremamente claros. O outro lado são Adorno e Heidegger. Os alemães costumam dizer que, se você sacudir bem o Heidegger, não sobra muita coisa, pois a obscuridade disfarça, muitas vezes, insuficiências metodológicas.
Acredito que Antonio Candido esteja entrando na Alemanha num momento de contramão e que a obscuridade não seja apenas uma questão estilística, mas pressupõe, sobretudo, uma atitude diante da teoria e da docência. O professor tem a obrigação de ser claro. Antonio Candido foi sempre um professor claro, que pensava na formação dos alunos, no sentido clássico alemão da palavra “Bildung”. O aluno, para se formar, tem de ter confiança em sua própria capacidade. Um discurso claro, embora rico e erudito, desperta no aluno a impressão de que ele é inteligente o suficiente, para, através de seu próprio esforço de leitura, chegar lá.
Esta é uma grande diferença: os discursos do crítico, do professor e do ensaísta convergem, neste caso, num respeito ao interlocutor. Há também razões históricas e diferenças estruturais neste contexto universitário.
Na Alemanha, o titular dispõe de um poder desproporcional em relação aos assistentes e goza de uma série de privilégios que, na maior parte dos casos, gera uma dependência e uma subserviência de seus assistentes, uma hierarquia muito rígida e medieval para quem está em baixo. Estamos agora passando por um processo -o que chamaria de “contramão”- em que a tônica por aqui não é a clareza, mas, muitas vezes inventar teorias, mesmo que banais, disfarçadas de novas e que, para se tornarem verossímeis, têm de ser difíceis e ininteligíveis. Não estou dizendo que todos são assim, mas é uma tendência que se presta a este tipo de coisas.
Vejmelka - Nesse sentido, vejo que a dificuldade da tradução desloca-se então do plano da língua para o contexto acadêmico alemão, teórico e filosófico, carregado realmente por terminologias e sistemas autocentrados, como no caso do idealismo. Trata-se de uma gramática filosófica difícil até para os eruditos. Talvez este leitor ideal erudito possa, num primeiro momento, se decepcionar com os textos de Candido e achá-los até mesmo banais. Mas vejo aí o mesmo problema apontado pela Lígia. Nesta proliferação de esquemas abstratos e jargões, abordagens temáticas, esquece-se muitas vezes da experiência direta com o texto literário que os ensaios de Candido nos oferecem.
Num dos cursos que dei recentemente, utilizei alguns textos da antologia. No início, meus alunos achavam que tinham lido um texto muito fácil e óbvio, mas somente depois eles começavam a perceber as outras camadas de significação e as relações de contexto. É um desafio que exige paciência. Nesse sentido, a revisão foi feita por Willi Bolle, cujos comentários foram incorporados na tradução para esclarecer certas passagens, foi um diálogo intercultural muito interessante.
Chiappini - Certamente, quem está acostumado com isto, tenda a acreditar que Antonio Candido seja muito fácil e, portanto, não seja bom, mas há muitas pessoas por aqui que não pensam desta forma e são capazes de valorizá-lo como antídoto. Além de tudo, muitos de seus texto essenciais, agora acessíveis em alemão vão de encontro ou relativizam esta tendência, sobretudo a dos estudos culturais à maneira dos americanos, como eles são praticados na Alemanha.
Walnice Galvão Bueno esteve aqui, convidada pela cátedra de Brasilianistik da Universidade Livre de Berlim e pelo DAAD, e fizemos um colóquio sobre a concorrência da mídia com a literatura e sua relação com a democracia, no qual a leitura de um texto do Candido, que está na antologia, “O direito à literatura”, revelou-se essencial, bem como um outro ensaio chamado “Estímulos à criação literária”, ainda pouco conhecido no Brasil, do qual falo na minha introdução, e que poderia ser considerado um bom exemplo, avant la lettre, do que denomino “antropological turn”. Trata-se de um texto que, a partir da antropologia, examina a questão do valor estético em concorrência com valores extra-estéticos.
Este texto deriva de um texto anterior “Os parceiros do Rio Bonito”, uma tese defendida em sociologia, mas uma tese antropológica muito nova para sua época -e agora os sociólogos e antropólogos estão valorizando muito este livro no Brasil. O texto se conecta com este livro no sentido de mostrar como que a dimensão aparentemente funcional e pragmática dos códigos alimentares nos assim chamados grupos “primitivos” contrasta com a dimensão desinteressada do simbólico.
Candido dialetiza esta dicotomia, a saber, uma literatura culta como expressão da dimensão desinteressada do juízo estético kantiano, enquanto que a poesia oral permaneceria na esfera meramente pragmática, para apontar a complementaridade de ambas as esferas, ou seja, como este pragmatismo e a funcionalidade, digamos, sócio-existencial, existe na poesia culta e vice-versa. 2
É uma análise que mostra as duas coisas de uma maneira muito nova. E o que fazem os estudos culturais? Eles pegam a literatura pela temática, pela teoria, vão buscar nela uma etnicidade definida a priori e uma série de questões e temas, que, sem dúvida, são importantes para a atualidade, mas não vêem como estes temas são formalmente tratados como um material estético, como algo já pré-formado.
Mas eu acho que, além disto, existe uma outra questão: temos hoje uma nova hegemonia das ciências sociais sobre a literatura. Paulo Lins é recebido por aqui como se fosse um sociólogo, ou até mesmo um assessor de governo para resolver os problemas da favela e nunca é indagado como resolveu o problema de um ou outro personagem, que é seu “métier”. Isto é um equívoco de nosso tempo, mas o maior equívoco é que muitos letrados estão abrindo mão de seu “métier” para se improvisarem em sociólogos e antropólogos e, portanto, não acharem mais que a questão do tratamento literário da forma seja relevante, da forma sem formalismo. Acredito que Paulo Lins tenha escrito realmente um belo romance, que tem altos e baixos, e depois fez uma versão menor e mais enxuta por solicitação das editoras, que ele mesmo acha até melhor.
Ele tem a pretensão de ser um bom escritor, cuida da forma e está empenhado em depurar seu estilo e não apenas em tematizar a favela. No entanto, quando ele vem aqui para ler ou falar do romance, lhe perguntam sempre coisas que não têm nada a ver com sua tarefa precípua de escritor. Quando se pega um poema feito pelo movimento negro e não se indaga pelo seu valor estético, estou desrespeitando este poema, estou sendo falsamente “libertária”, porque não utilizo para eles os mesmos critérios que valem para a alta cultura. Mas, mesmo que utilize critérios diferentes, tenho de buscar estes critérios, não posso simplesmente esquecer da questão estética, pois é como se estivesse dizendo que, para este tipo de poema, não vale a pena perguntar pelo estético, e o escritor negro quer ser um bom escritor.
Vejmelka - Gosto muito do livro de Paulo Lins, mas o problema da recepção na Alemanha é que o filme chegou primeiro. Ninguém quis publicar uma tradução antes. Somente quando o filme foi lançado a editora decidiu-se por uma tradução apressada da versão condensada. A imagem do filme superpõe-se à leitura do texto e tenho a impressão de que o leitor a percebe como uma “pulp fiction” e veja apenas uma violência estetizada, cheia de efeitos. Não podemos fugir do marketing cultural, mas até mesmo professores por aqui que ensinam literatura brasileira acabam aderindo a esta estratégia. Passa-se a imagem de um Brasil “exótico” e de uma violência primitiva.
O livro é fruto de um conjunto de entrevistas antropológicas, de um projeto que ele nunca pode realizar, e depois foi retocado. Como tradutor, enfrento o problema da recepção sobretudo a partir do domínio da linguagem. A história da recepção de Guimarães Rosa é um bom exemplo de como um escritor de primeira grandeza é completamente diluído neste trabalho de passagem. Guimarães, que era apaixonado pela língua alemã, que lia desde os dez anos e domina todos os níveis de linguagem e da composição musical de seus textos, desaparece nas traduções. Fez-se com Guimarães o mesmo trabalho de folclorização deste tipo de recepção.
Chiappini - Lembro-me, a propósito, de uma entrevista concedida por Candido em 2002, em que ele via na literatura uma perspectiva utópica na qual esta, ao mesmo tempo em que dá acesso ao valores da alta cultura, resgata simultaneamente a cultura popular, que se torna um conhecimento de todos. Esta utopia democrática consiste justamente na superação da distinção entre alta e baixa -embora hoje se afirme que não haja mais diferenças entre uma e outra.
Você está realizando um trabalho comparativo entre Antonio Candido e Angel Rama. Poderia falar sobre ele?
Vejmelka - Embora sejam contemporâneos, eles não pertencem à mesma geração. Rama enxergou Candido como mestre, um professor com o qual ele podia aprender muitas coisas. No inicio, Rama era um crítico sem método e fundamento teórico. Esta metodologia ele aprendeu com Candido, quando se conheceram em Montevidéu nos anos 60 e começaram uma longa amizade intelectual e uma troca de idéias.
Por outro lado, Rama foi alguém que lhe abriu os olhos para o mundo hispano-americano, cujo desconhecimento ele mesmo teve de constatar em si e tentar superar em parte este “tordesilhas cultural” que levava o Brasil e os países hispano-americanos a viverem de costas um para o outro. É um exemplo de como podem surgir projetos maiores a partir de uma amizade intelectual. A aproximação entre ambos é interessante na combinação do olhar sociológico com a perspectiva estritamente teórica.
Candido foi inicialmente sociólogo e depois tornou-se crítico literário. Rama era um oriundo das rodas literárias, conquistando depois para si disciplina teórica, que ele aprendeu com o Candido. São dois caminhos que devem hoje ser relidos nesta convergência. Temos hoje muitos conceitos abstratos e sistemas teóricos, mas falta um trabalho de texto e falta também, na escolha dos textos, um olhar crítico que se pergunte pelo valor real de uma obra literária. Procuro comparar este diálogo de 40 anos com a produção atual em termos de América Latina.
José Galisi Filho
É doutor em germanística pela Universidade de Hannover (Alemanha).
The technological imagination from the early Romanticism through the historical Avant-Gardes to the Classical Space Age and beyond
domingo, 14 de agosto de 2011
Interview mit Gabor Steingart "Der Fall Deutschland: Abstieg eines Superstars" Dossier Hartz IV Folha und Tropico (Brasilien)
José Galisi Filho - Das „Modell Deutschland“ wurde damals für eine nationale, industrialisierte Vollerwerbsgesellschaft mit hohem wirtschaftlichenWachstum entwickelt. Diese Gesellschaft gibt es nicht mehr. Nationale Preisaufschläge sind heutzutage auf Grund des internationalen Wettbewerbs ein Nachteil. Nationalökonomien haben aufgehört zu existieren. Dennoch versucht die deutsche Regierung das „(Auslauf)Modell Deutschland“ zu retten und nicht zu reformieren. Im Zentrum Ihres Plädoyers geben Sie viele Hinweise, daß Deutschland eher auf der Verliererseite steht und nicht mehr auf die Herausforderungen der Globalisierung zu reagieren scheint. Wie kann der Faktor Arbeit endlich von den „Fesseln“ der Sozialaufschläge befreit werden? Welche sind die Voraussetzungen, um den produktiven Kern dieser Wirtschaft zu wieder in Gang zu setzen?
Gabor Steingart - Die Arbeitskraft ist im Zuge der beschleunigten Globalisierung zur ganz normalen Handelsware geworden. Ihre Qualität und ihr Preis werden von den internationalen Investoren verglichen wie die von Rohöl, Eisenerz und Phosphaten. Deutschland, das seit Kriegsende seinen Sozialstaat über einen 40prozentigen Aufschlag auf Arbeit finanziert, hat damit ein Riesen-Problem. Dieser Sozialaufschlag wirkt wie eine Strafsteuer auf Arbeit und führt dazu, dass die einfache Industriearbeit das Land verläßt. Die Investoren kaufen sich einfache Industriearbeit in China, in Indien, in Osteuropa ein, was in meinem Land zu einer historisch einmalig hohen Arbeitslosigkeit führt. In vielen Regionen im Osten und im Westen Deutschlands ist ein Drittel der Erwerbsfähigen mittlerweile stillgelegt. Wir erleben im Innersten unserer Volkswirtschaft eine Kernschmelze. Seit Jahren verlieren wir pro Tag rund 1500 reguläre Vollzeit -Jobs - trotz der Reformpolitik der Regierung. Um diese für das Land verhängnisvolle Situation zu ändern, brauchen wir eine weitestgehende Befreiung der Arbeit von der Strafsteuer. Der Sozialstaat muß die Arbeiter in Ruhe lassen, damit die Arbeiter als Arbeiter und nicht als Arbeitslose weiterleben können. Wie andere Staaten auch, zum Beispiel alle Skandinavier, muß das Soziale künftig über reguläre Steuern finanziert werden. Das hat noch einen weiteren Vorteil: Alle sind gleichermaßen an der Sozialstaatsfinanzierung beteiligt, die Immobilienbesitzer, die Aktionäre, die Erben, die vermögenden Rentner. Das mag unpopulär klingen, aber es ist vernünftig. Jedes "Weiter-so" endet für Millionen von Jobs mit dem Aus.
José Galisi Filho - Sie beschreiben den rasanten Prozess der Externalisierung und Erosion des Wirtschaftskerns des Landes. Wie ist es langsam gelungen der Weltmeister in Export der Arbeitsplätze in der Welt zu werden? Warum haben die Deutschen, wie die Briten damals, nicht rechzeitig geschafft, diesen Gaueffekt zu erkennen? Könnten Sie für uns erklären diese statistische Fiktion und zwar, wie das berühmte Bruttoinlandsprodukt, das als Gradmesser für Erfolg sei in der Tat Schuldaufnahmen und Staatsaktivitäten als Positivfaktor mitzählt?
Gabor Steingart - Deutschland ist Vize-Exportweltmeister hinter den USA. Unser Erfolg in den Auslandsmärkten zeigt uns, dass Deutschland noch immer vital ist. Die Firmen sind erfindungsreich, vertriebsstark und wettbewerbsfähig. Aber der Preis für den Vize-Titel ist eben das ständige Aussteuren von menschlicher Arbeit. Der Importanteil an unseren Exporten hat sich in dem letzten Jahrzehnt fast verdoppelt, was nichts anderes bedeutet als das Ersetzen inländischer durch ausländische Arbeit. Unser Export-Erfolg ist ein Erfolg in Euro und Dollar, die Arbeitskräftebilanz ist weniger günstig. Unser Sozialprodukt, das eigentlich die Summe unserer ganzen Wirtschaftsaktionen abbilden sollte, gibt uns ebenfalls keine ehrliche Auskunft über die Lage in Deutschland. Die gesamten Staatsschulden werden zum Sozialprodukt dazu addiert, als handle es sich um eine Investitionssumme. Unsere Wachstumszahlen sind in Wahrheit rot. Das Wachstum ist aber in Wahrheit schuldengetrieben und wenn wir die Bankkredite wieder aus der Rechnung streichen sehen wir: Deutschlands echte Wirtschaft schrumpft.
José Galisi Filho - Die SPD warnt jetzt populistisch vor der "totalen Ökonomisierung". In einer hochregulierte Gesellschaften tut sich besonders schwer mit Anpassungsprozessen. Kann Politik überhaupt davor bewahren gegen die Entfaltung der Marktkräfte?
Gabor Steingart - Kluge Politik versucht, jene Prozesse, die derzeit im Westen zerstörerisch wirken, zu verlangsamen. Wir können kein Interesse daran haben, dass unsere industrielle Basis erodiert. Ohne Industrie gibt es auf Dauer keine Dienstleistungen. Politik muß den Faktor Arbeit endlich entlasten und die Steuern so gestalten, dass auch die Importe belastet werden. Die Umsatzsteuer ist ein Instrument, diese Umfinanzierung zu bewerkstelligen. Die müßten alle zahlen - auch die Produkte von Chinesen, Taiwanesen und Polen verteuern sich.
Teil zwei einer politischen Strategie lautet: Die Ausgaben für Forschung und Entwicklung müssten verdoppelt werden. Wenn die einfache Industriearbeit geht, muss die höherwertige Arbeit expandieren. Mit diesem doppelten Ansatz - mehr Luft zum Atmen am unteren Ende der Beschäftigungspyramide und neue Frischluft am oberen Ende - kann die Trendumkehr gelingen.
José Galisi Filho - Im Zentrum Ihres Arguments steht der strukturelle Fehler der Adenauer Rentereform 1957, eine Zeitbombe, die nicht den demographischen Kollaps des Landes einbezogen hatte. Können Sie uns erläutern, wie dieses System zum scheitern vorprogrammiert war?
Gabor Steingart - Adenauer hat seinen Generationenvertrag , der noch heute die Grundlage für unser Rentensystem bildet, nur zwischen der jetzigen Generation und ihren Eltern abgeschlossen. Die Kinder blieben Privatsache. Oder anders ausgedrückt: Die für das Überleben des Rentensystems wichtigste Frage, die der Nachkommen, die künftigen Arbeiter und Angestellten, der Beitragszahler von übermorgen, blieb unberücksichtigt. Diese Geringschätzung der Kinder ist zumindest einer der Gründe für die Überalterung der Gesellschaft. Seit meinem Geburtsjahrgang, 1962 bis heute, hat sich die Zahl der Kinder pro Jahrgang in Deutschland halbiert. Andenauers Rentensystem war ein Jahrhundertirrtum, der nun korrigiert gehört.
José Galisi Filho - Hans Magnus Enzensberger in seinem Aufsatz „Mittelmaß und Wahn“ 1988 beschrieb im positiven Sinne die Leistungen dieser Gesellschaft als „mittelmäßig“. Aber im Rückblick auf das „Experiment“ Hartz IV lässt sich eine Passage des Texts erneut lesen: „Millionen von Verlierern bleiben hinter den Anforderung dieses unerbittlerlichen Paradieses zurück. Die Rigidität, mit der sie ausgegrenzent werden, ist die Kehrseite der herrschenden Toleranz“. „Abnormale Normalität“ hieß damals. Die Opfer sind nicht mehr das, was sie einmal waren. Wie steht Ihr eigener Begriff der „Leistung“ in diesem Zusammenhang? Was ist der Unterschied zwischen den Leistungsbringern und Leistungsbeziehern?
Gabor Steingart - Es gibt in Deutschland eine Ausgrenzung von Menschen, die nun gegen ihren Willen ein Leben ohne Arbeit führen. Ohne Arbeit und ohne Geld und oft auch ohne die mit beidem verbundene Sinnstiftung. Sie sind – gegen ihren Willen - Leistungsbezieher und nicht mehr das, was sie eigentlich sein wollten: Leistungserbringer. Dieser Sachverhalt ist gesellschaftpolitisch dramatisch und volkswirtschaftlich eine Katastrophe. Menschen, die von der Wohlstandsmehrung ausgeschlossen sind, wechselten von der Aktiv- auf die Passivseite der Bilanz. Teilhabe im umfassenden Sinn ist für diese Menschen nicht möglich. Die Gesellschaft hat ihre Leistung still gelegt. Dies ist ein Zustand, den wir ändern müssen, wenn sich die Dinge bessern sollen. Die "Abnormale Normalität" besteht darin, dass sich zu viele mit dieser Zweiteilung abgefunden haben und etliche sie sogar für eine Art Naturgesetz der Globalisierung halten. Diese Zweiteilung der Gesellschaft ist aber kein Naturgesetz, sie ist Ausdruck eines Staatsversagens. Das können wir leichter korrigieren als Naturgesetze und wir sollten es zügig tun.
José Galisi Filho - Trotzt der „moralischen Wende“ am Anfang der Achtziger wurde der Weg den Schuldenstaat fortgesetzt, aber dann kam die Wiedervereinigung und das Primat der Politik ließ ihm keine andere Wahl. Daraus entstand ein einmaliges Transfersystem in der Geschichte, und zwar der Aufbau Osten mit dem Abbau Westens In dreizehn Jahren Einheit fließen insgesamt 1.250 Milliarden Euro in die neuen Bundesländer und die beiden Teilen jetzt erkennen sich wieder in ihrem Absturz. Verrät diese Konvergenz, wie Robert Kurz in seinem Buch „Der Kollaps der Modernisierung“ (1990) meint, mehr als der Kollaps des Sozialstaats als der Fanal des Zusammenbruchs des Systems selbst?
