The technological imagination from the early Romanticism through the historical Avant-Gardes to the Classical Space Age and beyond
domingo, 22 de abril de 2012
Fatzer +- Keuner de Heiner Müller* (Revista SÍNTESES, Pós-Graduação IEL - UNICAMP. Vol 1. 1996)
José GALISI-FILHO
*Texto resultante da dissertação de Mestrado intitulada A constelação do Zénite: imaginação histórica e utópica em Heiner Müller - anos setenta e oitenta, apresentada ao Curso de Letras na área de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem - Unicamp, em 13 de dezembro de 1995, sob a orientação do Prof. Dr. Roberto Schwartz.
RESUMO: 0 dramatugo alemão Heiner Müller (Eppendorf, 1929 - Berlim, 1995) compreende o teatro como o "laboratório da imaginação social". Essa assertiva implica uma consideração e crítica de seus pressupostos materiais, do aparelho teatral como instituição e seus limites, avançando gradualmente até o Espírito da Época ("Zeitgeist"). Nesse sentido, a experiência dramatúrgica alude ao conjunto da experiência social como seu "órgão" de autoreflexividade democrática, não apenas como decalque do existente, mas como um instrumento de descoberta e extensão de suas possibilidades e do seu vir-a-ser, de suas reservas imaginárias. Em meio ao turbilhão de meios tecnológicos, o anacronismo da forma teatral permanece como uma das últimas formas de relação imediata de nossa espécie. A reflexão sobre o "texto" da História é, portanto, a matriz de seu projeto dramatúrgico e a maneira pela qual se tece representa a produção da própria subjetividade como uma consciência de si e dos estratos que compõe sua temporalidade impura; mas é também a produção de seu "inconsciente ", de seus recalques e do esquecimento. O relógio da História, para Müller, corre em sentido inverso do presente até atingir a estrutura mitológica que "fecunda ", por assim dizer, este texto. Equilibrando-se entre a reflexão histórica, saturada de presente e articulada numa complexa noção de material artístico como "fragmento sintético" - um trabalho sobre as fraturas, descontinuidades e imprecisões das obras do passado, sobre a "inércia" que se revela em sua traditio -, e a necessidade em "olhar no branco dos olhos da Historia ", como entende a capacidade política em seu sentido pleno, além da gravitação das ideologias e da política como esfera da instrumentalidade e engenharia socialmente eficaz, o olhar de Müller para o zénite da História é a ruptura de sua continuidade, a primazia da visão epifânica que transfigura e intensifica seus significados. Para Müller, este instante não é produto do acaso mas, incorporando a noção de Carl Schmitt de seu ensaio Hamlet ou Hécuba: a irrupção do tempo no jogo, a formação de uma constelação trágica pela irrupção do tempo empírico na cena. Essa intrusão implode a moldura formal, colocando em movimento camadas profundas da experiência histórica sob o chão do presente. A afirmação de um sujeito histórico universal nos ensaios produzidos por Heiner Müller durante os anos setenta e oitenta é também correlata de um conceito de experiência genuína ("autentische Erfahrung") no campo da arte. Entretanto, a ênfase na substancialidade desse sujeito não resiste muitas vezes ao próprio paradigma intelectual em que se move e à maneira pela qual se articula, desfazendo-se como fantasmagoria. Os anos Honecker (1971-1989) caracterizam-se por uma deslegitimação progressiva da RDA nos planos interno e externo. Essa perda de horizonte utópico ("Utopieverluste") traduziu-se, em parcela considerável da inteligência leal da RDA, por uma conversão de paradigma conceituai ("Paradigmawechsel"). O foco da crítica desvia-se do campo do socialismo real para o âmbito civilizatório. Como parte desse complexo, pode-se pensar a dramaturgia de Heiner Müller como um instante privilegiado da apropriação de A Dialética do Esclarecimento (1947) na RDA, cujo impacto, embora tardio, foi decisivo nessa conversão. Antes de representar a recepção pontual de um livro, A Dialética do Esclarecimento parece oferecer anacronicamente as categorias práticas de uma experiência de secularização intelectual a toda uma geração, através da desilusão ("Enttäuschung") com um espaço político cada vez mais restrito e suplantado pelo gerenciamento tecnocrático da economia, depois do fechamento da fronteira em 1961. De modo mais atento, seria possível perceber na terminologia crítica de Müller a restauração de figuras típicas do pensamento vitalista alemão de fins do XIX, tangenciando muitas vezes um diagnóstico conservador de crítica à modernidade. Se a derrocada do socialismo não deixava outra alternativa senão o avanço civilizatório, o teatro tardio de Müller e sua reflexão invocam poderes elementares e um culto dionisíaco para conjurar o presente. Esse investimento semântico anacrônico é incompatível com o próprio caráter descontínuo de sua escrita, de sua fragmentação. Contabilizando também para si a vantagem de estar à margem do debate ideológico, a noção de experiência em ti einer Müller transita em um "jargão de autenticidade" (Adorno) que extropola do campo da crítica estética para implicar o conjunto da cultura como "corretivo" de suas reservas utópicas. Essa incongruência é o foco de minha análise.