Gabor Steingart - So weit würde ich nicht gehen. Deutschland ist ein reiches Land, aber ein reiches Land im Abstieg. Die Übertragung unseres überlasteten Westsystems auf den Osten hat diesen Abstieg beschleunigt. Aber das ist für mich kein Grund zum Verzweifeln, sondern ein Grund zum Handeln. Eine politische Klasse, die alle Sinne beieinander hat, steuert um, möglichst bald, möglichst energisch.
José Galisi Filho - Wie bewerten Sie die These von Ulrich Beck über „die Brasilianisierung des Westens“?
Gabor Steingart - Beck meint die vielen fragilen Beschäftigungsverhältnisse, die Ich-AG's, die Scheinselbstständigen, die Menschen mit Werkverträgen. Dies alles hat zugenommen und das nicht nur zur Freude der Betroffenen. Aber ich würde es nicht diskreditieren wollen. Die Zeit des einen lebenslangen Jobs für alle ist vorbei und je eher wir uns damit arrangieren, desto erträglicher wird die Situation. Die alte Arbeitswelt wird aus unserem Leben verschwinden wie Postkutsche, Telegraph und Dampfeisenbahn.
José Galisi Filho - „Von den Visionen ist im Wesentlichen nur die Erregung zurückgeblieben, die sich nun gleichsam ziellos Wege der Energieabfuhr sucht“, schrieb einmal der Journalist Richard Herzinger in Bezug auf die rot-grüne Generation, deren postideologisches Projekt der radikalen Individualisierung die eigene Biographie als politische Botschaft und Spektakel sah. Welches Fazit ziehen Sie persönlich am Ende dieses Projekts?
Gabor Steingart - Der Wähler entscheidet, was bleibt und was kommt. Rot-grün war in vielen Politikfeldern besser als der Ruf, in der Verbraucherpolitik, beim Umweltschutz und auch in der Außen- und Sicherheitspolitik wurde Deutschland im Großen und Ganzen ordentlich regiert. Diese Regierung hat ökonomisch versagt, das Wollen war hier deutlich größer als das Können, die handwerklichen Fehler haben die Regierung Schröder auf diesem Gebiet vom ersten Tag an begleitet. Und: Sie wurden nie wirklich abgestellt. Die entscheidende Bezugsgröße beim Beurteilen von Politik ist aber die Wirklichkeit: Wird sie richtig verstanden? Hat man es geschafft, sie zum Besseren zu verändern? Wie nachhaltig sind diese Verbesserungen? Gerade in der Wirtschafts-, Finanz- und Sozialpolitik hat man versucht, die Wirklichkeit mit Parolen und Schlagworten zu beeindrucken, mit Agenda 2010, Job-Aktivgesetz und Job-Floater. Aber die Wirklichkeit ist unbestechlich und für Regierungspropaganda nicht empfänglich. Das wird auch eine denkbare neue Regierung schnell merken, die an diesen Problemen, über die wir hier reden, schon einmal gescheitert ist.
O colapso alemão (Trópico)
entrevista
EUROPA
O colapso alemão
Por José Galisi Filho
Em "A decadência de uma superstar", Gabor Steingart analisa a crise de uma das maiores economias do planeta
Vista de fora, a economia social alemã, como não se cansa de repetir o chanceler Gerhard Schröder, parece ainda despertar inveja por oferecer "ruas limpas e seguras". Contudo, essa percepção é sintomática da fragilidade do olhar político em reconhecer apenas acomodações de superfície do processo econômico.
Com um índice recorde de mais de 5 milhões de desempregados, o maior do pós-Segunda Guerra, um endividamento público de 1,4 trilhões de euros, um crescimento anual em média de 1,4% desde 1995, um recorde de falências desde 2002, um aumento incontrolável do mercado informal de trabalho em função dos custos adicionais da ocupação regular (em média 40%), já quase em torno de 17% do PIB, mas sobretudo uma retração alarmante do investimento público deste PIB em pesquisa e inovação tecnológica (em torno de 2,5%), transformando um país exportador de patentes num importador de tecnologia em muitos setores _com tudo isso, a Alemanha já está na zona do rebaixamento econômico dos países mais desenvolvidos. E ainda viu, nos últimos cinco anos, sua população que vive abaixo do limite da pobreza crescer de 12,1% a 13,5%.
No centro da União Européia, a estagnação da economia alemã torna-se um fator de instabilidade crescente para o continente, colocando em xeque a alternativa social-democrata do governo atual aos desafios da globalização. Sela também o colapso da coalização governamental feita em maio nas eleições da Renânia-Vestfália, base eleitoral na qual o SPD (Partido Social-Democrata, de Schröder) governou por 40 anos e também do ex-parque industrial do país no Ruhr, o que obrigou o chanceler a antecipar as eleições parlamentares federais para 18 de setembro, um ano antes do fim de seu mandato.
"O que vemos na camada de superfície é apenas a cristalização de um bem-estar aparente, produto de 50 anos de um modelo que não existe mais, mas no interior de nossa economia processa-se um desastre irreversível", diz o jornalista Gabor Steingart, chefe do escritório da revista "Spiegel" em Berlim. Gabor acredita que a Alemanha padeça de uma auto-hipnose coletiva e necessita urgentemente da perspectiva de um “geólogo economista” para despertar de sua letargia.
Em seu livro "A decadência de uma superstar" (Abstieg eines Superstars, Piper Verlag, 8,90 euros), ele convida o leitor a uma viagem ao centro incandescente desse modelo, estabelecendo uma cronologia de sua ascensão e de seu declínio, dos anos de ouro do milagre, entre 1950 e 1970, quando a economia alemã cresceu 107%, quadruplicando salários, até o despertar para o pesadelo da globalização. As clássicas aporias performativas do Estado de Bem-Estar são traduzidas em seu argumento com grande plasticidade e uma farta estatística.
O motor do crescimento é o núcleo de inovação capaz de gerar empregos produtivos que garantam a competitividade internacional. Contudo, muito além desse centro de energia, formam-se camadas e mais camadas de clientela social (pessoas que precisam da ajuda do Estado para viver), em função da própria intensificação tecnológica, que expande o desemprego estrutural. É justamente a relação entre este núcleo e suas camadas que se alterou de maneira definitiva, acentuando as distâncias entre um e outro desde os anos 70, quando a Alemanha perdeu o passo do processo com os dois choques do petróleo e a internacionalização dos mercados financeiros.
A matemática é simples: 5 milhões de desempregados, 20 milhões de pensionistas, 3 milhões vivendo de ajuda social, um terço da população ativa respondendo por 70% da geração da riqueza. Mas a metáfora da "superstar" contém uma ironia, não tão evidente ao leitor estrangeiro, pois alude, sobretudo, a uma deterioração qualitativa da indústria do entretenimento televisivo nos últimos anos, e mesmo da mediatização populista da política, desde a mudança da capital para Berlim, espelhando a nova miséria social cada vez mais difícil de ser ocultada.
O livro de Steingart tornou-se um best-seller e um objeto de controvérsia política, sobretudo depois do golpe de misericórdia no sistema previdenciário alemão, a espinha dorsal desse "modelo" desde a década de 50, o pacote conhecido como "Hartz IV", um dos núcleos da assim chamada "Agenda 2010". Ironicamente, Peter Hartz, um dos antigos membros da alta cúpula da Volkswagen, diretor de Recursos Humanos do conglomerado e consultor próximo de Schröder, teve de renunciar, depois de um escândalo envolvendo até mesmo prostitutas brasileiras.
Na prática, a equiparação do seguro de desemprego de longa data à ajuda social mínima, empurrou, do dia para a noite, milhões de desempregados abaixo da linha da miséria, acelerando ainda mais o declínio.
A democracia social alemã, que até então parecia uma alternativa ao modelo anglo-saxão, adotou, para descobrir se o beneficiário da ajuda social não dispõe ainda de recursos próprios para se manter, métodos que lembram a Gestapo: violação da proteção de dados pessoais, prerrogativa de interrogatórios íntimos, a obrigação de aceitar qualquer trabalho, independente das condições, violando direitos adquiridos, acordos coletivos ou "tarifários", o que, na prática, retirou dos Departamentos de Trabalho qualquer competência efetiva de recolocação a médio ou longo prazo, desencadeando protestos em massa, sobretudo no Leste, onde o desemprego atinge em muitos dos novos Estados até 30% da população ativa. "A Alemanha ainda é um país rico, mas em declínio evidente", afirma Steingart na entrevista a seguir.
O modelo "Alemanha S.A." foi desenvolvido no passado para uma economia nacional, industrializada, com plena ocupação e altas taxas de desenvolvimento econômico. Essa sociedade não existe mais, e a sobretaxação, hoje, em razão da concorrência internacional, é uma desvantagem. Economias nacionais deixaram de existir. Entretanto, o governo alemão procura ainda salvar esse "modelo" e não reformá-lo. O sr. oferece várias indicações de que a Alemanha já se encontra do lado perdedor da globalização e parece não mais reagir às suas demandas. Como o fator trabalho poderia ser finalmente desonerado de seus "custos secundários"?
Gabor Steingart: A força de trabalho tornou-se, no curso do processo de globalização acelerada, uma mercadoria totalmente normal. Sua qualidade e preço são comparados pelos investidores internacionais como o carvão, aço e fosfato. A Alemanha, que desde o fim da Segunda Guerra financiou o seu Estado de Bem-Estar Social com, em média, 40% sobre o valor nominal do trabalho, tem, dessa forma, um problema gigantesco diante de si. As contribuições sociais operam como um imposto punitivo sobre o trabalho e, em conseqüência disso, o trabalho simplesmente industrial está abandonando o país.
Os investidores empregam a mão-de-obra barata industrial na China, Índia e Europa Oriental, o que conduziu a um índice recorde de desemprego, o maior do pós-guerra. Em muitas regiões do Leste e na parte ocidental um terço da população ativa já está desempregado. Estamos vivendo no interior da economia um verdadeiro efeito "meltdown" de seu centro produtivo. Há anos, perdemos por dia aproximadamente 1.500 empregos de período integral, apesar da política reformista do governo.
Para mudar essa situação dramática, seria preciso, em primeiro lugar, desonerar o trabalho de seus impostos punitivos. O Estado Social deve deixar o trabalhador em paz, para que ele possa continuar a viver empregado e não engrossar a fila do Departamento de Trabalho.
Assim como em muitos outros Estados _por exemplo, nos países escandinavos_, a parte social deve ser financiada, no futuro, através de impostos regulares. Isso teria uma outra vantagem: todos participariam de maneira equilibrada no financiamento do Estado Social, proprietários de imóveis, acionistas, herdeiros e o teto dos pensionistas. Pode parecer impopular, mas é mais razoável do que a inércia deste "ir tocando adiante" dos últimos governos, que significa a eliminação dos postos de trabalho de milhões.
Com a externalização e a erosão daquilo que o sr. denomina "o núcleo real da produtividade econômica", a Alemanha acabou se tornando campeã mundial na exportação de postos de trabalho. Por que o produto bruto interno do país, que deveria ser um índice confiável de seu desempenho econômico, não reproduz mais esse processo que o sr. descreve?
Steingart: A Alemanha é vice-campeã mundial de exportações, depois dos Estados Unidos. Nosso êxito nos mercados estrangeiros nos mostra que o país ainda é uma das forças vitais: firmas inovadoras, competitivas e com sólida estrutura administrativa. Mas o preço pelo vice-título é o encarecimento crescente do trabalho humano. A participação das importações em nossas exportações quase que duplicou nos últimos anos, o que não significa outra coisa que a substituição do trabalho interno pelo estrangeiro.
O êxito nas exportações deve-se também à conjuntura do dólar fraco em relação ao euro. Para a força de trabalho, contudo, esse balanço é menos favorável. O nosso produto social bruto, que deveria espelhar a soma de todas as ações econômicas, não fornece mais igualmente uma informação confiável sobre a situação real da Alemanha.
Todas as dívidas públicas são adicionadas ao produto social, como se se tratasse de investimentos. Na realidade, nossos índices de crescimento estão no vermelho há uma década. Portanto, esse aparente "crescimento" é o do endividamento público e, se subtrairmos desse índice os créditos bancários, então veremos que a verdadeira economia alemã está encolhendo.
Depois da derrocada deste governo na última eleição na Renânia Vestfália, em maio, o Partido Social-Democrata, lançou mão de um debate demagógico sobre a "crítica ao capitalismo". O chefe do Partido, Franz Münterfering, alertou sobre o perigo de uma "total economização" e caracterizou as cúpulas dos conglomerados alemães como "gafanhotos da globalização". Os instrumentos de política econômica ofereceriam ainda um amortecedor contra o desenvolvimento das forças de mercado?
Steingart: Uma política inteligente procura retardar esses processos que, no momento, atuam de maneira particularmente destrutiva no centro das maioria das economias ocidentais. Deduzindo a estratégia eleitoral do debate, temos de partir da análise do processo econômico real. Não podemos, por exemplo, ter um interesse objetivo em ver a base de nosso parque industrial ser erodida a cada dia, pois, sem indústria, não existem, a longo prazo, serviços.
A política deveria, portanto, desonerar o fator trabalho e reconfigurar o sistema tributário, de maneira que também as importações sejam oneradas. O imposto de circulação de mercadorias é um instrumento à disposição para operar esse refinanciamento. Todos devem contribuir, também os produtos dos chineses, de Taiwan e da Polônia se encarecem.
Uma segunda parte de uma estratégia política deveria ser a duplicação dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Se o trabalho simplesmente industrial é expatriado, pois seus custos adicionais reduzem a margem de manobra de competividade, então o trabalho altamente qualificado deve ser expandido. Com esta dupla estratégia, teríamos mais fôlego para respirar na base da pirâmide de ocupação e ganharíamos simultaneamente mais oxigênio em seu topo. Dessa maneira, seria possível reverter o processo a médio prazo.
Em seu argumento, o sr. destaca o erro estrutural da reforma previdenciária do chanceler Konrad Adenauer, em 1957, durante os anos de ouro do milagre econômico, uma bomba temporal, que não levou em conta o futuro colapso demográfico do país. Por que o sistema previdenciário alemão estaria condenado ao fracasso?
Steingart: Adenauer estabeleceu o que foi denominado "o contrato das gerações" como fundamento do sistema previdenciário, um contrato que era válido apenas entre a geração de seu presente e a de seus pais. Ter filhos permanecia, contudo, uma questão privada, ou dito de outra maneira: a questão mais importante para a sobrevivência do sistema previdenciário, para os futuros trabalhadores e contribuintes, não foi considerada, apesar das fortes críticas dentro de sua fração.A taxa de natalidade declinante das duas décadas seguintes determinou um envelhecimento gradual da sociedade. Desde o ano de meu nascimento, 1962, até hoje, a taxa de nascimento por ano reduziu-se à metade. Podemos dizer, hoje, que este sistema foi o erro capital do assim chamado "modelo alemão". A isso acrescente-se que um dos seus fundamentos era a situação de exceção do milagre econômico, ou seja, um período sem guerra, recessão ou inflação, no qual se construiu todo o Estado Social. Ele estava vinculado ao trabalho assalariado industrial, isto é, às forças motrizes do núcleo econômico desse modelo, que hoje, reduzido a um terço da população ativa, carrega nas costas a tarefa de financiar a securidade de 82,5 milhões de alemães.
Hans Magnus Enzensberger, em seu ensaio "Mediocridade e Loucura", em 1988, apontava, ironicamente, os desempenhos desta sociedade como medianos. Lendo retrospectivamente o texto à sombra do golpe de misericórida no sistema previdenciário, uma passagem ganha novo sentido: "Milhões de perdedores ficam às margens das exigências deste paraíso. A rigidez com que são excluídos é o reverso da medalha da tolerância. As vítimas já não são mais o que eram antes". Tratava-se, para ele, de uma "normalidade subnormal", a saber, uma aporia do modelo do Estado de Bem-Estar, quando o fim do crescimento perde a capacidade de integrar a clientela social. Existe alguma uma alternativa a essa situação?
Steingart: Em função do colapso desse sistema previdenciário, depois de décadas, de um desemprego estrutural maciço, existe, de fato, na Alemanha uma forma de exclusão social muito "rígida", através da qual a perda de função leva as pessoas a viver, contra sua vontade, sem trabalho, sem dinheiro, uma existência esvaziada de significados. Mas todos aqueles que deslizam, compulsoriamente, para a clientela social desejam e têm o direito, pelo menos segundo o princípio de isonomia no qual o sistema se baseia, de retornar a uma existência normal.
Essa questão é social e politicamente dramática e uma catástrofe econômica. Aqueles que são excluídos da esfera produtiva passam do ativo para o passivo do balanço e sua dependência e distância do núcleo produtivo da economia, que encolhe, vai se tornando cada vez maior. A sociedade decretou para elas uma perda de função. Temos de deter este processo se pretendermos melhorar ainda nossa sociedade.
A "normalidade subnormal" consiste no fato de que a inércia do conformismo levou muitos a aceitar esta divisão da sociedade em duas partes como uma lei da natureza no processo de globalização, e não como expressão do fracasso do Estado, pois, em última instância, a naturalização do desemprego faz dos “ejetados” no abismo social um índice estatístico a ser administrado. Mas, se pensarmos a questão politicamente, já que não podemos corrigir as leis da natureza, aí então temos uma chance de melhorar a vida dessas pessoas.
Como o sr. avalia a tese de Ulrich Beck sobre a "brasilianização do Ocidente"?
Steingart: Beck se refere à precarização das relações de trabalho, ao trabalho autônomo, às empresas de um único funcionário, a trabalhos de empreitada. Isso só vem aumentando e não para alegria dos atingidos. Não desejo desacreditar esta tese. A época do trabalho de uma vida para todos acabou e, quanto mais nos acomodarmos a esta nova realidade, mais suportável ela será. O velho mundo do trabalho desaparece de nossa vida como a máquina a vapor e o telégrafo. Não há mais retorno ao regime de plena ocupação.
A reunificação da Alemanha criou um sistema único de transferências, através do qual a reconstrução da parte leste significou uma desmontagem acelerada da parte ocidental. Em 15 anos de unidade, fluíram mais de 1.250 trilhões de euros para os novos Estados e ambas as partes se reencontram, agora, em seu declínio. Essa convergência não aponta mais para uma ruptura global do sistema de produção, como argumenta Robert Kurz em seu "Colapso da Modernização"?
Steingart: Não iria tão longe. A Alemanha ainda é um país rico, mas em declínio evidente. A transferência de nosso já onerado sistema social para o Leste acelerou esse processo. Mas isso não é motivo de desespero, e sim uma razão para agir. Uma classe política mais responsável poderia reverter esse proceso de maneira enérgica e rápida.
José Galisi Filho
É doutor em germanística pela Universidade de Hannover (Alemanha).
EUROPA
O colapso alemão
Por José Galisi Filho
Em "A decadência de uma superstar", Gabor Steingart analisa a crise de uma das maiores economias do planeta
Vista de fora, a economia social alemã, como não se cansa de repetir o chanceler Gerhard Schröder, parece ainda despertar inveja por oferecer "ruas limpas e seguras". Contudo, essa percepção é sintomática da fragilidade do olhar político em reconhecer apenas acomodações de superfície do processo econômico.
Com um índice recorde de mais de 5 milhões de desempregados, o maior do pós-Segunda Guerra, um endividamento público de 1,4 trilhões de euros, um crescimento anual em média de 1,4% desde 1995, um recorde de falências desde 2002, um aumento incontrolável do mercado informal de trabalho em função dos custos adicionais da ocupação regular (em média 40%), já quase em torno de 17% do PIB, mas sobretudo uma retração alarmante do investimento público deste PIB em pesquisa e inovação tecnológica (em torno de 2,5%), transformando um país exportador de patentes num importador de tecnologia em muitos setores _com tudo isso, a Alemanha já está na zona do rebaixamento econômico dos países mais desenvolvidos. E ainda viu, nos últimos cinco anos, sua população que vive abaixo do limite da pobreza crescer de 12,1% a 13,5%.
No centro da União Européia, a estagnação da economia alemã torna-se um fator de instabilidade crescente para o continente, colocando em xeque a alternativa social-democrata do governo atual aos desafios da globalização. Sela também o colapso da coalização governamental feita em maio nas eleições da Renânia-Vestfália, base eleitoral na qual o SPD (Partido Social-Democrata, de Schröder) governou por 40 anos e também do ex-parque industrial do país no Ruhr, o que obrigou o chanceler a antecipar as eleições parlamentares federais para 18 de setembro, um ano antes do fim de seu mandato.
"O que vemos na camada de superfície é apenas a cristalização de um bem-estar aparente, produto de 50 anos de um modelo que não existe mais, mas no interior de nossa economia processa-se um desastre irreversível", diz o jornalista Gabor Steingart, chefe do escritório da revista "Spiegel" em Berlim. Gabor acredita que a Alemanha padeça de uma auto-hipnose coletiva e necessita urgentemente da perspectiva de um “geólogo economista” para despertar de sua letargia.
Em seu livro "A decadência de uma superstar" (Abstieg eines Superstars, Piper Verlag, 8,90 euros), ele convida o leitor a uma viagem ao centro incandescente desse modelo, estabelecendo uma cronologia de sua ascensão e de seu declínio, dos anos de ouro do milagre, entre 1950 e 1970, quando a economia alemã cresceu 107%, quadruplicando salários, até o despertar para o pesadelo da globalização. As clássicas aporias performativas do Estado de Bem-Estar são traduzidas em seu argumento com grande plasticidade e uma farta estatística.
O motor do crescimento é o núcleo de inovação capaz de gerar empregos produtivos que garantam a competitividade internacional. Contudo, muito além desse centro de energia, formam-se camadas e mais camadas de clientela social (pessoas que precisam da ajuda do Estado para viver), em função da própria intensificação tecnológica, que expande o desemprego estrutural. É justamente a relação entre este núcleo e suas camadas que se alterou de maneira definitiva, acentuando as distâncias entre um e outro desde os anos 70, quando a Alemanha perdeu o passo do processo com os dois choques do petróleo e a internacionalização dos mercados financeiros.
A matemática é simples: 5 milhões de desempregados, 20 milhões de pensionistas, 3 milhões vivendo de ajuda social, um terço da população ativa respondendo por 70% da geração da riqueza. Mas a metáfora da "superstar" contém uma ironia, não tão evidente ao leitor estrangeiro, pois alude, sobretudo, a uma deterioração qualitativa da indústria do entretenimento televisivo nos últimos anos, e mesmo da mediatização populista da política, desde a mudança da capital para Berlim, espelhando a nova miséria social cada vez mais difícil de ser ocultada.
O livro de Steingart tornou-se um best-seller e um objeto de controvérsia política, sobretudo depois do golpe de misericórdia no sistema previdenciário alemão, a espinha dorsal desse "modelo" desde a década de 50, o pacote conhecido como "Hartz IV", um dos núcleos da assim chamada "Agenda 2010". Ironicamente, Peter Hartz, um dos antigos membros da alta cúpula da Volkswagen, diretor de Recursos Humanos do conglomerado e consultor próximo de Schröder, teve de renunciar, depois de um escândalo envolvendo até mesmo prostitutas brasileiras.
Na prática, a equiparação do seguro de desemprego de longa data à ajuda social mínima, empurrou, do dia para a noite, milhões de desempregados abaixo da linha da miséria, acelerando ainda mais o declínio.
A democracia social alemã, que até então parecia uma alternativa ao modelo anglo-saxão, adotou, para descobrir se o beneficiário da ajuda social não dispõe ainda de recursos próprios para se manter, métodos que lembram a Gestapo: violação da proteção de dados pessoais, prerrogativa de interrogatórios íntimos, a obrigação de aceitar qualquer trabalho, independente das condições, violando direitos adquiridos, acordos coletivos ou "tarifários", o que, na prática, retirou dos Departamentos de Trabalho qualquer competência efetiva de recolocação a médio ou longo prazo, desencadeando protestos em massa, sobretudo no Leste, onde o desemprego atinge em muitos dos novos Estados até 30% da população ativa. "A Alemanha ainda é um país rico, mas em declínio evidente", afirma Steingart na entrevista a seguir.
O modelo "Alemanha S.A." foi desenvolvido no passado para uma economia nacional, industrializada, com plena ocupação e altas taxas de desenvolvimento econômico. Essa sociedade não existe mais, e a sobretaxação, hoje, em razão da concorrência internacional, é uma desvantagem. Economias nacionais deixaram de existir. Entretanto, o governo alemão procura ainda salvar esse "modelo" e não reformá-lo. O sr. oferece várias indicações de que a Alemanha já se encontra do lado perdedor da globalização e parece não mais reagir às suas demandas. Como o fator trabalho poderia ser finalmente desonerado de seus "custos secundários"?
Gabor Steingart: A força de trabalho tornou-se, no curso do processo de globalização acelerada, uma mercadoria totalmente normal. Sua qualidade e preço são comparados pelos investidores internacionais como o carvão, aço e fosfato. A Alemanha, que desde o fim da Segunda Guerra financiou o seu Estado de Bem-Estar Social com, em média, 40% sobre o valor nominal do trabalho, tem, dessa forma, um problema gigantesco diante de si. As contribuições sociais operam como um imposto punitivo sobre o trabalho e, em conseqüência disso, o trabalho simplesmente industrial está abandonando o país.
Os investidores empregam a mão-de-obra barata industrial na China, Índia e Europa Oriental, o que conduziu a um índice recorde de desemprego, o maior do pós-guerra. Em muitas regiões do Leste e na parte ocidental um terço da população ativa já está desempregado. Estamos vivendo no interior da economia um verdadeiro efeito "meltdown" de seu centro produtivo. Há anos, perdemos por dia aproximadamente 1.500 empregos de período integral, apesar da política reformista do governo.
Para mudar essa situação dramática, seria preciso, em primeiro lugar, desonerar o trabalho de seus impostos punitivos. O Estado Social deve deixar o trabalhador em paz, para que ele possa continuar a viver empregado e não engrossar a fila do Departamento de Trabalho.
Assim como em muitos outros Estados _por exemplo, nos países escandinavos_, a parte social deve ser financiada, no futuro, através de impostos regulares. Isso teria uma outra vantagem: todos participariam de maneira equilibrada no financiamento do Estado Social, proprietários de imóveis, acionistas, herdeiros e o teto dos pensionistas. Pode parecer impopular, mas é mais razoável do que a inércia deste "ir tocando adiante" dos últimos governos, que significa a eliminação dos postos de trabalho de milhões.
Com a externalização e a erosão daquilo que o sr. denomina "o núcleo real da produtividade econômica", a Alemanha acabou se tornando campeã mundial na exportação de postos de trabalho. Por que o produto bruto interno do país, que deveria ser um índice confiável de seu desempenho econômico, não reproduz mais esse processo que o sr. descreve?
Steingart: A Alemanha é vice-campeã mundial de exportações, depois dos Estados Unidos. Nosso êxito nos mercados estrangeiros nos mostra que o país ainda é uma das forças vitais: firmas inovadoras, competitivas e com sólida estrutura administrativa. Mas o preço pelo vice-título é o encarecimento crescente do trabalho humano. A participação das importações em nossas exportações quase que duplicou nos últimos anos, o que não significa outra coisa que a substituição do trabalho interno pelo estrangeiro.
O êxito nas exportações deve-se também à conjuntura do dólar fraco em relação ao euro. Para a força de trabalho, contudo, esse balanço é menos favorável. O nosso produto social bruto, que deveria espelhar a soma de todas as ações econômicas, não fornece mais igualmente uma informação confiável sobre a situação real da Alemanha.
Todas as dívidas públicas são adicionadas ao produto social, como se se tratasse de investimentos. Na realidade, nossos índices de crescimento estão no vermelho há uma década. Portanto, esse aparente "crescimento" é o do endividamento público e, se subtrairmos desse índice os créditos bancários, então veremos que a verdadeira economia alemã está encolhendo.
Depois da derrocada deste governo na última eleição na Renânia Vestfália, em maio, o Partido Social-Democrata, lançou mão de um debate demagógico sobre a "crítica ao capitalismo". O chefe do Partido, Franz Münterfering, alertou sobre o perigo de uma "total economização" e caracterizou as cúpulas dos conglomerados alemães como "gafanhotos da globalização". Os instrumentos de política econômica ofereceriam ainda um amortecedor contra o desenvolvimento das forças de mercado?
Steingart: Uma política inteligente procura retardar esses processos que, no momento, atuam de maneira particularmente destrutiva no centro das maioria das economias ocidentais. Deduzindo a estratégia eleitoral do debate, temos de partir da análise do processo econômico real. Não podemos, por exemplo, ter um interesse objetivo em ver a base de nosso parque industrial ser erodida a cada dia, pois, sem indústria, não existem, a longo prazo, serviços.
A política deveria, portanto, desonerar o fator trabalho e reconfigurar o sistema tributário, de maneira que também as importações sejam oneradas. O imposto de circulação de mercadorias é um instrumento à disposição para operar esse refinanciamento. Todos devem contribuir, também os produtos dos chineses, de Taiwan e da Polônia se encarecem.
Uma segunda parte de uma estratégia política deveria ser a duplicação dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Se o trabalho simplesmente industrial é expatriado, pois seus custos adicionais reduzem a margem de manobra de competividade, então o trabalho altamente qualificado deve ser expandido. Com esta dupla estratégia, teríamos mais fôlego para respirar na base da pirâmide de ocupação e ganharíamos simultaneamente mais oxigênio em seu topo. Dessa maneira, seria possível reverter o processo a médio prazo.
Em seu argumento, o sr. destaca o erro estrutural da reforma previdenciária do chanceler Konrad Adenauer, em 1957, durante os anos de ouro do milagre econômico, uma bomba temporal, que não levou em conta o futuro colapso demográfico do país. Por que o sistema previdenciário alemão estaria condenado ao fracasso?
Steingart: Adenauer estabeleceu o que foi denominado "o contrato das gerações" como fundamento do sistema previdenciário, um contrato que era válido apenas entre a geração de seu presente e a de seus pais. Ter filhos permanecia, contudo, uma questão privada, ou dito de outra maneira: a questão mais importante para a sobrevivência do sistema previdenciário, para os futuros trabalhadores e contribuintes, não foi considerada, apesar das fortes críticas dentro de sua fração.A taxa de natalidade declinante das duas décadas seguintes determinou um envelhecimento gradual da sociedade. Desde o ano de meu nascimento, 1962, até hoje, a taxa de nascimento por ano reduziu-se à metade. Podemos dizer, hoje, que este sistema foi o erro capital do assim chamado "modelo alemão". A isso acrescente-se que um dos seus fundamentos era a situação de exceção do milagre econômico, ou seja, um período sem guerra, recessão ou inflação, no qual se construiu todo o Estado Social. Ele estava vinculado ao trabalho assalariado industrial, isto é, às forças motrizes do núcleo econômico desse modelo, que hoje, reduzido a um terço da população ativa, carrega nas costas a tarefa de financiar a securidade de 82,5 milhões de alemães.
Hans Magnus Enzensberger, em seu ensaio "Mediocridade e Loucura", em 1988, apontava, ironicamente, os desempenhos desta sociedade como medianos. Lendo retrospectivamente o texto à sombra do golpe de misericórida no sistema previdenciário, uma passagem ganha novo sentido: "Milhões de perdedores ficam às margens das exigências deste paraíso. A rigidez com que são excluídos é o reverso da medalha da tolerância. As vítimas já não são mais o que eram antes". Tratava-se, para ele, de uma "normalidade subnormal", a saber, uma aporia do modelo do Estado de Bem-Estar, quando o fim do crescimento perde a capacidade de integrar a clientela social. Existe alguma uma alternativa a essa situação?
Steingart: Em função do colapso desse sistema previdenciário, depois de décadas, de um desemprego estrutural maciço, existe, de fato, na Alemanha uma forma de exclusão social muito "rígida", através da qual a perda de função leva as pessoas a viver, contra sua vontade, sem trabalho, sem dinheiro, uma existência esvaziada de significados. Mas todos aqueles que deslizam, compulsoriamente, para a clientela social desejam e têm o direito, pelo menos segundo o princípio de isonomia no qual o sistema se baseia, de retornar a uma existência normal.
Essa questão é social e politicamente dramática e uma catástrofe econômica. Aqueles que são excluídos da esfera produtiva passam do ativo para o passivo do balanço e sua dependência e distância do núcleo produtivo da economia, que encolhe, vai se tornando cada vez maior. A sociedade decretou para elas uma perda de função. Temos de deter este processo se pretendermos melhorar ainda nossa sociedade.
A "normalidade subnormal" consiste no fato de que a inércia do conformismo levou muitos a aceitar esta divisão da sociedade em duas partes como uma lei da natureza no processo de globalização, e não como expressão do fracasso do Estado, pois, em última instância, a naturalização do desemprego faz dos “ejetados” no abismo social um índice estatístico a ser administrado. Mas, se pensarmos a questão politicamente, já que não podemos corrigir as leis da natureza, aí então temos uma chance de melhorar a vida dessas pessoas.
Como o sr. avalia a tese de Ulrich Beck sobre a "brasilianização do Ocidente"?
Steingart: Beck se refere à precarização das relações de trabalho, ao trabalho autônomo, às empresas de um único funcionário, a trabalhos de empreitada. Isso só vem aumentando e não para alegria dos atingidos. Não desejo desacreditar esta tese. A época do trabalho de uma vida para todos acabou e, quanto mais nos acomodarmos a esta nova realidade, mais suportável ela será. O velho mundo do trabalho desaparece de nossa vida como a máquina a vapor e o telégrafo. Não há mais retorno ao regime de plena ocupação.
A reunificação da Alemanha criou um sistema único de transferências, através do qual a reconstrução da parte leste significou uma desmontagem acelerada da parte ocidental. Em 15 anos de unidade, fluíram mais de 1.250 trilhões de euros para os novos Estados e ambas as partes se reencontram, agora, em seu declínio. Essa convergência não aponta mais para uma ruptura global do sistema de produção, como argumenta Robert Kurz em seu "Colapso da Modernização"?
Steingart: Não iria tão longe. A Alemanha ainda é um país rico, mas em declínio evidente. A transferência de nosso já onerado sistema social para o Leste acelerou esse processo. Mas isso não é motivo de desespero, e sim uma razão para agir. Uma classe política mais responsável poderia reverter esse proceso de maneira enérgica e rápida.
José Galisi Filho
É doutor em germanística pela Universidade de Hannover (Alemanha).
A substância supérflua (Trópico)
em obras
trópico/documenta
A substância supérflua
Por José Galisi Filho
“Ao desvalorizar a força viva de trabalho, a terceira revolução industrial destrói o próprio valor e coloca todo o sistema de produção de mercadorias em xeque”, diz, em entrevista, o ensaísta Robert Kurz
Uma das características mais notáveis do ensaísmo de Robert Kurz, 63, partilhada por seus leitores marxistas ou não, é a capacidade de dramatizar, com ironia, no movimento do texto, o tecido complexo da trama contemporânea, agregando, à observação do detalhe, a fantasia de imaginar um mundo diferente com categorias experimentais.
Essa qualidade é, por assim dizer, literária, uma antiprosa, cujo saldo decorre daquilo que o dramaturgo Heiner Mueller chamou certa vez de a “pressão da experiência autêntica” no movimento do material. Nesse sentido, a reflexão de Kurz sobre a constelação pós-Guerra Fria precisa ser pensada, em seus devidos termos, dentro da particuliaridade da experiência alemã nos últimos 16 anos desde a Reunificação, nos quais seu país, relativamente civilizado e pacificado pela social-democracia depois da barbárie, transformou-se novamente num laboratório social e num pesadelo darwinista.
Ninguém menos que o poeta e editor Hans Magnus Enzensberger reconheceu prematuramente nessa imaginação sobre a fatalidade histórica da Reunificação e seu curso de desastre o convite para entrar em um território desconhecido. No outono de 1991, “O Colapso da Modernização”, de Kurz, era lançado na Andere Bibliotheke, editada por Enzensberger, dois anos antes da publicação de “Visões sobre a Guerra Civil”, livro deste poeta e ensaísta.
A sombra do argumento de Kurz projeta-se literariamente no argumento de Enzensberger sobre o excesso e o autismo de uma violência libertada das antigas amarras ideológicas nos Balcãs como metástase de uma crise que se irradia da periferia para o centro do sistema. Uma das características mais marcantes do ensaio é a homologia subjacente entre o “êxtase” dessa “subjetividade balcanizada” e o pathos niilista da crítica cultural pós-moderna.
Ao despedir-se das armadilhas morais do universalismo esclarecido, impotente pelo bombardeio de informações, Enzensberger convidava o leitor a uma ética da responsabilidade civil, além da política partidária. Se, para Kurz, o colapso do socialismo de caserna significava menos uma vitória do capitalismo sobre a antiga ditadura do SED (sigla em alemão do Partido Socialista Unificado da Alemanha, que se converteu depois no Partido Social-Democrata da Alemanha - SPD), do que o signo de uma crise da própria concepção de “trabalho abstrato” arraigada na ética protestante tanto no Leste como no Ocidente, Enzensberger sinalizava nesse processo o termo histórico da modernização.
A questão da pós-modernidade era objeto da antologia de Kurz de 1999, “O Mundo como Vontade e Design, Estilos de Vida de Esquerda e Estetização da Crise”, uma cartografia do novo yuppismo intelectual nas figuras dos críticos Nobert Bolz e Diedrich Diederichsen e do desinteresse “individualizado” de uma geração, os ex-plebeus 68 que “chegaram lá”, a política como pose de charutos e ternos Armani, no auge da bolha financeira da “new economy”. Amor virtual, internet, Love Parade, analfabetismo funcional, legiões de mães solteiras empobrecidas, colapso da masculinidade, Kurz traçava um inventário da miséria individualizada da geração “single”.
Em 2000, “O Livro Negro do Capitalismo” dava forma enciclopédica ao programa categorial da antiga revista “Krisis”. Pela primeira vez, uma obra de Kurz ganhava ressonância nacional, chegando a ser considerada pelo “Die Zeit” como o mais importante lançamento nos últimos dez anos.
Ao contrário do sociólogo Ulrich Beck, que se tornou conselheiro da ala modernizadora do SPD durante os anos da coalizão vermelho-verde, Kurz sempre manteve uma distância crítica da política partidária. Mas sua reflexão, em sentido concreto, é antes de tudo um ajuste com a “chispa desembestada” (na expressão de Roberto Schwarz) da esquerda tradicional alemã que, entre outras aberrações, se transformou em terrorismo anti-semita no início dos anos 70 e se aglutina hoje em torno da “LinkBuendnis” capitaneada por Oskar Lafontaine, na forma de uma crítica vulgar do capitalismo financeiro, emparedada pela dessolidarização do rápido desmonte da máquina social.
Na entrevista a seguir, Kurz fala sobre a atual situação da Alemanha e do capitalismo e responde à pergunta da Documenta: “A modernidade é nossa Antigüidade?”.
Quando se fala no fim da modernização, à qual paradigma estamos ainda nos referindo?
Robert Kurz: O conceito de moderno é bastante mutável e apreendido de maneiras inteiramente distintas, dependendo do contexto no qual se argumenta. Entre os históriadores, por exemplo, existe o conceito de “pré-moderno”, datado entre os séculos 16 e 17, e o moderno compreenderia todo o processo histórico a partir dessa época. Já na filosofia, o início do moderno é frequentemente assimilado ao Esclarecimento (ou Iluminismo) do século 18, ao qual todas as teorias e ideologias posteriores até hoje se referem direta ou indiretamente. Para a maioria dos economistas e sociólogos, por sua vez, o moderno começaria com a industrialização no início do século 19, da qual se origina uma história das diversas revoluções industriais, que culminaria hoje na terceira revolução industrial da microletrônica.