No conjunto da produção ensaística de Heiner Müller, Fatzer+- Keuner ocupa uma posição estratégica, delineando, em muitos níveis, a organicidade de sua articulação ao projeto de Brecht, com ênfase à fase tardia da RDA, após o retorno do exílio (1949). Elaborado em 1980, pode ser considerado como a "suma" da relação de Heiner Müller com as linhas de força do material brechtiano.
A formulação polar do texto é indicativa de uma síntese impossível fora do território do "clinch", o "corpo-a corpo" histórico. As figuras de Keuner e Fatzer espelham a unidade contraditória do projeto, duas atitudes ("Haltungen") no interior do mesmo material, dois vetores e uma simetria, que, muito além de indicar dois momentos extremos da carreira de Brecht, são a própria estrutura de sua experiência. Não se trata apenas de limites temporais polares, mas da própria lógica extrema a que esse material está submetido pelas pressões de uma temporalidade histórica destrutiva, que foi o caminho da Alemanha para a anarquia e destruição generalizada.
De um lado, a "Untergang" do anarquista e desertor Fatzer (1) ("o filho rebelde"), no limiar da gestação da Lehrstück (peça didática), abandonada pela dramaturgia épica do exílio; de outro, o pensador Keuner, cuja "sabedoria" e "pose clássica" são antecipações do funcionário da máquina cultural estalinista. Essa "guinada" opera-se à revelia do sentido totalizante e orgânico que Brecht imprimiu a seu projeto, pela leitura retrospectiva que as categorias marxistas lhe ofereciam no prefácio às suas primeiras peças, já pelo fim de sua carreira.
Ao aproximar as duas figuras como "grandezas" polares, Heiner Müller resguarda o que acredita ser o "núcleo teológico incandescente" (expressão de Adorno a propósito da compreensão de Benjamin do marxismo, em carta de 02.08.1935) da obra de Brecht, justamente a partir de duas experiências que não amadureceram abortadas pela História, permanecendo fragmentos genuínos. A simetria entre ambas, antes de ser uma afirmação da "plenitude" e da "maturidade'" do projeto tardio, é o reconhecimento das descontinuidades que o motivaram e das soluções de compromisso que o afastaram de seu plano inicial, isto é, da gravidade da "matéria alemã": o colapso da República de Weimar (Fatzer) e o levante operário de 17 de junho 1953 contra a elevação das normas do trabalho pelo SED (Partido da Unidade Socialista) - na tentativa da biografia histórica do stakhanovista Hans Garbe, "Herói do Trabalho" em 1949, um dos mitos fundadores da jovem República (fragmento Büsching) -, reprimido por tanques soviéticos, a operacionalização de um "projeto" e de uma "suma" através da categoria de totalidade que engendra na obra sua própria pedagogia, e o reconhecimento tardio de que a "classe" não passava de uma "ficção" em 1953; o anarquismo como dimensão pós-burguesa da experiência no drama da deserção (Fatzer, 1927-1931), e a constatação final, segundo uma intuição já antiga de Brecht, de que a classe operária alemã fora disciplinada pela indústria de guerra fascista (fragmento Büsching, 1951-1954), pois suas energias teriam sido "drenadas" no instante em que estavam maduras para a revolução, o que explicaria a ferocidade desta mesma máquina de guerra; a "nova miséria alemã" na "hora zero"; em ambos os extremos, coalizões inusitadas, preparando o artesanato da guerra civil. Fatzer e Büsching como espectros da anarquia, diluindo-se antes que atingissem um patamar artístico reproduzível e de se configurar como forma, ameaçando, assim, a disciplina partidária do funcionário da máquina cultural estalinista; keuner, o aforismo como compromisso e racionalização.