No campo da arte e da cultura, o conceito de moderno se estabelece de maneira marcante na reflexão apenas no século 20, antes da Primeira Guerra Mundial, não se estendendo como “clássico moderno” além das décadas de 50 e 60, quando parece se esgotar e desembocar no assim chamado pós-moderno.
Do campo da arte e do aparelho cultural, o tema do fim do moderno e do início de um pós-moderno estendeu-se, neste entretempo, para a filosofia, as teorias da história, a sociologia e até para a economia. A “nova economia” do capitalismo-cassino-internet foi descrita como um paradigma socioeconômico pós-moderno, como uma nova era de acumulação de capital e prosperidade, cuja bolha, de maneira patética, já estourou há alguns anos.
A desorientação parece tão completa, que Juergen Habermas já proclamava, no início dos anos 80, uma “nova intransparência”. O problema consiste no fato de que, no desenvolvimento do moderno, a perspectiva da totalidade social e da história se torna cada vez mais fugidia. As ciências sociais se “diferenciaram”, as teorias referem-se cada vez mais apenas a “partes do sistema”. O conjunto se perdeu, e desse refluxo e vazio o pós-moderno fez precisamente soar sua hora no culto desta desconexão.
Na pós-história, a história mesma foi atomizada; na sociologia, os “processos de individualização” (Ulrich Beck) reabilitados; e na economia os pontos de vista “microeconômicos” realçados e o conjunto capitalista dissolvido na particularidade dos “sujeitos econômicos”.
A mesma atomização processou-se na arte, na indústria cultural e nos estilos de vida alternativos. Cada um por si e Deus contra todos. Essa tendência à atomização não é apenas pura ideologia, mas apresenta também pressupostos sociais bem objetivos, que, não obstante, não foram até agora refletidos. A sociedade parece se dissolver numa ausência de conexão real, e esse processo é pensado de maneira igualmente sem conexão com a base social real, isto é, ele é reduplicado idealmente. Nesse sentido, o pós-moderno é, por assim dizer, a realização de sua própria profecia.
Mas uma outra perspectiva se oferece quando consideramos o conjunto da sociedade e da história. O moderno constituiu um contínuo e uma conexão categorial, uma certa formação histórica da sociedade, diferenciada de suas formas agrário-religiosas tradicionais. Essencial nesse processo é a constituição do capitalismo, por um lado, isto é, do moderno sistema de produção de mercadorias, e, por outro, das relações modernas entre os gêneros, no qual o patriarcado, bem como a reprodução social, foram “objetivados”.
O “trabalho abstrato”, a forma da mercadoria, a mediação do mercado mundial e a concorrência universal tornam-se determinações centrais. Essas formas aparentemente neutras são também “estruturalmente masculinas”, isto é, espelham a supremacia masculina na política e na economia, em certo sentido, também no aparelho cultural. As mulheres estão representadas neste setor, mas são também, como afirma a socióloga Regina Becker Schmidt, “duplamente socializadas”, pois aqueles momentos não originários da reprodução social (atividades domésticas, educação dos filho, empatia, trabalho amoroso), no “trabalho abstrato”, na política e no aparelho cultural foram apartados pelo capitalismo ascendente da sociabilidade oficial e historicamente delegados às mulheres. O capitalismo, o objetivo do moderno sistema de produção de mercadorias como da “valorização do capital” e de sua esfera política, constitui, dessa forma, igualmente, um sistema de “separação de gêneros” (Roswitha Scholz).
Mas o assim entendido “moderno” não constitui nenhum contínuo estático, porém dinâmico. Por essa razão, o conceito de “moderno” vai a par com o de modernização. A modernização foi inicialmente um processo de colonização externa e interna, ou seja, um processo de consolidação das modernas categorias sociais através do colonialismo europeu, externamente, e de subversão das velhas relações agrário-religiosas e dos vínculos pessoais, internamente. Esse processo foi desigual e completou-se nas diversas partes do mundo fora da Europa e da América do Norte em ondas intermitentes sucessivas, que se estenderam pelo século 20 adentro. Por esse motivo, fala-se também em “não-simultaneidade histórica”.
Mas, em segundo lugar, o conceito de modernização designa o desenvolvimento das modernas relações a partir de “seus próprios fundamentos” (Marx), a história da Revolução Industrial, as metamorfoses emergentes da esfera política (democratização) e as novas formas de expressão e da separação entre os gêneros.
Seria, portanto, o pós-moderno uma época essencialmente distinta do moderno. Por outro lado, o discurso do pós-moderno pressupõe que a modernização teria atingido seus limites históricos. O capitalismo e sua divisão de gêneros tornaram-se, na globalização, um sistema planetário e, nessa simultaneidade, esse desenvolvimento interno pareceria ter se esgotado. Há, de fato, novas formas de individualização, a internet, a economia transnacional, mas as modernas categorias sociais tornaram-se vazias e ocas. As mudanças econômicas, sociais e técnicas não correspondem mais aos novos conteúdos e perspectivas. Isso se mostra particularmente claro na esfera sensível da arte e da cultura. Mas essa dinâmica é apenas exterior. Com Paul Virilio, poderíamos falar de uma “rasante inércia”.
Tudo isso vem a par com um “crise econômica radicalizada”, que se estende da periferia até os centros capitalistas, na imagem do desemprego e da miséria em massa, nas infra-estruturas desarticuladas, no declínio da classe média, com as pessoas cada vez mais lançadas na precariedade social, entre elas muitas existências intelectuais e artísticas. Também a crescente migração global é parte da síndrome. No conjunto, estamos diante de uma crise global de nova qualidade. O pós-moderno não é uma época além do moderno, mas sim uma época da crise fundamental do moderno, uma época de transformação crítica rumo ao desconhecido, já que não se pode ser “mais moderno”, isto é, a modernização não encontra mais espaço para avançar.
A teoria e a ciência majoritariamente não compreenderam essa nova situação e procuram ainda navegar ao sabor do vento, pois não querem reconhecer o pós-moderno como crise do moderno em suas fronteiras históricas. Em parte, o pós-moderno é apresentado como uma suposta e completa nova época de virtualidade auto-confiante e de contigências “abertas”, enquanto que a realidade social se esfacela na dureza dos pressupostos reais do capitalismo, que já não podem mais nem sequer serem preenchidos.
É dessa maneira que Ulrich Beck e Anthony Giddens falam de uma “modernização reflexiva” e de uma “nova descoberta do político”. O moderno deve tornar-se “auto-reflexivo” em relação aos seus próprios potenciais engendrados e ameaças crescentes, sobretudo em relação ao equilíbrio ecológico. Mas aqui não há nenhum modo de trabalho compatível com o moderno. A destruição capitalista dos recursos vitais prossegue irrefreada e politicamente não há nada de novo a ser descoberto, pois a política, como instrumento corretivo de regulamentação do Estado nacional, não surte mais qualquer efeito na crise globalizada.
E também no cotidiano das relações essa crise fundamental se mostra evidente. Os indivíduos atomizados não se suportam mais entre si, as relações se precarizam no amor, a divisão de gêneros se decompõe e o cotidiano e o trato pessoal são, por assim dizer, “barbarizados”. O pós-moderno como uma nova época, ou como continuação da modernização, é simplesmente um embrulho enganador.E como se definiria nossa época em contraste com esse ciclo que se encerra e o atual estágio da acumulação capitalista?
Kurz: Se podemos descrever nosso tempo como crise do moderno, marcado por uma perda de substância, então esse problema tem um fundamento social elementar na economia do moderno sistema de produção de mercadorias. Segundo Marx, o trabalho abstrato constitui a transferência da energia humana com a finalidade de valorizar a substância do capital. Na terceira revolução industrial da microeletrônica, essa substância mesma torna-se cada vez mais supérflua.
Pela primeira vez na história do capitalismo, a racionalização da produção supera a expansão dos mercados. Na medida em que a força de trabalho humana, em pulsos sucessivos, é retirada do processo produtivo, o capital real fica para trás. Ele deixa de ser a instância de entrelaçamento do conjunto econômico e do social. A transferência da capacidade de produção para países de baixos salários, como a China ou a Índia, não é um jogo de soma zero, mas está ligado à exportação de alta tecnologia. Ela se limita nestes países apenas a uma minoria de “zonas preferenciais de exportação”.
Na globalização, não existe mais nenhum “desenvolvimento” econômico nacional, no qual a população, como um todo, possa ser integrada. Também nesse sentido a modernização acabou. O capitalismo tornou-se um capitalismo de minorias. Ele estabeleceu a conexão planetária da humanidade, mas apenas em sentido negativo, como processo de crise, que em toda parte dissolve as conexões elementares do social. A sociedade capitalista mundial constituída não pode mais integrar a maioria das pessoas.
Mas esse não é apenas um problema de miséria e desemprego em massa. A crescente fragmentação social libera, na mesma medida, nos níveis macro e micro, processos de desintegração “pós-políticos”. Em todas as partes no mundo desenvolvem-se, como continuação da concorrência por outros meios, novas relações de força. Podemos falar, por um lado, de um processo sorrateiro de desestatização. No lugar das guerras tradicionais aparecem, nessa anomia, guerras civis de um novo tipo, ligadas a uma violência particular contra mulheres e crianças. As zonas de insegurança crescem a cada dia.
Mas o capitalismo planetário sufoca não apenas em função de sua própria incerteza auto-produzida. Na mesma proporção em que a força de trabalho é desvalorizada, processa-se simultaneamente uma “dessubstancialização” do capital. O valor e sua forma de aparição como dinheiro resultam, em última instância, de uma energia humana transferida, e apenas por essa razão é que os produtos assumem sua forma de mercadoria, isto é, numa abstrata “coisicidade de valor” em oposição a sua qualidade sensível. Ao desvalorizar a força viva de trabalho, a terceira revolução industrial destrói o próprio valor e coloca todo o sistema de produção de mercadorias em xeque. A crise do “trabalho abstrato” torna-se a crise do capital ele mesmo, pois a “valorização do valor” atinge suas fronteiras históricas.
Como entender a produção cultural neste contexto? O sr. acredita que, no plano da arte, a modernidade é nossa Antigüidade?
Kurz: Acredito que, referidos à relação econômica como centro da sociedade oficial, mostra-se uma clara distinção entre moderno e pós-moderno. O moderno foi o contínuo da ascensão histórica e da consolidação do trabalho abstrato. A substância do capital tornou-se, no processo de acumulação, cada vez mais rarefeita. Ela compreende cada vez mais esferas da vida e se estende à produção cultural, que se organiza dentro da lógica capitalista da indústria cultural.
Literatura e arte refletem imanentemente esse movimento substancial, cujo nome é modernização, até os poros mais remotos e nichos do cotidiano, como mudanças das relações psíquicas, dos caracteres sociais, da sexualidade e da percepção do mundo. Nesse ponto, tanto a crítica tradicional de esquerda como aquela do antigo campo do socialismo real, bem como a conservadora em todos os seus matizes, não pouparam esforços. Mas essa crítica teve sempre a dinâmica da expansão do trabalho abstrato como seu presuposto silenciado.
Isso se mostra não apenas do ponto de vista cultural, mas também político e econômico. A “democratização” política foi idêntica com a integração das massas no capitalismo. O reconhecimento do trabalhador assalariado como sujeito de direito civil, bem como da cidadania (eleições universais, voto feminino apenas no século 20, direito à greve e à liberdade de reunião) constituem apenas reverso da medalha de sua submissão ao trabalho abstrato. E o socialismo real foi apenas um sistema alternativo, concebido a partir dos mesmos fundamento sociais e ontológicos. Como socialismo real na periferia do mercado global desde a Revolução de Outubro, ele se desenvolveu como um paradigma da modernização recuperadora, na qual o trabalho abstrato não foi superado, senão apenas tardiamente introduzido e aplicado.
Em contrapartida, o pós-moderno representa o processo de dissolução e declínio do trabalho abstrato. O fim do socialismo real pertence a esse contexto e marca o fim da modernização recuperadora. O sistema mundial unificado não pode mais atribuir uma unidade substancial, senão em pequenas zonas insulares de rentabilidade decrescente. Enquanto que a coerência nacional clássica do moderno se esfacela, a dessubstancialização do capital se irradia, agora, em direção inversa, a todos os domínios da existência como um sentimento de esvaziamento geral e crise.
A crise da substância econômica e, em consequência, a crise da política tornam-se a crise da moderna identidade masculina, que tinha seu ancoramento nessa substância, enquanto que as mulheres, em função de sua dupla socialização e fixação nos momentos apartados da reprodução real, sempre foram semi-integradas. Nessa crise, as conquistas do movimento feminista vão sendo sucessivamente -e até agora sem grande resistência- revogadas. No território desse refluxo, a identidade esvaziada masculina avança “desembestada”, exprimindo-se, em toda parte, numa violência sexista cada vez maior.
Com uma nova vestimenta, retornam os velhos demônios da modernização -racismo, anti-semitismo, etnonacionalismo-, seja nos homens ou nas mulheres. Eles representam apenas uma reação destrutiva à nova ameaça existencial para restabelecer, de maneira imaginária, o nexo social perdido sob delegação do “outro”.
O mesmo esvaziamento se observa na produção cultural. Por isso, a crise da cultura e da arte não decorre apenas de uma crise financeira e da precariazação de seus atores, mas também de seus conteúdos. O novo é apenas um remake de segunda do velho (retrô). Não apenas as séries televisivas são infinitamente repetidas. Modas e conteúdos esvaziados retornam à circulação em intervalos cada vez mais curtos. Culturalmente, a dinâmica do desenvolvimento transformou-se numa espécie de eterno retorno do mesmo.
Já que tudo se tornou indiferente, a arte não pode mais provocar. Nudez e banhos de sangue suíno nos palcos alemães provocam um grande bocejo. Sensacional mesmo, hoje, na Alemanha é quando os atores aparecem em cena vestidos. Não há mais nenhum conteúdo cultural a ser expresso na forma capitalista, justamente porque ela mesma perdeu o seu conteúdo. A fragmentação social e a desintegração como desconexão universal tornam-se uma falta de conteúdo universal ou uma desrrealização de todos os conteúdos críticos do passado, que opunham um sinal negativo a esse desenvolvimento.
O reducionismo tecnológico mostra-se também na comunicação. Quanto mais os indivíduos incrementam e são mobilizados pelo arsenal tecnológico multimídia, cada vez menos têm a dizer entre si.
As ciências sociais não estão excluídas dessas tendências. Ulrich Beck fala também de si mesmo, quando se refere a uma perda de significado e irrealidade da sociologia auto-infligidas. A irrealidade da sociologia é a mesma da arte e da cultura, e ela é justamente “culpada”, na medida mesma em que recalca essa perda de substância ao inventar conceitos vazios. Por esse motivo, a sociologia não pode mais oferecer nenhuma resposta aos problemas urgentes da crise. Ela descreve superficialmente alguns fenômenos, mas se recusa a reconhecer a correlação entre eles.
Para sairmos desta fila de espera do pós-moderno só há uma saída: se a teoria novamente referir-se “ao todo”, partindo da crise do “trabalho abstrato” e das modernas relações entre os gêneros, realizandoo uma crítica radical da ontologia capitalista, que para os críticos obsoletos do passado ainda era pressuposta de modo postivo. Talvez, com essa intenção crítica profunda, seja possível fazer da arte algo novamente provocador.
Pode-se falar ainda em luta de classes? O proletariado pode ser considerado ainda uma força de oposição ao capital?
Kurz: Desde a industrialização, o moderno foi marcado pelo antagonismo de classes entre “trabalho assalariado” e “capital”, entre “proletariado” e “burguesia”. Essa oposição parecia ser ontológica, porque o “trabalho abstrato” era entendedido como uma necessidade natural eterna e, apenas num sentido totalmente externo, como substância do capital. Na ideologia oficial burguesa, a forma capitalista era inseparável da necessidade do “trabalho” mesmo, e na ideologia socialista o “trabalho eterno” deveria supostamente libertar-se da forma capitalista.
Hoje, os pressupostos sociais comuns de ambas ideologias foram corroídos e percebeu-se, por assim dizer, que ambos os lados tinham, apenas em parte, metade da razão. A substância abstrata do trabalho é, de fato, parte inseparável da forma capitalista, mas apenas na medida em que essa forma é sucessivamente esvaziada de sua própria substância. A “ontologia do trabalho” revela-se historicamente limitada e caduca como as mercadorias universais e a forma monetária do capital.
Aqueles “exércitos do trabalho” invocados por Marx, em sua época, como base organizada da luta de classes desapareceram. Apenas aparentemente repete-se hoje a mobilização desses “exércitos” em zonas de exportação preferenciais da China e da Índia, nas quais, simultaneamente, no mercado interno e na produção agrícola, o “trabalho” é, em grande parte, desmobilizado. Do ponto de vista global, o volume absoluto do trabalho regular declina sem parar.
O capital reage a essa crise interna com a constituição de uma economia interligada como bolha financeira. Uma vez que investimentos reais e fábricas, máquinas e força de trabalho são cada vez menos rentáveis e em toda a parte revela-se uma “sobrecapacidade”, que cada vez mais têm de ser desmobilizada (com o fechamento de fábricas, por exemplo). O capital financeiro foge numa virtual (fictícia) acumulação nos mercados financeiros. Os ganhos não decorrem mais da produção ou da venda de mercadorias, mas quase que somente das elevações, sem substância, dos preços nos mercados de ações e imobiliários, da transação com títulos financeiros de conglomerados e suas partes (batalhas de aquisições hostis, por exemplo).
Assim como as ciências sociais em suas reflexões teóricas, o capital também procura, de um ponto de vista econômico prático, navegar ao sabor do vento. Também essas zonas preferenciais minoritárias de exportação na China e na Índia, geridas pelos conglomerados transnacionais, são, em realidade, dependentes da economia de bolha financeira, sobretudo do déficit externo dos Estados Unidos, e não representam nenhuma acumulação real produtiva.
O processo sociológico de individualização descrito por Ulrich Beck esteve, desde o início, ligado a essa virtualização econômica do capital. Nele, o proletariado clássico se dissolvia e a tradicional luta de classes perdia, com o “trabalho”, sua base ontológica. Quando, em 1986, Beck constatava a liberação das pessoas de seus antigos vínculos de classe, ele deixava totalmente de lado o caráter de crise desse mesmo processo econômico. Nesse entretempo, ele mesmo teve de desmentir seu otimismo inicial, mas ainda se recusa a admitir a relação interna entre individualização e caráter de crise da virtualização.
A oposição entre miséria e “riqueza abstrata” (Marx) radicalizou-se dramaticamente na forma monetária, mas ela não resulta mais da exploração da força viva de trabalho. As pessoas são justamente individualizadas e socialmente atomizadas, na medida em que o capital pode acumular cada vez menos. No interior dessa nova miséria de massa, desenvolvem-se campos de disparidade sociais, que não podem mais ser trazidos a um denominador comum de uma “classe” social uniforme.Enquanto que nos países ocidentais ainda existem restos do Estado de Bem-estar Social, um número cada vez mais crescente de pessoas torna-se dependente da transferência de recursos públicos, que caminha a par com o crescente endividamento estatal. Quanto mais restritivas essas transferências são na administração da crise estatal, mais se ampliam as formas de trabalho precarizado, para além do trabalho remunerado industrial.
A maior parte dessas novas relações empregatícias não se referem mais à produção de bens, mas à esfera da circulação, ao puro processo de mercado de compra e venda ou a serviços individuais, às falsas atividades autônomas, ao trabalho compulsório comunitário dos beneficiários do seguro desemprego, aos empregos de 1 euro, aos serviços de assistência precários, à ajuda no trabalho doméstico, às brigadas de varredores de rua, às atividades em calls centers, à venda de serviços telefônicos, aos trabalhos temporários, à assim chamada sub-ocupação (algumas horas por semana no supermercado no caixa enchendo sacolas de compras ou arrumando prateleiras), aos empregos em bares, ao pequeno comércio de rua, ao tipo de “empreendimento da miséria” e até mesmo à simples mendicância.
Essa tendência já atingiu há muito a jovem geração dos acadêmicos da classe média, que, em grande parte, não encontra mais nenhuma ocupação regular e tem de se virar até o limiar dos 40 anos com “estágios” de pequena ou nenhuma remuneração, ou mesmo contratos de trabalho temporários. Na França já se fala de uma “génération precaire” (geração precária).
Nessas condições, os indivíduos não são apenas sociológica e psicologicamente, mas também economicamente atomizados. Eles não encontram mais uma instância comum de unificação das formas de organização de suas ocupações precarizadas. Sob a pressão do empobrecimento e da piora das condições de vida, eclodem novas lutas sociais, como os protestos de massa da juventude acadêmica na França. Mas esses movimentos sociais (e os também chamados movimentos antiglobalização e seus foros sociais) não podem mais ser unificados sob a etiqueta da “luta de classes” ou de uma “classe trabalhadora”, como procura inutilmente a esquerda anacrônica tradicional. Já nos anos 70 os “novos movimentos sociais” tinham se afastado do paradigma da velha “luta de classes”.
Disso resultou naturalmente um enfraquecimento do poder e da capacidade reais desses movimentos de fazerem prevalecer suas reivindicações. Frequentemente, trata-se de um puro “movimento de causa única” para questões específicas. Também os protestos sociais permanecem pontuais e sem sustentalidade organizada. Isso tem a ver com o fato de que a “classe trabalhadora” obsoleta e o fim da “luta de classes” entre os campos sociais díspares não apenas têm dificuldades na questão organizatória, mas também, como nos novos movimentos sociais, de modo semelhante à sociologia e nas práticas culturais, a perspectiva do conjunto social se perdeu.
Não há mais nenhum objetivo comum, o velho entendimento do “socialismo” foi liquidado, como a ontologia do “trabalho”. Precisamente em sua crise histórica, o capitalismo parece como uma pura condição de natureza social intransponível. Para unificar os movimentos sociais de homens e mulheres atomizados como uma nova força histórica seria preciso estabelecer também novos objetivos comuns além do capitalismo, uma crítica generalizada do “trabalho abstrato”, do moderno sistema de produção de mercadorias e de sua divisão entre gêneros.
Atualmente, muito pouco disto pode ser vislumbrado. No lugar disso, mostra-se uma disseminada e ampla nostalgia capitalista. Quanto mais o capital, através de sua própria dinâmica se “dessubstancializa” e mais obsoleto e precário torna-se o “trabalho” residual, maiores as saudades de um tempo passado de relações de trabalho estáveis e do “milagre econômico” de depois da Segunda Guerra.
Essa nostalgia é perigosa, porque o caráter ilusório dessas ilusões retrospectivas torna-se logo consciente como contradição e desemboca em vínculos ideológicos destrutivos. Os novos pobres, e precisamente os mais instruídos entre eles, não são melhores pessoas. É justamente o ressentimento desses que sai à caça dos culpados, em vez de questionar de maneira crítica suas condições de existência socialmente modificadas. O capitalismo da bolha financeira virtualizada, no qual, de preferência, se deseja participar como aventureiro, aparece simultaneamente como ameaça subjetiva, através de seus “gafanhotos” em Private Equity Fonds e outras sociedades de investimento com uma proximidade clara com o anti-semitismo (o clichê dos “judeus financeiros”).
Teorias conspiratórias estão na ordem do dia em best sellers, bem como uma “crítica” abreviada e vulgar do capitalismo na forma de um antiamericanismo tosco. Aquelas fronteiras claras do passado entre ideologias de “direita” e “esquerda” se diluem na crise dos pressupostos socialmente comuns. O futuro dependerá de os movimentos sociais se fazerem prevalecer, além da velha luta de classes e da tendência nostálgica, anti-semita e antiamericana. Ou se, em contrapartida, se realizar uma crítica radical às aparentes leis naturais das formas sociais do moderno.
Na peça sobre o esclarecimento prussiano, de Heiner Mueller, “Gundling”, sobre Lessing, a domesticação do corpo, pela camisa de força, é apresentada pelo professor aos seus alunos, no manicomômio, como um “instrumento da dialética” diante um paciente em estado de masturbação compulsiva. “Cada um torna-se sua própria Prússia”, afirma ironicamente. No entanto, o instrumento somente parece aumentar no paciente a intensidade do impulso masoquista em ir além. A quase que completa colonização do imaginário pela nova virtualidade dispensa a camisa de força real. O que sobrou do espaço da fantasia?
Kurz: É, sem dúvida, uma bela metáfora de Heiner Mueller. É preciso estabelecer uma ligação entre o esvaziamento da subjetivdade e a virtualização do capital, na medida em que os indivíduos se tornam cada vez mais reprimidos, quanto mais se distanciam da realidade nesse mergulho virtual.
O que se passa na bolha financeira transcorre também de maneira concreta no cotidiano das relações. Na psicologia, temos o conceito de instabilidade na personalidade “borderline”. Essa cena refere-se ao processo de tântalo da colonização interna da subjetividade. Na medida em que o capital, em função da intensidade tecnológica, recua da realidade e avança na intimidade, nos sentimentos e pensamentos, na economização dos sonhos, sem devolver a substância viva retirada, a auto-repressão aumenta, e os indivíduos comportam-se, em quase todos os domínios, como pequenos empresários, administrando essa substância esvaziada.
Ocorre então a economização total das relações, das mulheres das crianças e dos amigos. Tudo deve estar de acordo com uma “qualidade gerencial” e ser organizado como uma pequena firma, pois, justamente na medida em que cada vez menos firmas reais existem, tanto mais devemos estender esta estrutura contra nós mesmos. Essa forma sem conteúdo é também muito bárbara em sua crueza e desemboca, na vida prática, facilmente em agressão física, porque a idéia insuportável de uma irrealidade crescente no virtual procura inevitavelmente uma válvula de escape. Esse mundo nos torna capazes e preparados para tudo. Os indivíduos tornam-se cada vez mais imprevisíveis.
Este artigo é publicado por Trópico como contribuição à documenta 12 magazines, um projeto editorial coletivo que reúne em todo mundo mais de 70 publicações impressas e on-line, bem como outras mídias.
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José Galisi Filho
É doutor em germanística pela Universidade de Hannover (Alemanha).
trópico/documenta
A substância supérflua
Por José Galisi Filho
“Ao desvalorizar a força viva de trabalho, a terceira revolução industrial destrói o próprio valor e coloca todo o sistema de produção de mercadorias em xeque”, diz, em entrevista, o ensaísta Robert Kurz
Uma das características mais notáveis do ensaísmo de Robert Kurz, 63, partilhada por seus leitores marxistas ou não, é a capacidade de dramatizar, com ironia, no movimento do texto, o tecido complexo da trama contemporânea, agregando, à observação do detalhe, a fantasia de imaginar um mundo diferente com categorias experimentais.
Essa qualidade é, por assim dizer, literária, uma antiprosa, cujo saldo decorre daquilo que o dramaturgo Heiner Mueller chamou certa vez de a “pressão da experiência autêntica” no movimento do material. Nesse sentido, a reflexão de Kurz sobre a constelação pós-Guerra Fria precisa ser pensada, em seus devidos termos, dentro da particuliaridade da experiência alemã nos últimos 16 anos desde a Reunificação, nos quais seu país, relativamente civilizado e pacificado pela social-democracia depois da barbárie, transformou-se novamente num laboratório social e num pesadelo darwinista.
Ninguém menos que o poeta e editor Hans Magnus Enzensberger reconheceu prematuramente nessa imaginação sobre a fatalidade histórica da Reunificação e seu curso de desastre o convite para entrar em um território desconhecido. No outono de 1991, “O Colapso da Modernização”, de Kurz, era lançado na Andere Bibliotheke, editada por Enzensberger, dois anos antes da publicação de “Visões sobre a Guerra Civil”, livro deste poeta e ensaísta.
A sombra do argumento de Kurz projeta-se literariamente no argumento de Enzensberger sobre o excesso e o autismo de uma violência libertada das antigas amarras ideológicas nos Balcãs como metástase de uma crise que se irradia da periferia para o centro do sistema. Uma das características mais marcantes do ensaio é a homologia subjacente entre o “êxtase” dessa “subjetividade balcanizada” e o pathos niilista da crítica cultural pós-moderna.
Ao despedir-se das armadilhas morais do universalismo esclarecido, impotente pelo bombardeio de informações, Enzensberger convidava o leitor a uma ética da responsabilidade civil, além da política partidária. Se, para Kurz, o colapso do socialismo de caserna significava menos uma vitória do capitalismo sobre a antiga ditadura do SED (sigla em alemão do Partido Socialista Unificado da Alemanha, que se converteu depois no Partido Social-Democrata da Alemanha - SPD), do que o signo de uma crise da própria concepção de “trabalho abstrato” arraigada na ética protestante tanto no Leste como no Ocidente, Enzensberger sinalizava nesse processo o termo histórico da modernização.
A questão da pós-modernidade era objeto da antologia de Kurz de 1999, “O Mundo como Vontade e Design, Estilos de Vida de Esquerda e Estetização da Crise”, uma cartografia do novo yuppismo intelectual nas figuras dos críticos Nobert Bolz e Diedrich Diederichsen e do desinteresse “individualizado” de uma geração, os ex-plebeus 68 que “chegaram lá”, a política como pose de charutos e ternos Armani, no auge da bolha financeira da “new economy”. Amor virtual, internet, Love Parade, analfabetismo funcional, legiões de mães solteiras empobrecidas, colapso da masculinidade, Kurz traçava um inventário da miséria individualizada da geração “single”.
Em 2000, “O Livro Negro do Capitalismo” dava forma enciclopédica ao programa categorial da antiga revista “Krisis”. Pela primeira vez, uma obra de Kurz ganhava ressonância nacional, chegando a ser considerada pelo “Die Zeit” como o mais importante lançamento nos últimos dez anos.
Ao contrário do sociólogo Ulrich Beck, que se tornou conselheiro da ala modernizadora do SPD durante os anos da coalizão vermelho-verde, Kurz sempre manteve uma distância crítica da política partidária. Mas sua reflexão, em sentido concreto, é antes de tudo um ajuste com a “chispa desembestada” (na expressão de Roberto Schwarz) da esquerda tradicional alemã que, entre outras aberrações, se transformou em terrorismo anti-semita no início dos anos 70 e se aglutina hoje em torno da “LinkBuendnis” capitaneada por Oskar Lafontaine, na forma de uma crítica vulgar do capitalismo financeiro, emparedada pela dessolidarização do rápido desmonte da máquina social.
Na entrevista a seguir, Kurz fala sobre a atual situação da Alemanha e do capitalismo e responde à pergunta da Documenta: “A modernidade é nossa Antigüidade?”.
Quando se fala no fim da modernização, à qual paradigma estamos ainda nos referindo?
Robert Kurz: O conceito de moderno é bastante mutável e apreendido de maneiras inteiramente distintas, dependendo do contexto no qual se argumenta. Entre os históriadores, por exemplo, existe o conceito de “pré-moderno”, datado entre os séculos 16 e 17, e o moderno compreenderia todo o processo histórico a partir dessa época. Já na filosofia, o início do moderno é frequentemente assimilado ao Esclarecimento (ou Iluminismo) do século 18, ao qual todas as teorias e ideologias posteriores até hoje se referem direta ou indiretamente. Para a maioria dos economistas e sociólogos, por sua vez, o moderno começaria com a industrialização no início do século 19, da qual se origina uma história das diversas revoluções industriais, que culminaria hoje na terceira revolução industrial da microletrônica.
No campo da arte e da cultura, o conceito de moderno se estabelece de maneira marcante na reflexão apenas no século 20, antes da Primeira Guerra Mundial, não se estendendo como “clássico moderno” além das décadas de 50 e 60, quando parece se esgotar e desembocar no assim chamado pós-moderno.
Do campo da arte e do aparelho cultural, o tema do fim do moderno e do início de um pós-moderno estendeu-se, neste entretempo, para a filosofia, as teorias da história, a sociologia e até para a economia. A “nova economia” do capitalismo-cassino-internet foi descrita como um paradigma socioeconômico pós-moderno, como uma nova era de acumulação de capital e prosperidade, cuja bolha, de maneira patética, já estourou há alguns anos.
A desorientação parece tão completa, que Juergen Habermas já proclamava, no início dos anos 80, uma “nova intransparência”. O problema consiste no fato de que, no desenvolvimento do moderno, a perspectiva da totalidade social e da história se torna cada vez mais fugidia. As ciências sociais se “diferenciaram”, as teorias referem-se cada vez mais apenas a “partes do sistema”. O conjunto se perdeu, e desse refluxo e vazio o pós-moderno fez precisamente soar sua hora no culto desta desconexão.
Na pós-história, a história mesma foi atomizada; na sociologia, os “processos de individualização” (Ulrich Beck) reabilitados; e na economia os pontos de vista “microeconômicos” realçados e o conjunto capitalista dissolvido na particularidade dos “sujeitos econômicos”.
A mesma atomização processou-se na arte, na indústria cultural e nos estilos de vida alternativos. Cada um por si e Deus contra todos. Essa tendência à atomização não é apenas pura ideologia, mas apresenta também pressupostos sociais bem objetivos, que, não obstante, não foram até agora refletidos. A sociedade parece se dissolver numa ausência de conexão real, e esse processo é pensado de maneira igualmente sem conexão com a base social real, isto é, ele é reduplicado idealmente. Nesse sentido, o pós-moderno é, por assim dizer, a realização de sua própria profecia.
Mas uma outra perspectiva se oferece quando consideramos o conjunto da sociedade e da história. O moderno constituiu um contínuo e uma conexão categorial, uma certa formação histórica da sociedade, diferenciada de suas formas agrário-religiosas tradicionais. Essencial nesse processo é a constituição do capitalismo, por um lado, isto é, do moderno sistema de produção de mercadorias, e, por outro, das relações modernas entre os gêneros, no qual o patriarcado, bem como a reprodução social, foram “objetivados”.
O “trabalho abstrato”, a forma da mercadoria, a mediação do mercado mundial e a concorrência universal tornam-se determinações centrais. Essas formas aparentemente neutras são também “estruturalmente masculinas”, isto é, espelham a supremacia masculina na política e na economia, em certo sentido, também no aparelho cultural. As mulheres estão representadas neste setor, mas são também, como afirma a socióloga Regina Becker Schmidt, “duplamente socializadas”, pois aqueles momentos não originários da reprodução social (atividades domésticas, educação dos filho, empatia, trabalho amoroso), no “trabalho abstrato”, na política e no aparelho cultural foram apartados pelo capitalismo ascendente da sociabilidade oficial e historicamente delegados às mulheres. O capitalismo, o objetivo do moderno sistema de produção de mercadorias como da “valorização do capital” e de sua esfera política, constitui, dessa forma, igualmente, um sistema de “separação de gêneros” (Roswitha Scholz).
Mas o assim entendido “moderno” não constitui nenhum contínuo estático, porém dinâmico. Por essa razão, o conceito de “moderno” vai a par com o de modernização. A modernização foi inicialmente um processo de colonização externa e interna, ou seja, um processo de consolidação das modernas categorias sociais através do colonialismo europeu, externamente, e de subversão das velhas relações agrário-religiosas e dos vínculos pessoais, internamente. Esse processo foi desigual e completou-se nas diversas partes do mundo fora da Europa e da América do Norte em ondas intermitentes sucessivas, que se estenderam pelo século 20 adentro. Por esse motivo, fala-se também em “não-simultaneidade histórica”.
Mas, em segundo lugar, o conceito de modernização designa o desenvolvimento das modernas relações a partir de “seus próprios fundamentos” (Marx), a história da Revolução Industrial, as metamorfoses emergentes da esfera política (democratização) e as novas formas de expressão e da separação entre os gêneros.
Seria, portanto, o pós-moderno uma época essencialmente distinta do moderno. Por outro lado, o discurso do pós-moderno pressupõe que a modernização teria atingido seus limites históricos. O capitalismo e sua divisão de gêneros tornaram-se, na globalização, um sistema planetário e, nessa simultaneidade, esse desenvolvimento interno pareceria ter se esgotado. Há, de fato, novas formas de individualização, a internet, a economia transnacional, mas as modernas categorias sociais tornaram-se vazias e ocas. As mudanças econômicas, sociais e técnicas não correspondem mais aos novos conteúdos e perspectivas. Isso se mostra particularmente claro na esfera sensível da arte e da cultura. Mas essa dinâmica é apenas exterior. Com Paul Virilio, poderíamos falar de uma “rasante inércia”.
Tudo isso vem a par com um “crise econômica radicalizada”, que se estende da periferia até os centros capitalistas, na imagem do desemprego e da miséria em massa, nas infra-estruturas desarticuladas, no declínio da classe média, com as pessoas cada vez mais lançadas na precariedade social, entre elas muitas existências intelectuais e artísticas. Também a crescente migração global é parte da síndrome. No conjunto, estamos diante de uma crise global de nova qualidade. O pós-moderno não é uma época além do moderno, mas sim uma época da crise fundamental do moderno, uma época de transformação crítica rumo ao desconhecido, já que não se pode ser “mais moderno”, isto é, a modernização não encontra mais espaço para avançar.
A teoria e a ciência majoritariamente não compreenderam essa nova situação e procuram ainda navegar ao sabor do vento, pois não querem reconhecer o pós-moderno como crise do moderno em suas fronteiras históricas. Em parte, o pós-moderno é apresentado como uma suposta e completa nova época de virtualidade auto-confiante e de contigências “abertas”, enquanto que a realidade social se esfacela na dureza dos pressupostos reais do capitalismo, que já não podem mais nem sequer serem preenchidos.
É dessa maneira que Ulrich Beck e Anthony Giddens falam de uma “modernização reflexiva” e de uma “nova descoberta do político”. O moderno deve tornar-se “auto-reflexivo” em relação aos seus próprios potenciais engendrados e ameaças crescentes, sobretudo em relação ao equilíbrio ecológico. Mas aqui não há nenhum modo de trabalho compatível com o moderno. A destruição capitalista dos recursos vitais prossegue irrefreada e politicamente não há nada de novo a ser descoberto, pois a política, como instrumento corretivo de regulamentação do Estado nacional, não surte mais qualquer efeito na crise globalizada.
E também no cotidiano das relações essa crise fundamental se mostra evidente. Os indivíduos atomizados não se suportam mais entre si, as relações se precarizam no amor, a divisão de gêneros se decompõe e o cotidiano e o trato pessoal são, por assim dizer, “barbarizados”. O pós-moderno como uma nova época, ou como continuação da modernização, é simplesmente um embrulho enganador.E como se definiria nossa época em contraste com esse ciclo que se encerra e o atual estágio da acumulação capitalista?
Kurz: Se podemos descrever nosso tempo como crise do moderno, marcado por uma perda de substância, então esse problema tem um fundamento social elementar na economia do moderno sistema de produção de mercadorias. Segundo Marx, o trabalho abstrato constitui a transferência da energia humana com a finalidade de valorizar a substância do capital. Na terceira revolução industrial da microeletrônica, essa substância mesma torna-se cada vez mais supérflua.
Pela primeira vez na história do capitalismo, a racionalização da produção supera a expansão dos mercados. Na medida em que a força de trabalho humana, em pulsos sucessivos, é retirada do processo produtivo, o capital real fica para trás. Ele deixa de ser a instância de entrelaçamento do conjunto econômico e do social. A transferência da capacidade de produção para países de baixos salários, como a China ou a Índia, não é um jogo de soma zero, mas está ligado à exportação de alta tecnologia. Ela se limita nestes países apenas a uma minoria de “zonas preferenciais de exportação”.