Os pontos de intervenção de Heiner Müller sobre o material brechtiano poderiam, dessa forma, ser condensados em dois eixos complementares:
1) o repertório épico desenvolvido no exílio corresponde à necessidade histórica em racionalizar a luta de classes na perspectiva da luta contra o fascismo. Este influxo externo traduz-se como uma vigorosa disciplina artística no trabalho com os materiais e num alto patamar técnico, cada vez mais modelar e assimilável pela grande empresa teatral. Mas a certeza de Brecht da vitória sobre o fascismo significava também a unidade do desenvolvimento histórico, que desmentiu uma por uma de suas premissas, em especial sua convicção na existência de uma "classe" operária como virtualidade desse desenvolvimento e como totalidade. Esse distanciamento da realidade alemã, respaldado por uma compreensão economicista do fascismo, determinará uma representação ideal e abstrata de seus mecanismos de cooptação do imaginário das massas, muito distante de sua forma de "aparição concreta", tendendo para o "naturalismo" (Terror e Miséria); em outras palavras, a dramaturgia épica engessa-se gradualmente na forma do aforismo e nos gestus da sabedoria;
2) esse "naturalismo" significa, para Müller, a exclusão do autor da realidade de seu próprio material, uma "Austreibung des Autors" (expulsão do autor) de seu próprio território e verossimilhança, o que se torna patente na representação do fascismo em Terror e Miséria (1938); a disciplina e o acabamento artísticos determinaram um fechamento da forma que se torna insuficiente para capturar as novas contradições emergentes.
Este diagnóstico de Müller é o ponto a partir do qual pretende realizar uma negação determinada da "intenção"/atitude de Brecht diante da "matéria genuína alemã" por excelência, isto é do fascismo, trabalho que amadureceria em Die Schlacht (A Batalha), em 1975. Heiner Müller denomina essa redução de "fragmento sintético", uma forma de engendrar a descontinuidade no interior da representação, estabelecendo uma homologia estrutural com a experiência histórica de todos os fracassos sociais acumulados na história alemã.
1. Fatzer é um complexo de fragmentos escritos entre 1927 e 1931, combinando em sua estrutura materiual dramático e reflexivo. Brecht publicou apenas três cenas no primeiro caderno de seu Versuche (o 12. e último volume da edição Teatro Completo de Brecht, editado pela Paz e Terra, traz esses fragmentos em tradução de Ingrid Dormien Koudela, no original: GW 7, 2893-2912). Fatzer nunca ganhou contornos definitivos, e nem mesmo poderia ser considerado, de acordo com as exigências da reprodutibilidade de modelos do teatro épico, um produto acabado. Mas existe uma coincidência cronológica entre os Versuche, a assimilação de Brecht ao corpus doutrinário do marxismo, a derrocada da República de Weimar e o cerco que o fascimo imporá à inteligência de esquerda.
A situação de sítio e capitulação parecem fornecer a tônica. Quando publicou Die Massnhame (A Decisão), Brecht decidiu-se por abandonar o texto. No âmbito dos estudos brasileiros, para uma compreensão exaustiva e de rigor filológico do complexo didático de Brecht é imprenscindível a leitura do trabalho de Ingrid Dormien Koudela: Brecht: um jogo de aprendizagem, São Paulo, Perspectiva, 1991. O trabalho de Ingrid oferece um amplo painel do problema e a tradução de muitos textos inéditos indispensáveis para se compreender o caráter estratégico da dramaturgia didática no projeto brechtiano. A fábula da peça foi assim descrita por Brecht (op.cit. p. 41-42): "Em Müllheim, no Ruhr, ocorreu, no tempo despido de toda moral da Primeira Guerra Mundial, uma história entre quatro homens, que culminou com a total destruição de todos os quatro, mas que, em meio a assassinato, quebra de julgamento e perversão, mostrava os rastros sangrentos de uma nova moral. No terceiro ano da guerra, desapareceram, durante o ataque diante de Verdun, quatro homens, a tripulação de um tanque. Eles foram julgados mortos e apareceram, no início de 1918, secretamente em Mülheim, onde um deles possuía um quarto e um celeiro. Diante da ameaça constante de serem presos e executados como desertores, era-lhes difícil arrumar o sustento, tanto mais quanto eram quatro. Decidiram, no entanto, não se separar, já que sua única perspectiva era que uma revolta do povo terminasse a guerra insensata e aprovasse a deserção. Sendo quatro, esperavam poder auxiliar a revolta por eles esperada.
Durante duas semanas, procuraram noite após noite, alguma possibilidade de garantirem o abastecimento. Só perto do final do segunda noite, o mais esperto deles, Johann Fatzer, que os havia aconselhado a desertar, conheceu um soldado que lhes prometeu arrumar alimento. No noite seguinte, os quatro deveriam aparecer, guiados por Fatzer, na estação ferroviária. Embora cudo tivesse sido combinado com detalhes, o empreendimento foi por água abaixo porque Fatzer não apareceu na hora combinada. Intimado a falar, usou desculpas e, quando os outros insistiram, recusou-se a dar qualquer resposta com a observação de que não devia resposta porque era um homem livre. Prometeu no entanto voltar na noite seguinte, o último prazo, já que o trem com mantimentos partiria no dia seguinte. Mas nessa noite Fatzer tampouco apareceu." Enquanto "experimento" ("Versuch"), Fatzer seria o vestíbulo e laboratório de novas formas dramáticas, não necessariamente passíveis de serem apresentadas. A moralidade desta pequena coletividade sitiada pela guerra prenunciava um novo patamar para as relações sociais, emancipadas do lastro da experiência burguesa. O egoísta Johann Fatzer representa, portanto, o espectro do anarquismo na figura do "filho rebelde", mantendo uma analogia com a primeira fase de Brecht, que é sua passagem de Augsburg para a metrópole Berlim. Mas este projeto foi abortado historicamente com a ascensão do fascismo e exigiu de Brecht um alinhamento não apenas partidário, mas um fechamento formal que a moralidade de Fatzer não lhe permitia na forma da fábula, nas palavras de Müller, no exílio formal da fábula e na fuga para a classicidade. No limite de uma nova sociabilidade, Fatzer permanecerá um fragmento genuíno e não-intencional. Ao relacionar dois pontos extremos da carreira de Brecht, Heiner Müller deduz dessa conversão a própria organicidade de seu projeto em relação a seu mestre.
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Fatzer +- Keuner (1)
Eu cago
para a ordem do mundo
eu estou
perdido.
A ausência de revolução burguesa na Alemanha possibilitou e, simultaneamente, exigiu o classicismo de Weimar como supressão/conservação/elevação ("Aufhebung") das posições do Sturm und Drang. O classicismo como substituto ("Ersatz") da revolução. Literatura de uma classe vencida; forma como compensação; a cultura como maneira de se relacionar com o poder e veículo de falsa consciência. A opção consciente de Goethe pelos jambos de Ifigênia contra os tecelões famintos de Apolda é paradigmática. O desastre de mais pesadas conseqüências da História recente talvez tenha sido o fracasso da revolução proletária na Alemanha e seu estrangulamento pelo fascismo. Sua conseqüência mais grave: o isolamento do experimento socialista na União Soviética, num campo experimental em condições não desenvolvidas. As conseqüências são conhecidas e não foram superadas. A amputação do socialismo alemão através da divisão da nação não está entre as piores. A RDA pode conviver com ela.
Para Brecht, a expulsão da Alemanha, o afastamento das lutas de classe alemãs e a impossibilidade de prosseguir seu trabalho na União Soviética significaram a emigração para o classicismo. Os Ensaios 1 - 8 contêm, quanto a uma possível eficácia política imediata, a parte viva de seu trabalho, seu núcleo teológico incandescente ("teologischer Glutkern"), no sentido em que Benjamim compreendia o marxismo.
Hollywood tornou-se a Weimar da emigração antifascista alemã. A necessidade de silenciar sobre Stalin, cujo nome, enquanto Hitler estava no poder, era sinônimo de União Soviética, tornava necessário o recurso à universalidade da parábola. Os diálogos de Svendborg referidos por Benjamin informam sobre isto.
A situação da RDA no contexto nacional e internacional durante a vida de Brecht não lhe ofereceu nenhuma saída do dilema clássico.
Entre os temas discutidos em Svendborg entre Brecht e Benjamin estava Kafka. Nas entrelinhas de Benjamin, surge a questão de saber se a parábola kafkiana não é mais ampla, se não é capaz de compreender mais realidade (e dá mais de si) que a parábola de Brecht. E isto, não apesar de, e sim porque justamente ela descreve/expõe gestos sem sistema referencial, não orientada para um movimento (praxis), não redutível a uma significação, é antes mais estranha que alienante, é sem moral.