Na globalização, não existe mais nenhum “desenvolvimento” econômico nacional, no qual a população, como um todo, possa ser integrada. Também nesse sentido a modernização acabou. O capitalismo tornou-se um capitalismo de minorias. Ele estabeleceu a conexão planetária da humanidade, mas apenas em sentido negativo, como processo de crise, que em toda parte dissolve as conexões elementares do social. A sociedade capitalista mundial constituída não pode mais integrar a maioria das pessoas.
Mas esse não é apenas um problema de miséria e desemprego em massa. A crescente fragmentação social libera, na mesma medida, nos níveis macro e micro, processos de desintegração “pós-políticos”. Em todas as partes no mundo desenvolvem-se, como continuação da concorrência por outros meios, novas relações de força. Podemos falar, por um lado, de um processo sorrateiro de desestatização. No lugar das guerras tradicionais aparecem, nessa anomia, guerras civis de um novo tipo, ligadas a uma violência particular contra mulheres e crianças. As zonas de insegurança crescem a cada dia.
Mas o capitalismo planetário sufoca não apenas em função de sua própria incerteza auto-produzida. Na mesma proporção em que a força de trabalho é desvalorizada, processa-se simultaneamente uma “dessubstancialização” do capital. O valor e sua forma de aparição como dinheiro resultam, em última instância, de uma energia humana transferida, e apenas por essa razão é que os produtos assumem sua forma de mercadoria, isto é, numa abstrata “coisicidade de valor” em oposição a sua qualidade sensível. Ao desvalorizar a força viva de trabalho, a terceira revolução industrial destrói o próprio valor e coloca todo o sistema de produção de mercadorias em xeque. A crise do “trabalho abstrato” torna-se a crise do capital ele mesmo, pois a “valorização do valor” atinge suas fronteiras históricas.
Como entender a produção cultural neste contexto? O sr. acredita que, no plano da arte, a modernidade é nossa Antigüidade?
Kurz: Acredito que, referidos à relação econômica como centro da sociedade oficial, mostra-se uma clara distinção entre moderno e pós-moderno. O moderno foi o contínuo da ascensão histórica e da consolidação do trabalho abstrato. A substância do capital tornou-se, no processo de acumulação, cada vez mais rarefeita. Ela compreende cada vez mais esferas da vida e se estende à produção cultural, que se organiza dentro da lógica capitalista da indústria cultural.
Literatura e arte refletem imanentemente esse movimento substancial, cujo nome é modernização, até os poros mais remotos e nichos do cotidiano, como mudanças das relações psíquicas, dos caracteres sociais, da sexualidade e da percepção do mundo. Nesse ponto, tanto a crítica tradicional de esquerda como aquela do antigo campo do socialismo real, bem como a conservadora em todos os seus matizes, não pouparam esforços. Mas essa crítica teve sempre a dinâmica da expansão do trabalho abstrato como seu presuposto silenciado.
Isso se mostra não apenas do ponto de vista cultural, mas também político e econômico. A “democratização” política foi idêntica com a integração das massas no capitalismo. O reconhecimento do trabalhador assalariado como sujeito de direito civil, bem como da cidadania (eleições universais, voto feminino apenas no século 20, direito à greve e à liberdade de reunião) constituem apenas reverso da medalha de sua submissão ao trabalho abstrato. E o socialismo real foi apenas um sistema alternativo, concebido a partir dos mesmos fundamento sociais e ontológicos. Como socialismo real na periferia do mercado global desde a Revolução de Outubro, ele se desenvolveu como um paradigma da modernização recuperadora, na qual o trabalho abstrato não foi superado, senão apenas tardiamente introduzido e aplicado.
Em contrapartida, o pós-moderno representa o processo de dissolução e declínio do trabalho abstrato. O fim do socialismo real pertence a esse contexto e marca o fim da modernização recuperadora. O sistema mundial unificado não pode mais atribuir uma unidade substancial, senão em pequenas zonas insulares de rentabilidade decrescente. Enquanto que a coerência nacional clássica do moderno se esfacela, a dessubstancialização do capital se irradia, agora, em direção inversa, a todos os domínios da existência como um sentimento de esvaziamento geral e crise.
A crise da substância econômica e, em consequência, a crise da política tornam-se a crise da moderna identidade masculina, que tinha seu ancoramento nessa substância, enquanto que as mulheres, em função de sua dupla socialização e fixação nos momentos apartados da reprodução real, sempre foram semi-integradas. Nessa crise, as conquistas do movimento feminista vão sendo sucessivamente -e até agora sem grande resistência- revogadas. No território desse refluxo, a identidade esvaziada masculina avança “desembestada”, exprimindo-se, em toda parte, numa violência sexista cada vez maior.
Com uma nova vestimenta, retornam os velhos demônios da modernização -racismo, anti-semitismo, etnonacionalismo-, seja nos homens ou nas mulheres. Eles representam apenas uma reação destrutiva à nova ameaça existencial para restabelecer, de maneira imaginária, o nexo social perdido sob delegação do “outro”.
O mesmo esvaziamento se observa na produção cultural. Por isso, a crise da cultura e da arte não decorre apenas de uma crise financeira e da precariazação de seus atores, mas também de seus conteúdos. O novo é apenas um remake de segunda do velho (retrô). Não apenas as séries televisivas são infinitamente repetidas. Modas e conteúdos esvaziados retornam à circulação em intervalos cada vez mais curtos. Culturalmente, a dinâmica do desenvolvimento transformou-se numa espécie de eterno retorno do mesmo.
Já que tudo se tornou indiferente, a arte não pode mais provocar. Nudez e banhos de sangue suíno nos palcos alemães provocam um grande bocejo. Sensacional mesmo, hoje, na Alemanha é quando os atores aparecem em cena vestidos. Não há mais nenhum conteúdo cultural a ser expresso na forma capitalista, justamente porque ela mesma perdeu o seu conteúdo. A fragmentação social e a desintegração como desconexão universal tornam-se uma falta de conteúdo universal ou uma desrrealização de todos os conteúdos críticos do passado, que opunham um sinal negativo a esse desenvolvimento.
O reducionismo tecnológico mostra-se também na comunicação. Quanto mais os indivíduos incrementam e são mobilizados pelo arsenal tecnológico multimídia, cada vez menos têm a dizer entre si.
As ciências sociais não estão excluídas dessas tendências. Ulrich Beck fala também de si mesmo, quando se refere a uma perda de significado e irrealidade da sociologia auto-infligidas. A irrealidade da sociologia é a mesma da arte e da cultura, e ela é justamente “culpada”, na medida mesma em que recalca essa perda de substância ao inventar conceitos vazios. Por esse motivo, a sociologia não pode mais oferecer nenhuma resposta aos problemas urgentes da crise. Ela descreve superficialmente alguns fenômenos, mas se recusa a reconhecer a correlação entre eles.
Para sairmos desta fila de espera do pós-moderno só há uma saída: se a teoria novamente referir-se “ao todo”, partindo da crise do “trabalho abstrato” e das modernas relações entre os gêneros, realizandoo uma crítica radical da ontologia capitalista, que para os críticos obsoletos do passado ainda era pressuposta de modo postivo. Talvez, com essa intenção crítica profunda, seja possível fazer da arte algo novamente provocador.
Pode-se falar ainda em luta de classes? O proletariado pode ser considerado ainda uma força de oposição ao capital?
Kurz: Desde a industrialização, o moderno foi marcado pelo antagonismo de classes entre “trabalho assalariado” e “capital”, entre “proletariado” e “burguesia”. Essa oposição parecia ser ontológica, porque o “trabalho abstrato” era entendedido como uma necessidade natural eterna e, apenas num sentido totalmente externo, como substância do capital. Na ideologia oficial burguesa, a forma capitalista era inseparável da necessidade do “trabalho” mesmo, e na ideologia socialista o “trabalho eterno” deveria supostamente libertar-se da forma capitalista.
Hoje, os pressupostos sociais comuns de ambas ideologias foram corroídos e percebeu-se, por assim dizer, que ambos os lados tinham, apenas em parte, metade da razão. A substância abstrata do trabalho é, de fato, parte inseparável da forma capitalista, mas apenas na medida em que essa forma é sucessivamente esvaziada de sua própria substância. A “ontologia do trabalho” revela-se historicamente limitada e caduca como as mercadorias universais e a forma monetária do capital.
Aqueles “exércitos do trabalho” invocados por Marx, em sua época, como base organizada da luta de classes desapareceram. Apenas aparentemente repete-se hoje a mobilização desses “exércitos” em zonas de exportação preferenciais da China e da Índia, nas quais, simultaneamente, no mercado interno e na produção agrícola, o “trabalho” é, em grande parte, desmobilizado. Do ponto de vista global, o volume absoluto do trabalho regular declina sem parar.
O capital reage a essa crise interna com a constituição de uma economia interligada como bolha financeira. Uma vez que investimentos reais e fábricas, máquinas e força de trabalho são cada vez menos rentáveis e em toda a parte revela-se uma “sobrecapacidade”, que cada vez mais têm de ser desmobilizada (com o fechamento de fábricas, por exemplo). O capital financeiro foge numa virtual (fictícia) acumulação nos mercados financeiros. Os ganhos não decorrem mais da produção ou da venda de mercadorias, mas quase que somente das elevações, sem substância, dos preços nos mercados de ações e imobiliários, da transação com títulos financeiros de conglomerados e suas partes (batalhas de aquisições hostis, por exemplo).
Assim como as ciências sociais em suas reflexões teóricas, o capital também procura, de um ponto de vista econômico prático, navegar ao sabor do vento. Também essas zonas preferenciais minoritárias de exportação na China e na Índia, geridas pelos conglomerados transnacionais, são, em realidade, dependentes da economia de bolha financeira, sobretudo do déficit externo dos Estados Unidos, e não representam nenhuma acumulação real produtiva.
O processo sociológico de individualização descrito por Ulrich Beck esteve, desde o início, ligado a essa virtualização econômica do capital. Nele, o proletariado clássico se dissolvia e a tradicional luta de classes perdia, com o “trabalho”, sua base ontológica. Quando, em 1986, Beck constatava a liberação das pessoas de seus antigos vínculos de classe, ele deixava totalmente de lado o caráter de crise desse mesmo processo econômico. Nesse entretempo, ele mesmo teve de desmentir seu otimismo inicial, mas ainda se recusa a admitir a relação interna entre individualização e caráter de crise da virtualização.
A oposição entre miséria e “riqueza abstrata” (Marx) radicalizou-se dramaticamente na forma monetária, mas ela não resulta mais da exploração da força viva de trabalho. As pessoas são justamente individualizadas e socialmente atomizadas, na medida em que o capital pode acumular cada vez menos. No interior dessa nova miséria de massa, desenvolvem-se campos de disparidade sociais, que não podem mais ser trazidos a um denominador comum de uma “classe” social uniforme.Enquanto que nos países ocidentais ainda existem restos do Estado de Bem-estar Social, um número cada vez mais crescente de pessoas torna-se dependente da transferência de recursos públicos, que caminha a par com o crescente endividamento estatal. Quanto mais restritivas essas transferências são na administração da crise estatal, mais se ampliam as formas de trabalho precarizado, para além do trabalho remunerado industrial.
A maior parte dessas novas relações empregatícias não se referem mais à produção de bens, mas à esfera da circulação, ao puro processo de mercado de compra e venda ou a serviços individuais, às falsas atividades autônomas, ao trabalho compulsório comunitário dos beneficiários do seguro desemprego, aos empregos de 1 euro, aos serviços de assistência precários, à ajuda no trabalho doméstico, às brigadas de varredores de rua, às atividades em calls centers, à venda de serviços telefônicos, aos trabalhos temporários, à assim chamada sub-ocupação (algumas horas por semana no supermercado no caixa enchendo sacolas de compras ou arrumando prateleiras), aos empregos em bares, ao pequeno comércio de rua, ao tipo de “empreendimento da miséria” e até mesmo à simples mendicância.
Essa tendência já atingiu há muito a jovem geração dos acadêmicos da classe média, que, em grande parte, não encontra mais nenhuma ocupação regular e tem de se virar até o limiar dos 40 anos com “estágios” de pequena ou nenhuma remuneração, ou mesmo contratos de trabalho temporários. Na França já se fala de uma “génération precaire” (geração precária).
Nessas condições, os indivíduos não são apenas sociológica e psicologicamente, mas também economicamente atomizados. Eles não encontram mais uma instância comum de unificação das formas de organização de suas ocupações precarizadas. Sob a pressão do empobrecimento e da piora das condições de vida, eclodem novas lutas sociais, como os protestos de massa da juventude acadêmica na França. Mas esses movimentos sociais (e os também chamados movimentos antiglobalização e seus foros sociais) não podem mais ser unificados sob a etiqueta da “luta de classes” ou de uma “classe trabalhadora”, como procura inutilmente a esquerda anacrônica tradicional. Já nos anos 70 os “novos movimentos sociais” tinham se afastado do paradigma da velha “luta de classes”.
Disso resultou naturalmente um enfraquecimento do poder e da capacidade reais desses movimentos de fazerem prevalecer suas reivindicações. Frequentemente, trata-se de um puro “movimento de causa única” para questões específicas. Também os protestos sociais permanecem pontuais e sem sustentalidade organizada. Isso tem a ver com o fato de que a “classe trabalhadora” obsoleta e o fim da “luta de classes” entre os campos sociais díspares não apenas têm dificuldades na questão organizatória, mas também, como nos novos movimentos sociais, de modo semelhante à sociologia e nas práticas culturais, a perspectiva do conjunto social se perdeu.
Não há mais nenhum objetivo comum, o velho entendimento do “socialismo” foi liquidado, como a ontologia do “trabalho”. Precisamente em sua crise histórica, o capitalismo parece como uma pura condição de natureza social intransponível. Para unificar os movimentos sociais de homens e mulheres atomizados como uma nova força histórica seria preciso estabelecer também novos objetivos comuns além do capitalismo, uma crítica generalizada do “trabalho abstrato”, do moderno sistema de produção de mercadorias e de sua divisão entre gêneros.
Atualmente, muito pouco disto pode ser vislumbrado. No lugar disso, mostra-se uma disseminada e ampla nostalgia capitalista. Quanto mais o capital, através de sua própria dinâmica se “dessubstancializa” e mais obsoleto e precário torna-se o “trabalho” residual, maiores as saudades de um tempo passado de relações de trabalho estáveis e do “milagre econômico” de depois da Segunda Guerra.
Essa nostalgia é perigosa, porque o caráter ilusório dessas ilusões retrospectivas torna-se logo consciente como contradição e desemboca em vínculos ideológicos destrutivos. Os novos pobres, e precisamente os mais instruídos entre eles, não são melhores pessoas. É justamente o ressentimento desses que sai à caça dos culpados, em vez de questionar de maneira crítica suas condições de existência socialmente modificadas. O capitalismo da bolha financeira virtualizada, no qual, de preferência, se deseja participar como aventureiro, aparece simultaneamente como ameaça subjetiva, através de seus “gafanhotos” em Private Equity Fonds e outras sociedades de investimento com uma proximidade clara com o anti-semitismo (o clichê dos “judeus financeiros”).
Teorias conspiratórias estão na ordem do dia em best sellers, bem como uma “crítica” abreviada e vulgar do capitalismo na forma de um antiamericanismo tosco. Aquelas fronteiras claras do passado entre ideologias de “direita” e “esquerda” se diluem na crise dos pressupostos socialmente comuns. O futuro dependerá de os movimentos sociais se fazerem prevalecer, além da velha luta de classes e da tendência nostálgica, anti-semita e antiamericana. Ou se, em contrapartida, se realizar uma crítica radical às aparentes leis naturais das formas sociais do moderno.
Na peça sobre o esclarecimento prussiano, de Heiner Mueller, “Gundling”, sobre Lessing, a domesticação do corpo, pela camisa de força, é apresentada pelo professor aos seus alunos, no manicomômio, como um “instrumento da dialética” diante um paciente em estado de masturbação compulsiva. “Cada um torna-se sua própria Prússia”, afirma ironicamente. No entanto, o instrumento somente parece aumentar no paciente a intensidade do impulso masoquista em ir além. A quase que completa colonização do imaginário pela nova virtualidade dispensa a camisa de força real. O que sobrou do espaço da fantasia?
Kurz: É, sem dúvida, uma bela metáfora de Heiner Mueller. É preciso estabelecer uma ligação entre o esvaziamento da subjetivdade e a virtualização do capital, na medida em que os indivíduos se tornam cada vez mais reprimidos, quanto mais se distanciam da realidade nesse mergulho virtual.
O que se passa na bolha financeira transcorre também de maneira concreta no cotidiano das relações. Na psicologia, temos o conceito de instabilidade na personalidade “borderline”. Essa cena refere-se ao processo de tântalo da colonização interna da subjetividade. Na medida em que o capital, em função da intensidade tecnológica, recua da realidade e avança na intimidade, nos sentimentos e pensamentos, na economização dos sonhos, sem devolver a substância viva retirada, a auto-repressão aumenta, e os indivíduos comportam-se, em quase todos os domínios, como pequenos empresários, administrando essa substância esvaziada.
Ocorre então a economização total das relações, das mulheres das crianças e dos amigos. Tudo deve estar de acordo com uma “qualidade gerencial” e ser organizado como uma pequena firma, pois, justamente na medida em que cada vez menos firmas reais existem, tanto mais devemos estender esta estrutura contra nós mesmos. Essa forma sem conteúdo é também muito bárbara em sua crueza e desemboca, na vida prática, facilmente em agressão física, porque a idéia insuportável de uma irrealidade crescente no virtual procura inevitavelmente uma válvula de escape. Esse mundo nos torna capazes e preparados para tudo. Os indivíduos tornam-se cada vez mais imprevisíveis.
Este artigo é publicado por Trópico como contribuição à documenta 12 magazines, um projeto editorial coletivo que reúne em todo mundo mais de 70 publicações impressas e on-line, bem como outras mídias.
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José Galisi Filho
É doutor em germanística pela Universidade de Hannover (Alemanha).
Descendo no elevador da História - O Fim do Estado do Bem Estar Social Alemão e a Crise da União Européia - Robert Kurz (Mais!)
A ressaca do fordismo
Eleições de hoje na Alemanha expõem o que a sincronia das crises no Sul, do modelo soviético e nos países centrais nos anos 80 já indicava -o Estado de Bem-Estar não passou de realização efêmera do pós-guerra
ROBERT KURZ
COLUNISTA DA FOLHA
Durante muito tempo pareciam bem definidas aquelas fronteiras entre a miséria em massa e as relativas condições de bem estar coletivo. A linha demarcatória separava essencialmente o Norte do Sul do planeta. Essa constelação foi apenas, no entanto, um produto da história depois da Segunda Guerra. Nos centros capitalistas, a mobilização das indústrias fordistas desencadeou um impulso sem precedentes de ocupação em massa e acumulação de capital, vinculados à ascensão dos sindicatos e da social democracia. A “mobilização automotiva” da sociedade ia a par com a construção crescente de uma rede de seguridade social (“Welfare State”), especialmente profunda na Alemanha Ocidental e, em parte, na França. Até mesmo no espaço do liberalismo econômico tradicional anglo-saxônico, os governos trabalhistas na Grã-Bretanha e a “Grande Sociedade” do presidente Johnson, na tradição do “New Deal”, geravam novas estruturas sociais. O sociólogo alemão Ulrich Beck descreveu a ascensão social na era fordista do pós-guerra como “efeito elevador”: apesar das permanentes diferenciações sociais, a sociedade, como um todo, era catapultada num patamar superior. Os salários reais aumentavam em muitas vezes, enquanto as jornadas de trabalho, de modo inverso, declinavam constantemente. A expectativa geral de vida aumentava para todos através de um sistema médico melhorado.