Os desmoronamentos da História recente causaram menos estragos ao modelo da Colônia Penal que ao edifício dialético ideal das peças didáticas. A cegueira da experiência kafkiana é a legitimação de sua autenticidade. (O olhar de Kafka como olhar para o Sol. A incapacidade de olhar no branco dos olhos da História como fundamento da política.) Apenas a pressão crescente da experiência autêntica, supondo-se que ela 'contagie as massas', desenvolve esta capacidade de encarar o branco dos olhos da História, que pode ser o fim da política e o começo de uma História do homem. O autor é mais inteligente que a alegoria; a metáfora, mais inteligente que o autor.
Gertrude Stein, num texto sobre a literatura elisabetana, explica sua violência pela velocidade da mudança de sentido na linguagem: 'Tudo se movimenta intensamente". A mudança de sentido é o barómetro da pressão da experiência na aurora do capitalismo que começa a descobrir o mundo como mercado. A velocidade de mudança de sentido institui o primado da metáfora, que serve de filtro visual ao bombardeio das imagens: "pressão da experiência impele a linguagem para a poesia" (Eliot). O temor à metáfora é o medo do movimento autônomo do material. O medo da tragédia é o medo da permanência da revolução.
Lembro-me de uma observação de Wekwerth na preparação de sua montagem de A Santa Joana dos Matadouros. Dependia daquilo que Brecht havia esclarecido: obscurecer para que possa ser visto novamente; Hegel: o familiar/conhecido ("Bekannte") não é reconhecido ("erkannte") etc. A história das esquerdas européias faz pensar se também Hegel, neste caso, não deve ser revisado. Ainda aparecem, "repentinamente", zonas de sombras desconhecidas em cada território que o Esclarecimento colonizou. A aliança com o racionalismo sempre de novo desguarneceu as costas da esquerda aos punhais da reação, preparados nessas zonas de sombra. O reconhecido ("Erkannte") não é familiar/conhecido ("bekannt")."
A insistência de Brecht, em suas últimas conversas com Wekwerth. na ingenuidade como categoria primordial de sua estética, elucida esta constatação.
A obstinação de Brecht em não compreender Kafka, ou ao menos em compreendê-lo erroneamente, deduz-se das anotações de Benjamin sobre as conversas de Svendborg.
Por volta de 1948, a NDR (Rádio Hamburgo) transmitiu um programa dedicado aos dois representantes da literatura engajada: o católico Eliot e o comunista Brecht. Uma frase de Eliot servia de gancho: "A poesia não importa" ("poetry does not matter"). Lembro-me de uma frase da entrevista com Brecht: a continuação, a continuidade, engendra a destruição. Mais tarde, num texto que fala da situação do teatro na Alemanha do pós-guerra, Brecht explicitou mais pormenorizadamente esta idéia: os escombros ainda não foram removidos, mas já se constroem novas casas sobre eles.
O paralelo é óbvio com a observação de Thomas Mann sobre a história alemã, segundo a qual nenhuma época foi vivida até o fim, porque nenhuma revolução foi bem sucedida, o que bem ilustra a fisionomia das cidades alemãs. Isto não quer dizer forçosamente que Brecht tenha lido o Faustus.
O germanista Gerhard Scholz relata uma conversa que teve com Brecht sobre o futuro do socialismo durante os anos de exílio comum na Escandinávia. Brecht polemizava, pelo menos em parte seriamente, contra a estratégia da "Frente Popular" com o sonho "fatzeriano" de estabelecer uma ditadura comunista (célula), por exemplo, em Ratibor ou outra cidade qualquer para estatuir um exemplo.
No mesmo ano de 1948, por ocasião de um debate com estudantes em Leipzig, Brecht assim formulava seus objetivos de trabalho na Zona de Ocupação Soviética: vinte anos de demolição ideológica e sua necessidade de dispor de um teatro para "a produção científica de escândalos", visando à divisão política de seu público, em vez de uma ilusória "unidade" na aparência estética. Em outras palavras, sua esperança num teatro político situado além das contingências do mercado.