Foi essa prosperidade sem precedentes do Norte que se tornou o paradigma extremamente atrativo do “desenvolvimento” para os países do Sul global. “Desenvolvimento” significava senão realizar como programa social a perspectiva de uma modernização recuperadora e industrialização em categorias capitalistas. Nisso se manifestou um paradoxo histórico, pois enquanto no Sudeste Asiático e na África ainda eclodiam as últimas guerras de descolonização, e simultaneamente, nos países já descolonizados, articulavam-se os movimentos contra a dependência econômica da Europa Ocidental e dos Estados Unidos, o paradigma do desenvolvimento dos centros capitalistas era ainda, contudo, o modelo a ser trilhado. Os ex-colonizados desejavam crescer nas formas sociais dos antigos senhores.
Descolonização e esforços de independência econômicos eram determinados pelo desejo de atingir, por conta própria, a almejada prosperidade fordista e seu correlato patamar de consumo de massa, mesmo quando, a contragosto da superpotência americana, mecanismos de capitalismo de Estado em moldes sovíéticos fossem preferidos. Uma alternativa histórica para a mobilização do “trabalho abstrato” e da “riqueza abstrata”, como Marx denominara a lógica do moderno sistema de produção de mercadorias, não foi, no entanto, cogitada em nenhuma parte. Enquanto os centros capitalistas, em especial nos Estados Unidos, projetavam para fora a imagem política inimiga para os movimentos sociais do Sul, importavam-se, simultaneamente, as estruturas da reprodução capitalista: o moderno trabalho assalariado e a apenas aparente isonomia burguesa da relação entre os gêneros, bem como os padrões e a imaginação do consumo ou o modelo do “Welfare State”. Independentemente de orientação política durante a Guerra Fria, os “milagres econômicos” no Japão e, sobretudo, na Alemanha, eram tidos como os modelos secretos.
Mas a Era de Ouro fordista do pós-guerra permaneceu, no entanto, para os países pós-coloniais do Sul uma miragem. A tarefa de uma industrialização recuperadora, consumo de massa e “Welfare State” logrou apenas, por um curto período, e em formas de segunda mão. A distância que os separava dos centros já era muito grande, os custos prévios do “desenvolvimento” revelaram-se muito altos. O resultado foi um endividamento externo crescente. Quando a terceira revolução industrial da microeletrônica aposentou o fordismo, os custos operacionais e sociais da inovação aumentaram de tal forma, que não apenas os modelos de desenvolvimento nacionais do Sul quebraram, mas também a parte do socialismo de Estado do Norte não o pode mais acompanhar.
De fato, essa tendência ruinosa poderia ter se tornado claramente visível de duas maneiras: em primeiro lugar, a tentativa de imitação de formas industriais, sócio-econômicas e da Europa Ocidental e dos Estados Unidos já fracassara para a maior parte da humanidade; em segundo lugar, com o fim da União Soviética e da RDA, a crise deste tipo de sociedade já havia penetrado o Norte globalizado e também tinha que atingir seus próprios centros. Em vez disso, a expansão da crise foi apreendida exatamente de modo invertido com os óculos dos velhos antagonismos, como se o capitalismo original fosse o grande vencedor da História e todos os retardatários tivesssem que duplicar ou triplicar esforços na cópia desse modelo. Na perspectiva das regiões em colapso pela crise global, vigoravam ainda, no centro do capitalismo, aquelas supostas condições “paradisíacas” de prosperidade fordista, pelo menos se confrontadas com a própria miséria local. Mas isto era apenas uma ilusão ótica.
Na realidade, a crise da terceira revolução industrial já vinha há muito minando o corpo social do capitalismo original. Já no início dos anos oitenta, a “plena ocupação” fordista convertera-se num desemprego estrutural em massa. Através dos novos potenciais de inovação, o patamar desse desemprego estrutural aumentava de ciclo em ciclo. Rápida desativação de postos de trabalho e crescente subocupação constituem apenas o reverso da medalha de uma acumulação insuficiente de capital, do qual, em última instância, depende o “Welfare State”. A rede social expandida do “boom” fordista começara a se romper, executada através de contra-reformas neoliberais. Não é surpresa que Estados Unidos e Reino Unido, através da “Reaganomics” e do Tatcherismo, sejam seus predecessores e retornassem, dessa forma, apenas às suas respectivas tradições do mercado radical. Mas na Europa continental, essas contra-reformas encontravam ainda resistência. As origens do Estado de Bem Estar na França remontam até a Grande Revolução e, na Alemanha, às reformas sociais de Bismarck e ao período guilhermino. Ainda nos anos noventa, os modelos de Estado de Bem Estar francês e alemão, o assim chamado “capitalismo renano”, eram considerados como uma alternativa à “Revolução Neoliberal” anglo-saxônica.
O processo de crise da terceira revolução industrial supera, contudo, facilmente, todas as fronteiras nacionais, históricas e culturais. A lógica geral capitalista repousa mais fundo que qualquer “modelo” político econômico específico. Mesmo o tão caracaterístico Estado do Bem Estar Social alemão, que parecia construído para a eternidade, erodia-se irreversivelmente na era do Chanceler conservador Helmut Kohl nos anos oitenta e noventa. Nesse período, o desemprego atingia, sobretudo, as camadas menos qualificadas do mercado, pessoas de escolaridade incompleta e trabalhadores de fábrica sem formação técnica. Os benefícios sociais foram reduzidos ou eliminados apenas para a base da pirâmede social, isto é, respectivamente para aqueles sem renda, sem seguro privado, para incapacitados físicos, doentes mentais etc, mas sobretudo para mães solteiras. Através dos processos de “individualização” (Ulrich Beck) desde os anos oitenta, o núcleo familiar burguês reduzira-se, em camadas da população, a um “resíduo mãe-filho”. A nova miséria era ainda envergonhada, em primeira linha, uma miséria feminina e socialmente invisível.
Quando a coalização vermelho-verde de Schröder chegou ao comando, muitos acreditavam que o novo governo iria levar a sério as velhas reivindicações da geração 68 e deter o desmonte social ou mesmo, em parte, revertê-lo. Mas foi exatamente o contrário o que aconteceu. A coalização vermelho-verde, revelou-se, diante de renovados recordes de desemprego e sob a pressão da globalização precisamente como a vanguarda dos cortes mais radicais e extensivos já empreendidos no sistema social. Um amplo programa de medidas sob a rubrica de “Agenda 2010” foi elaborado. A espinha dorsal desse programa era o assim chamado “pacote de reformas Hartz”, que celebrizou a figura de seu mentor Peter Hartz, chefe da Comissão de Reforma. Com a entrada em vigor no início de 2005 dessa regulamentação já como “Hartz IV”, as parcelas e a duração do seguro-desemprego foram reduzidas drasticamente como nos países anglo-saxônicos e o benefício até então pago, em sua segunda fase, a saber, depois de um ano de desemprego, proporcional ao bruto do último salário, foi reduzido ao nível mais baixo da asssim chamada “ajuda social”, calculada com base num “mínimo para existência”.
Dessa forma, milhões de pessoas foram despejadas no piso da ajuda social que, no passado, era válida apenas para uma camada minoritária. Decisivo nesta novidade da reforma é que o benefício somente é pago, desde que o desempregado já tenha consumido até suas últimas reservas financeiras. A implementação desse critério serve a um sistema até agora desconhecido de controle desmoralizador. Os atingidos são obrigados a informar às autoridades, sem reservas, todas as suas relações pessoais. Exige-se inclusive a abertura das poupanças das crianças.
Para se compreeder o que esta acontecendo por aqui, seria preciso detalhar de maneira clara um pano de fundo social. O desemprego atinge a Alemanha, como em outros centros capitalistas, cada vez mais, as camadas “qualificadas”, técnicos, professores, assistentes sociais, advogados, médicos e parte do pequeno empresariado. É a derrocada da “novas classes médias”. O colpaso da nova economia em 2000 2001 e a transferência da produção de software para a Europa Central, Índia etc também sugou os especialistas em informática na corrente do abismo social. Pessoas que, no final dos anos 90, ainda sonhavam, sob o signo da economia da bolha financeira, em riqueza fácil, vêem-se, repentinamente. sem perspectivas e confrontadas com a miséria. O refluxo da acumulação capitalista atinge simultaneamente a esfera cultural: jornalistas, colaboradores, redatores de rádio, artistas, livreiros, funcionários de editoras e uma considerável parte do baixo clero acadêmico perdem sua base de existência.
E simultaneamente o desemprego crescente das camadas médias não pode mais ser amortecido socialmente pelo Estado. A administração da crise capitalista obriga a lançar mão de todas as formas de poupança privada, herança e patrimônio imobiliário, casas são leiloadas, melhores moradias têm que ser abandonadas por um aluguel mais baixo. A “gordura fordista” é consumida. Para dizer de maneira drástica: assim como no Terceiro Mundo, uma grande parte das camadas qualificadas e da inteligência vão sendo sucessivamente africanizadas. Relações precárias de trabalho, empreendimentos capengas e serviços miseráveis proliferam-se. Cada vez mais pessoas são expelidas da esfera da produção da cultura para a circulação: venda algo ou morra, esta é a divisa.
De fato, há protestos contra esse desenvolvimento, mas sem nenhuma solidarizaração geral. Ao invés disso, radicaliza-se a luta pela concorrência e defesa do próprio status. As “reformas Hartz” são elas mesmas uma expressão disso. Peter Hartz, o “spiritus rector” dessa medidas, desenvolveu sua agenda como diretor de pessoal do conglomerdado Volkswagen, como membro do Partido Social-Democrata e do sindicato IG Metall. Justamente o conglomerado Volkswagen sempre encarnou o assim chamado “Modelo Alemanha SA”, como uma integração nacional de capital financeiro, sindicatos, consumo de massas e Estado Social, tendo como base nada menos daquilo que poderia ser denominado de racismo. Não é à toa que a Volkswagen tenha sido um dos fundamentos do Nacional Socialismo hitlerista. A mobilização fordista e “automotiva” da sociedade realizava-se em nome do povo alemão e da comunidade popular do sangue como programa racista e anti-semita. Depois de 1945, esse modelo foi saneado economicamente e individualizado, sem trabalhar criticamente a história de sua fundação.
Hartz tornou-se o símbolo da demissão desse modelo ordenada “de cima”. O capital financeiro desnacionalizado perdeu sua capacidade de integração social. A classe globalizada de todos os grupos sociais, incluindo aí os próprios sindicatos, retira-se no papel de “global players”, o gereciamento das matrizes dos conglomerdados, universidades de elite e o resto daqueles que ganham melhor. As infra-estruturas são desmanteladas e limitadas a algumas regiões metropolitanas. Uma minoria reduzida da sociedade insula-se, assim como nos Estados Unidos e nas megalópolis do Terceiro Mundo, surgem também na Alemanha aquelas perigosas “No Go Areas”, de um lado, e guetos de luxo, de outro, com serviços privados de segurança, não apenas na capital Berlim. Segundo dados da Federação das Secretarias de Bem Estar, desde o início da reforma Hartz, a miséria atingiu uma tal dimensão como nunca na história alemã recente. E essa miséria, que sempre fora bem camuflada na Alemanha, começa cada vez mais a mostrar sua face: desabrigados não já não passam mais despercebidos, bem como cada vez mais crianças de rua. Por aqui, reconhecemos o pobres sobretudo pelas roupas amarrotadas e pelos dentes esburacados, já que o tratamento dentário e obturações foram cortados da lista dos benefícios cobertos do seguro médico legal.
Na França e demais países da União Européia, vão se consumando processos similares. A Alemanha, como potência econômica central, dá o ritmo, por último, até na derrocada. A miséria social e econômica tornou-se de repente na Grande crise da União Européia, cujo processo de integração parecia até há pouco irreversível. Neste ínterim, as maiorias sociais empobrecidas e ameaçadas pela miséria enxergam no forte neoliberalismo do Comissariado Europeu com sua burocracia supranacional apenas o instrumento da globalização, através do qual se destrói o bem estar. Com o grande “Não” nos referendos ao projeto de constituição da União Européia na França e na Holanda esse sentimento desafogou-se. E na Alemanha, onde o projeto não foi submetido à votação, o resultado não teria sido outro. A classe política na União Européia lamuria-se de seu “povo” insensato. Mas, na realidade, os governos nacionais procuram há tempos, cada um à sua maneira, diante das contradições, refugiar-se no velho cesto nacional. Os êxitos dos arrivistas populistas de direita dão as cores da classe política em geral, entalada entre mercado desenfreado, pretensões nacionais e a burocracia econômica da União Européia.
Lá embaixo, na base da sociedade, mostra-se na União Européia, cada vez mais, bem como acima, na administração e na política, diante dessa miséria crescente, uma forte tendência à renacionalização, que rompa com a realidade da economia global. Mas não há mais retorno para um bem estar integrado nacional para fora. O pensamento reacionário está sempre fadado ao fracasso, mas, assim como antes, ele ainda pode produzir enormes estragos. O “Não” à constituição neoliberal da União Européia não tem nenhum conteúdo libertador. Ele foi, em primeira linha, um retroceso obstinado a posições racistas e nacionalistas no mais fundo rincão do centro social. Não se trata aqui da articulação de uma resistência social geral, mas de uma luta pelas linhas de demarcação da exclusão social.
Em primeiro lugar, a classe média qualificada declinante não quer se alinhar às camadas mais baixas e rebela-se em ser degradada ao nível destas. Em segundo, a miséria nacional de todas as classes volta-se contra os estrangeiros, pessoas de outras etnias, asilantes e imigrantes. Em terceiro, justamente entre acadêmicos e técnicos qualificados, o descenso social exprime-se também como crise da identidade masculina, que neles começa a se manifestar. Em todos os domínios sociais e instituições dissemina-se um chauvinismo sexual e o “mobbing” contra mulheres está na ordem do dia.
Na Alemanha, o fantasma de Peter Hartz, como miséria ordenada, vem assombrando o país. Na linguagem cotidiana, o nome já é hoje até empregado para amedrontar as crianças, como antes a história do bicho-papão. A moral irônica nessa história é que em junho de 2005 Hartz tornou-se o centro de um escândalo de corrupção na Volkswagen, que deu ensejo a uma investigação do Ministério Público. A velha simbiose entre capital financeiro de bancos, gereciamento e caciques políticos da Baixa Saxônia, sindicatos e barões da pelegagem do conglomerado decompôs-se moralmente no processo de globalização. As investigações revelaram ente outras coisas firmas fantasmas na Índia, nas quais o chefe do conselho de empregados Volker participara, um amigo íntimo de Gehard Schröder. Houve também, além disso, prestações de contas hiperfaturadas, sem comprovantes, utilizadas para o pagamento de prostitutas de luxo no Brasil às custas do conglomerado, bem como propina e outras coisas menos palatáveis. Hartz teve de renunciar de maneira desonrosa e já vozes se levantam para redenominar as reformas neoliberais, a fim de que elas não estejam mais impregnadas pelo ódio àquele que se transformou no “Judas de Malhação” nacional.
É a velha “Alemanha SA” que vai sendo finalmente liqüidada em todas as perspectivas, pois não encontra mais fundamento na realidade da crise global da terceira revolução industrial. A reforma “Hartz” e o “Caso Volkswagen” representam apenas a matrix de um desenvolvimento geral. Mas a consciência das massa não quer se confrontar com a realidade, mas aspira nostalgicamente pelo Marco alemão e pelo velho status quo. Essa renacionalização ideológica da crise desperta os demônios do passado. A irrealidade do assim chamado modelo “Alemanha SA” conjura em seu colapso a origem do nacional socialismo hitlerista. Naturalmente o elevador da história não desce para o passado, mas, de fato, para o fim do processo de modernização e de toda a prosperidade. Os sentimentos anti-semitas e rassistas não são mais organizados pelo Estado como na Crise Mundial dos anos trinta, mas aparecem agora fragmentados e individualizados como a miséria. Nem por isso são menos perigosos.
Neste clima reacionário em vez de emancipatório contra o neoliberalismo, as fronteiras entre direita e esquerda tornam-se cada vez mais fluidas. Grande parte dos políticos de esquerda vem nadando aberta um envergonhadamente na ressaca ideológica da renacionalização. Uma dissidência de esquerda do Partido Social Democrata, sob a égide de seu antigo Chefe Oskar Lafontaine, hoje fundida na mesma chapa ao Partido do Socialismo Democrático (PDS), que, por sua vez, era a sigla redenominada do antigo Partido do Estado, o SED, da Repúplica Democrática Alemã, vem crescendo nas pesquisa de voto ano e tem boas chances nas eleições antecipadas de outono.
Mas não se sabe bem ao certo o quanto de direita existe nessa esquerda. Lafontaine, com suas investidas contra os “trabalhadores estrangeiros” (uma palavra do jargão nazista), está angariando cada vez mais votos do espectro da direita radical hostil aos estrangeiros. Segundo uma pesquisa sociológica publicada em junho de 2005, pelo menos 20% dos membros dos sindicatos pensam de maneira anti-semita e nacionalista. Aquilo que para a esquerda tradicional vem sendo denominado como o início de uma nova “luta de classes” é, em grande parte, apenas a máscara do ódio da concorrência da classe média declinante que se refugia no neochauvinismo da crise da identidade masculina e no retorno à nostalgia nacional.
Embora essas relações sejam mais que evidentes, alguns pretensos críticos radicais vêm fechando simplesmente os olhos, sob o pretexto de que hoje as coisas seriam bem diferentes, e até um jornal diário de esquerda radical exigiu, por exemplo, a “desnazificação” do debate sobre as tendências de direita na crítica e nos protestos à reforma Hartz. O assim chamado período da “desnazificação”, pretexto para um recomeço depois de 1945, foi muito mais uma espécie de faxina superficial dos velhos quadros do Partido Nacional Socialista. Mas agora o emprego desse termo visa a uma espécie de faxina dos “sentimentos sociais” contra o liberalismo de suas próprias colorações rassistas e chauvinistas, para se engajar de maneira “imediata” a uma resistência social não existente. A verdade banal de que a história não se repita é assim instrumentalizada, para subestimar as atuais tendências reacionárias na crítica social nas novas condições da crise.
O declínio da Alemanha e a crise da União Européia devem oferecer ao Sul globalizado uma imagem tenebrosa. A ilusão ótica de uma riqueza durável e de um conforto pulverizam-se. Quanto mais o Terceiro Mundo se faz visível no primeiro, torna-se cada vez mais questionável a orientação dos modelos sociais do centro capitalista. Não é mais o Norte que mostra a Sul seu modelo de desenvolvimento, mas exatemte o contrário: o Sul mostra ao Norte o futuro da crise. O mundo moderno do “trabalho abstrato” e da “riqueza abstrata” está à disposição na crise mundial do século 21. Uma nova perspectiva emancipatória para além do sistema de produções de mercadorias somente poderá ser atingida, quando as tendências bservadas em todas as partes a uma renacionalização ideológica forem radicalmente criticadas. O liberalismo obstinado das classes globalizadas, de um lado, e a nostalgia nacional das classes médias declinantes, por outro, não constituem nenhuma alternativa aceitável.
Versão integral de minha tradução publicada no caderno Mais! em 18.09.2003 sob o título de "A Ressaca do Fordismo"
Eleições de hoje na Alemanha expõem o que a sincronia das crises no Sul, do modelo soviético e nos países centrais nos anos 80 já indicava -o Estado de Bem-Estar não passou de realização efêmera do pós-guerra
ROBERT KURZ
COLUNISTA DA FOLHA
Durante muito tempo pareciam bem definidas aquelas fronteiras entre a miséria em massa e as relativas condições de bem estar coletivo. A linha demarcatória separava essencialmente o Norte do Sul do planeta. Essa constelação foi apenas, no entanto, um produto da história depois da Segunda Guerra. Nos centros capitalistas, a mobilização das indústrias fordistas desencadeou um impulso sem precedentes de ocupação em massa e acumulação de capital, vinculados à ascensão dos sindicatos e da social democracia. A “mobilização automotiva” da sociedade ia a par com a construção crescente de uma rede de seguridade social (“Welfare State”), especialmente profunda na Alemanha Ocidental e, em parte, na França. Até mesmo no espaço do liberalismo econômico tradicional anglo-saxônico, os governos trabalhistas na Grã-Bretanha e a “Grande Sociedade” do presidente Johnson, na tradição do “New Deal”, geravam novas estruturas sociais. O sociólogo alemão Ulrich Beck descreveu a ascensão social na era fordista do pós-guerra como “efeito elevador”: apesar das permanentes diferenciações sociais, a sociedade, como um todo, era catapultada num patamar superior. Os salários reais aumentavam em muitas vezes, enquanto as jornadas de trabalho, de modo inverso, declinavam constantemente. A expectativa geral de vida aumentava para todos através de um sistema médico melhorado.