Um teatro para o qual a contradição entre o sucesso ("Erfolg") e a eficácia ("Wirkung") seria uma oportunidade e não um dilema como na sociedade capitalista. Essa era uma antecipação, uma projeção sobre o futuro que, mesmo vinte e três anos após sua morte, ainda não se realizou. Os escândalos, como faísca de ignição do grande debate, não tiveram lugar no teatro, mas sim nos suplementos culturais dos jornais como um entrave à discussão. Teve-se que construir novas casa mais rapidamente antes que se pudessem remover os escombros. O estado de sítio em que se encontrava a RDA em virtude da Guerra Fria (e que permanece ainda entre as duas Alemanhas) exigia e exige a ideologia.
Entre o posicionamento de Leipzig e a frase do prefácio tardio às primeiras peças, que formula a renúncia ao ideal da tabula rasa, do puro modelo, assim formulado: talvez a História faça tabula rasa, mas ela teme o "vazio" deixado neste vácuo... encontra-se a experiência brechtiana da RDA. Uma parte essencial dessa experiência reside na descoberta da amabilidade como categoria política. O trabalho de Brecht no teatro: uma tentativa heróica de desentulhar os porões, sem colocar em perigo a estabilidade das novas construções. (Esta formulação define o dilema fundamental da política cultural da RDA.) Nesse contexto, as adaptações dos clássicos não constituíam um desvio das exigências do momento, mas sim revisão do revisionismo do classicismo, ou seja, de sua tradição.
A dificuldade de Brecht em trabalhar sobre um material originário da própria RDA aparece claramente na história do projeto Büsching. O primeiro esboço tende para uma peça histórica: o operário (Garbe) como personagem histórico. Com uma diferença decisiva em relação a Plutarco-Holinshed-Shakespeare: o herói é seu próprio cronista. (Brecht solicitou a Käthe Rülicke que elaborasse o material, partindo dos relatos de Garbe, gravados em fita.) Essa diferença corresponde ao problema: o material não flui nos cinco atos, falta dramaticidade ao herói inconsciente, ou melhor, é necessário outro drama. Brecht havia elaborado seu arsenal de formas numa outra realidade, a partir da situação de classe e dos interesses do proletariado europeu anteriores à revolução.
Após a dizimação da vanguarda, a depravação das massas e a devastação do leste da Alemanha e da União Soviética pela Segunda Guerra, a revolução na RDA somente pôde ser realizada para e não pela classe trabalhadora. A ratificação posterior na consciência teve de ser exigida dela nas condições da Guerra Fria, num país ocupado e dividido, sob o matrequear cotidiano da publicidade dos milagres do capitalismo do outro Estado alemão, sucessor de direito do Reich, saneado e reduzido em suas dimensões em duas guerras mundiais. As categorias do marxismo clássico não são suficientes para compreender essa realidade: antes a prejudicam ("sie schneiden ins Fleisch").
Observando que o material não era suficiente senão para uma peça de um ato e que não existia qualquer possibilidade de conferir ao seu herói a escala expressiva de que necessitava para escrevê-la, ele, Brecht, abandonou primeiramente o projeto Büsching. Isso lembra a tese de Plekhanov sobre a falta de de interesse (positivo) do herói proletário, em oposição ao interesse negativo do herói burguês, sendo que a primeira qualidade do proletariado é sua quantidade e assim por diante... Brecht retomou o projeto, desta vez, sob a forma de uma peça didática "com coros" no estilo de A Decisão, depois de 17 de junho de 1953,
quando ele, pela primeira vez, ouvia os gritos e a marcha da "classe", como sempre depravada e manipulada por seus inimigos. A confrontação como possibilidade de abertura da "Grande Discussão", que é pressuposto do produção, permaneceu como fragmento.
As malhas de sua dramaturgia (de Brecht) eram bastante frouxas para o caráter microestrutural dos novos problemas: a própria "classe" já era uma ficção, na verdade, um agregado de elementos novos e velhos, justamente os operários da construção que haviam tomado a iniciativa da primeira greve na Avenida Stalin,
provinham, em grande parte, da classe média rebaixada: velhos oficiais do Exército, funcionários do Estado fascista, professores secundários e assim por diante, aos quais se juntavam membros fracassados da nova burocracia. O Grande Projeto fora enterrado pela tempestade de areia das realidades, não sendo possível compreendê-lo (pô-lo a descoberto pelo simples distanciamento), em que se baseia/depende da negação da negação. Nesse contexto, não deixa de ser interessante a utilização de Gerhart Hauptmann por Brecht e seu fracasso com a adaptação de Biberpelz e Roter Hahn: a violência do tribalismo e os terrores da província."