Foi essa prosperidade sem precedentes do Norte que se tornou o paradigma extremamente atrativo do “desenvolvimento” para os países do Sul global. “Desenvolvimento” significava senão realizar como programa social a perspectiva de uma modernização recuperadora e industrialização em categorias capitalistas. Nisso se manifestou um paradoxo histórico, pois enquanto no Sudeste Asiático e na África ainda eclodiam as últimas guerras de descolonização, e simultaneamente, nos países já descolonizados, articulavam-se os movimentos contra a dependência econômica da Europa Ocidental e dos Estados Unidos, o paradigma do desenvolvimento dos centros capitalistas era ainda, contudo, o modelo a ser trilhado. Os ex-colonizados desejavam crescer nas formas sociais dos antigos senhores.
Descolonização e esforços de independência econômicos eram determinados pelo desejo de atingir, por conta própria, a almejada prosperidade fordista e seu correlato patamar de consumo de massa, mesmo quando, a contragosto da superpotência americana, mecanismos de capitalismo de Estado em moldes sovíéticos fossem preferidos. Uma alternativa histórica para a mobilização do “trabalho abstrato” e da “riqueza abstrata”, como Marx denominara a lógica do moderno sistema de produção de mercadorias, não foi, no entanto, cogitada em nenhuma parte. Enquanto os centros capitalistas, em especial nos Estados Unidos, projetavam para fora a imagem política inimiga para os movimentos sociais do Sul, importavam-se, simultaneamente, as estruturas da reprodução capitalista: o moderno trabalho assalariado e a apenas aparente isonomia burguesa da relação entre os gêneros, bem como os padrões e a imaginação do consumo ou o modelo do “Welfare State”. Independentemente de orientação política durante a Guerra Fria, os “milagres econômicos” no Japão e, sobretudo, na Alemanha, eram tidos como os modelos secretos.
Mas a Era de Ouro fordista do pós-guerra permaneceu, no entanto, para os países pós-coloniais do Sul uma miragem. A tarefa de uma industrialização recuperadora, consumo de massa e “Welfare State” logrou apenas, por um curto período, e em formas de segunda mão. A distância que os separava dos centros já era muito grande, os custos prévios do “desenvolvimento” revelaram-se muito altos. O resultado foi um endividamento externo crescente. Quando a terceira revolução industrial da microeletrônica aposentou o fordismo, os custos operacionais e sociais da inovação aumentaram de tal forma, que não apenas os modelos de desenvolvimento nacionais do Sul quebraram, mas também a parte do socialismo de Estado do Norte não o pode mais acompanhar.
De fato, essa tendência ruinosa poderia ter se tornado claramente visível de duas maneiras: em primeiro lugar, a tentativa de imitação de formas industriais, sócio-econômicas e da Europa Ocidental e dos Estados Unidos já fracassara para a maior parte da humanidade; em segundo lugar, com o fim da União Soviética e da RDA, a crise deste tipo de sociedade já havia penetrado o Norte globalizado e também tinha que atingir seus próprios centros. Em vez disso, a expansão da crise foi apreendida exatamente de modo invertido com os óculos dos velhos antagonismos, como se o capitalismo original fosse o grande vencedor da História e todos os retardatários tivesssem que duplicar ou triplicar esforços na cópia desse modelo. Na perspectiva das regiões em colapso pela crise global, vigoravam ainda, no centro do capitalismo, aquelas supostas condições “paradisíacas” de prosperidade fordista, pelo menos se confrontadas com a própria miséria local. Mas isto era apenas uma ilusão ótica.
Na realidade, a crise da terceira revolução industrial já vinha há muito minando o corpo social do capitalismo original. Já no início dos anos oitenta, a “plena ocupação” fordista convertera-se num desemprego estrutural em massa. Através dos novos potenciais de inovação, o patamar desse desemprego estrutural aumentava de ciclo em ciclo. Rápida desativação de postos de trabalho e crescente subocupação constituem apenas o reverso da medalha de uma acumulação insuficiente de capital, do qual, em última instância, depende o “Welfare State”. A rede social expandida do “boom” fordista começara a se romper, executada através de contra-reformas neoliberais. Não é surpresa que Estados Unidos e Reino Unido, através da “Reaganomics” e do Tatcherismo, sejam seus predecessores e retornassem, dessa forma, apenas às suas respectivas tradições do mercado radical. Mas na Europa continental, essas contra-reformas encontravam ainda resistência. As origens do Estado de Bem Estar na França remontam até a Grande Revolução e, na Alemanha, às reformas sociais de Bismarck e ao período guilhermino. Ainda nos anos noventa, os modelos de Estado de Bem Estar francês e alemão, o assim chamado “capitalismo renano”, eram considerados como uma alternativa à “Revolução Neoliberal” anglo-saxônica.
O processo de crise da terceira revolução industrial supera, contudo, facilmente, todas as fronteiras nacionais, históricas e culturais. A lógica geral capitalista repousa mais fundo que qualquer “modelo” político econômico específico. Mesmo o tão caracaterístico Estado do Bem Estar Social alemão, que parecia construído para a eternidade, erodia-se irreversivelmente na era do Chanceler conservador Helmut Kohl nos anos oitenta e noventa. Nesse período, o desemprego atingia, sobretudo, as camadas menos qualificadas do mercado, pessoas de escolaridade incompleta e trabalhadores de fábrica sem formação técnica. Os benefícios sociais foram reduzidos ou eliminados apenas para a base da pirâmede social, isto é, respectivamente para aqueles sem renda, sem seguro privado, para incapacitados físicos, doentes mentais etc, mas sobretudo para mães solteiras. Através dos processos de “individualização” (Ulrich Beck) desde os anos oitenta, o núcleo familiar burguês reduzira-se, em camadas da população, a um “resíduo mãe-filho”. A nova miséria era ainda envergonhada, em primeira linha, uma miséria feminina e socialmente invisível.
Quando a coalização vermelho-verde de Schröder chegou ao comando, muitos acreditavam que o novo governo iria levar a sério as velhas reivindicações da geração 68 e deter o desmonte social ou mesmo, em parte, revertê-lo. Mas foi exatamente o contrário o que aconteceu. A coalização vermelho-verde, revelou-se, diante de renovados recordes de desemprego e sob a pressão da globalização precisamente como a vanguarda dos cortes mais radicais e extensivos já empreendidos no sistema social. Um amplo programa de medidas sob a rubrica de “Agenda 2010” foi elaborado. A espinha dorsal desse programa era o assim chamado “pacote de reformas Hartz”, que celebrizou a figura de seu mentor Peter Hartz, chefe da Comissão de Reforma. Com a entrada em vigor no início de 2005 dessa regulamentação já como “Hartz IV”, as parcelas e a duração do seguro-desemprego foram reduzidas drasticamente como nos países anglo-saxônicos e o benefício até então pago, em sua segunda fase, a saber, depois de um ano de desemprego, proporcional ao bruto do último salário, foi reduzido ao nível mais baixo da asssim chamada “ajuda social”, calculada com base num “mínimo para existência”.
Dessa forma, milhões de pessoas foram despejadas no piso da ajuda social que, no passado, era válida apenas para uma camada minoritária. Decisivo nesta novidade da reforma é que o benefício somente é pago, desde que o desempregado já tenha consumido até suas últimas reservas financeiras. A implementação desse critério serve a um sistema até agora desconhecido de controle desmoralizador. Os atingidos são obrigados a informar às autoridades, sem reservas, todas as suas relações pessoais. Exige-se inclusive a abertura das poupanças das crianças.
Para se compreeder o que esta acontecendo por aqui, seria preciso detalhar de maneira clara um pano de fundo social. O desemprego atinge a Alemanha, como em outros centros capitalistas, cada vez mais, as camadas “qualificadas”, técnicos, professores, assistentes sociais, advogados, médicos e parte do pequeno empresariado. É a derrocada da “novas classes médias”. O colpaso da nova economia em 2000 2001 e a transferência da produção de software para a Europa Central, Índia etc também sugou os especialistas em informática na corrente do abismo social. Pessoas que, no final dos anos 90, ainda sonhavam, sob o signo da economia da bolha financeira, em riqueza fácil, vêem-se, repentinamente. sem perspectivas e confrontadas com a miséria. O refluxo da acumulação capitalista atinge simultaneamente a esfera cultural: jornalistas, colaboradores, redatores de rádio, artistas, livreiros, funcionários de editoras e uma considerável parte do baixo clero acadêmico perdem sua base de existência.
E simultaneamente o desemprego crescente das camadas médias não pode mais ser amortecido socialmente pelo Estado. A administração da crise capitalista obriga a lançar mão de todas as formas de poupança privada, herança e patrimônio imobiliário, casas são leiloadas, melhores moradias têm que ser abandonadas por um aluguel mais baixo. A “gordura fordista” é consumida. Para dizer de maneira drástica: assim como no Terceiro Mundo, uma grande parte das camadas qualificadas e da inteligência vão sendo sucessivamente africanizadas. Relações precárias de trabalho, empreendimentos capengas e serviços miseráveis proliferam-se. Cada vez mais pessoas são expelidas da esfera da produção da cultura para a circulação: venda algo ou morra, esta é a divisa.
De fato, há protestos contra esse desenvolvimento, mas sem nenhuma solidarizaração geral. Ao invés disso, radicaliza-se a luta pela concorrência e defesa do próprio status. As “reformas Hartz” são elas mesmas uma expressão disso. Peter Hartz, o “spiritus rector” dessa medidas, desenvolveu sua agenda como diretor de pessoal do conglomerdado Volkswagen, como membro do Partido Social-Democrata e do sindicato IG Metall. Justamente o conglomerado Volkswagen sempre encarnou o assim chamado “Modelo Alemanha SA”, como uma integração nacional de capital financeiro, sindicatos, consumo de massas e Estado Social, tendo como base nada menos daquilo que poderia ser denominado de racismo. Não é à toa que a Volkswagen tenha sido um dos fundamentos do Nacional Socialismo hitlerista. A mobilização fordista e “automotiva” da sociedade realizava-se em nome do povo alemão e da comunidade popular do sangue como programa racista e anti-semita. Depois de 1945, esse modelo foi saneado economicamente e individualizado, sem trabalhar criticamente a história de sua fundação.
Hartz tornou-se o símbolo da demissão desse modelo ordenada “de cima”. O capital financeiro desnacionalizado perdeu sua capacidade de integração social. A classe globalizada de todos os grupos sociais, incluindo aí os próprios sindicatos, retira-se no papel de “global players”, o gereciamento das matrizes dos conglomerdados, universidades de elite e o resto daqueles que ganham melhor. As infra-estruturas são desmanteladas e limitadas a algumas regiões metropolitanas. Uma minoria reduzida da sociedade insula-se, assim como nos Estados Unidos e nas megalópolis do Terceiro Mundo, surgem também na Alemanha aquelas perigosas “No Go Areas”, de um lado, e guetos de luxo, de outro, com serviços privados de segurança, não apenas na capital Berlim. Segundo dados da Federação das Secretarias de Bem Estar, desde o início da reforma Hartz, a miséria atingiu uma tal dimensão como nunca na história alemã recente. E essa miséria, que sempre fora bem camuflada na Alemanha, começa cada vez mais a mostrar sua face: desabrigados não já não passam mais despercebidos, bem como cada vez mais crianças de rua. Por aqui, reconhecemos o pobres sobretudo pelas roupas amarrotadas e pelos dentes esburacados, já que o tratamento dentário e obturações foram cortados da lista dos benefícios cobertos do seguro médico legal.
Na França e demais países da União Européia, vão se consumando processos similares. A Alemanha, como potência econômica central, dá o ritmo, por último, até na derrocada. A miséria social e econômica tornou-se de repente na Grande crise da União Européia, cujo processo de integração parecia até há pouco irreversível. Neste ínterim, as maiorias sociais empobrecidas e ameaçadas pela miséria enxergam no forte neoliberalismo do Comissariado Europeu com sua burocracia supranacional apenas o instrumento da globalização, através do qual se destrói o bem estar. Com o grande “Não” nos referendos ao projeto de constituição da União Européia na França e na Holanda esse sentimento desafogou-se. E na Alemanha, onde o projeto não foi submetido à votação, o resultado não teria sido outro. A classe política na União Européia lamuria-se de seu “povo” insensato. Mas, na realidade, os governos nacionais procuram há tempos, cada um à sua maneira, diante das contradições, refugiar-se no velho cesto nacional. Os êxitos dos arrivistas populistas de direita dão as cores da classe política em geral, entalada entre mercado desenfreado, pretensões nacionais e a burocracia econômica da União Européia.
Lá embaixo, na base da sociedade, mostra-se na União Européia, cada vez mais, bem como acima, na administração e na política, diante dessa miséria crescente, uma forte tendência à renacionalização, que rompa com a realidade da economia global. Mas não há mais retorno para um bem estar integrado nacional para fora. O pensamento reacionário está sempre fadado ao fracasso, mas, assim como antes, ele ainda pode produzir enormes estragos. O “Não” à constituição neoliberal da União Européia não tem nenhum conteúdo libertador. Ele foi, em primeira linha, um retroceso obstinado a posições racistas e nacionalistas no mais fundo rincão do centro social. Não se trata aqui da articulação de uma resistência social geral, mas de uma luta pelas linhas de demarcação da exclusão social.
Em primeiro lugar, a classe média qualificada declinante não quer se alinhar às camadas mais baixas e rebela-se em ser degradada ao nível destas. Em segundo, a miséria nacional de todas as classes volta-se contra os estrangeiros, pessoas de outras etnias, asilantes e imigrantes. Em terceiro, justamente entre acadêmicos e técnicos qualificados, o descenso social exprime-se também como crise da identidade masculina, que neles começa a se manifestar. Em todos os domínios sociais e instituições dissemina-se um chauvinismo sexual e o “mobbing” contra mulheres está na ordem do dia.
Na Alemanha, o fantasma de Peter Hartz, como miséria ordenada, vem assombrando o país. Na linguagem cotidiana, o nome já é hoje até empregado para amedrontar as crianças, como antes a história do bicho-papão. A moral irônica nessa história é que em junho de 2005 Hartz tornou-se o centro de um escândalo de corrupção na Volkswagen, que deu ensejo a uma investigação do Ministério Público. A velha simbiose entre capital financeiro de bancos, gereciamento e caciques políticos da Baixa Saxônia, sindicatos e barões da pelegagem do conglomerado decompôs-se moralmente no processo de globalização. As investigações revelaram ente outras coisas firmas fantasmas na Índia, nas quais o chefe do conselho de empregados Volker participara, um amigo íntimo de Gehard Schröder. Houve também, além disso, prestações de contas hiperfaturadas, sem comprovantes, utilizadas para o pagamento de prostitutas de luxo no Brasil às custas do conglomerado, bem como propina e outras coisas menos palatáveis. Hartz teve de renunciar de maneira desonrosa e já vozes se levantam para redenominar as reformas neoliberais, a fim de que elas não estejam mais impregnadas pelo ódio àquele que se transformou no “Judas de Malhação” nacional.
É a velha “Alemanha SA” que vai sendo finalmente liqüidada em todas as perspectivas, pois não encontra mais fundamento na realidade da crise global da terceira revolução industrial. A reforma “Hartz” e o “Caso Volkswagen” representam apenas a matrix de um desenvolvimento geral. Mas a consciência das massa não quer se confrontar com a realidade, mas aspira nostalgicamente pelo Marco alemão e pelo velho status quo. Essa renacionalização ideológica da crise desperta os demônios do passado. A irrealidade do assim chamado modelo “Alemanha SA” conjura em seu colapso a origem do nacional socialismo hitlerista. Naturalmente o elevador da história não desce para o passado, mas, de fato, para o fim do processo de modernização e de toda a prosperidade. Os sentimentos anti-semitas e rassistas não são mais organizados pelo Estado como na Crise Mundial dos anos trinta, mas aparecem agora fragmentados e individualizados como a miséria. Nem por isso são menos perigosos.
Neste clima reacionário em vez de emancipatório contra o neoliberalismo, as fronteiras entre direita e esquerda tornam-se cada vez mais fluidas. Grande parte dos políticos de esquerda vem nadando aberta um envergonhadamente na ressaca ideológica da renacionalização. Uma dissidência de esquerda do Partido Social Democrata, sob a égide de seu antigo Chefe Oskar Lafontaine, hoje fundida na mesma chapa ao Partido do Socialismo Democrático (PDS), que, por sua vez, era a sigla redenominada do antigo Partido do Estado, o SED, da Repúplica Democrática Alemã, vem crescendo nas pesquisa de voto ano e tem boas chances nas eleições antecipadas de outono.
Mas não se sabe bem ao certo o quanto de direita existe nessa esquerda. Lafontaine, com suas investidas contra os “trabalhadores estrangeiros” (uma palavra do jargão nazista), está angariando cada vez mais votos do espectro da direita radical hostil aos estrangeiros. Segundo uma pesquisa sociológica publicada em junho de 2005, pelo menos 20% dos membros dos sindicatos pensam de maneira anti-semita e nacionalista. Aquilo que para a esquerda tradicional vem sendo denominado como o início de uma nova “luta de classes” é, em grande parte, apenas a máscara do ódio da concorrência da classe média declinante que se refugia no neochauvinismo da crise da identidade masculina e no retorno à nostalgia nacional.
Embora essas relações sejam mais que evidentes, alguns pretensos críticos radicais vêm fechando simplesmente os olhos, sob o pretexto de que hoje as coisas seriam bem diferentes, e até um jornal diário de esquerda radical exigiu, por exemplo, a “desnazificação” do debate sobre as tendências de direita na crítica e nos protestos à reforma Hartz. O assim chamado período da “desnazificação”, pretexto para um recomeço depois de 1945, foi muito mais uma espécie de faxina superficial dos velhos quadros do Partido Nacional Socialista. Mas agora o emprego desse termo visa a uma espécie de faxina dos “sentimentos sociais” contra o liberalismo de suas próprias colorações rassistas e chauvinistas, para se engajar de maneira “imediata” a uma resistência social não existente. A verdade banal de que a história não se repita é assim instrumentalizada, para subestimar as atuais tendências reacionárias na crítica social nas novas condições da crise.
O declínio da Alemanha e a crise da União Européia devem oferecer ao Sul globalizado uma imagem tenebrosa. A ilusão ótica de uma riqueza durável e de um conforto pulverizam-se. Quanto mais o Terceiro Mundo se faz visível no primeiro, torna-se cada vez mais questionável a orientação dos modelos sociais do centro capitalista. Não é mais o Norte que mostra a Sul seu modelo de desenvolvimento, mas exatemte o contrário: o Sul mostra ao Norte o futuro da crise. O mundo moderno do “trabalho abstrato” e da “riqueza abstrata” está à disposição na crise mundial do século 21. Uma nova perspectiva emancipatória para além do sistema de produções de mercadorias somente poderá ser atingida, quando as tendências bservadas em todas as partes a uma renacionalização ideológica forem radicalmente criticadas. O liberalismo obstinado das classes globalizadas, de um lado, e a nostalgia nacional das classes médias declinantes, por outro, não constituem nenhuma alternativa aceitável.
Versão integral de minha tradução publicada no caderno Mais! em 18.09.2003 sob o título de "A Ressaca do Fordismo"
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