Os Dias da Comuna, escritos para o repertório de um teatro socialista, com a redução consciente do "nível técnico", está para socialismo real assim como Don Carlos para a revolução burguesa. Sua beleza é a beleza da ópera, seu pathos é o da utopia. Até sua morte, o próprio Brecht provavelmenete não viu nenhuma possibilidade de encenar esta peça sem prejuízo da realidade/eficácia ("Wirkung"). O momento da estréia no Berliner Ensemble em 1961, após o fechamento da fronteira, foi o primeiro possível. Na situação dada, não foi empregado o modelo que somente poderia ter sido utilizado com a posterior apresentação de novas peças. Como evento isolado, essa montagem vinha simultaneamente muito tarde e muito cedo: muitas possibilidades tinham sido perdidas, muitos problemas adiados.
Turandot, a última tentativa de Brecht de, com recurso à parábola, sanear a velha merda que ele via resurgir novamente, é um fragmento genuíno. A conclusão forçada da peça pelo recurso ao antifascismo, que, no que dizia respeito à RDA, aparece como álibi, destrói a sua estrutura. É possível que em outros contextos, ditaduras militares do Terceiro Mundo, por exemplo, essa fissura que atravessa a peça permita/libere um olhar daquilo que é o pressuposto de sua intervenção. Brecht: o que confere duração às obras de arte são seus defeitos.
O nome Büsching, como outros nomes do projeto Garbe, remetem ao material Fatzer, o maior esboço/projeto de Brecht, e o único texto no qual ele, como Goethe com o material do Fausto, permitiu-se a liberdade de experimentação, desonerando-se da obrigação de forjar um produto perfeitamente acabado para as elites contemporâneas ou do futuro, de embalá-lo e entregá-lo a um público, a um mercado. Fatzer é um produto incomensurável, escrito como exercício de autocompreensão. O texto é pré-ideológico, a linguagem não formula resultados do pensamento, mas sim o coloca de escanteio.
Ele tem a autenticidade do primeiro olhar sobre o desconhecido, o espanto da primeira aparição do novo. Com os tópicos do egoísta, do homem-massa, do novo-animal, aparecem, sob o modelo dialético da terminologia marxista, os princípios dinâmicos que, na História recente, perfuraram esse esquema. O gesto da escritura é aquele do investigador e não do erudito que interpreta resultados da investigação, ou do professor que os transmite. É neste texto que Brecht pertence menos aos marxistas que foram o último pesadelo de Marx (Por que não valeria também para Marx que o horror é a primeira manifestação do novo, o medo, a primeira configuração da esperança?) Com a introdução do personagem Keuner (metamorfose de Kaumann/Koch em Keuner) o projeto começa a fenecer em moralidade. A sombra da disciplina partidária leninista, Keuner, o pequeno-burguês com "look" de Mao, a máquina de calcular da revolução. Fatzer como a batalha de material entre Brecht e Brecht (= Nietzsche contra Marx, Marx contra Nietzsche). Brecht lhe sobrevive, por ter se excluído. Brecht contra Brecht, com a pesada artilharia do marxismo-leninismo. Aqui, nesta virada do anarquista em funcionário, compreende-se a crítica escarninha de Adorno sobre os aspectos pré-industriais da obra de Brecht. Aqui nasce, da impaciência revolucionária em face da imaturidade das circunstâncias, a tendência de se substituir o proletariado que desemboca no paternalismo, que é a doença dos partidos comunistas. Aqui começa, na defesa do matriarcado anárquico-natural, a transformação do filho rebelde em pai que consolidou o êxito de Brecht e impediu sua eficácia. A retomada da popularidade pela reintrodução do culinário (em seu teatro), que determina a última fase de seu trabalho, tornou-se uma antecipação no turbilhão embrutecedor dos mídias e em vista da fixação póstuma da figura do pai pela política cultural socialista. Aquilo que foi eliminado foi o presente, a sabedoria, seu segundo exílio.
Brecht, um autor sem presente, uma obra entre o passado e o futuro. Hesito em formular isto como uma crítica:
o presente é a época das nações industriais, a História por vir, assim espero, não será por elas realizada; dependerá de sua política se deve ser temida. As categorias de verdadeiro e falso passam à margem da obra de arte. A estátua da liberdade de Kafka enverga uma espada em vez de uma tocha. Utilizar Brecht, criticá-lo, é traição.
1. Heiner Müller, Rotwelch, pp. 140-149. Publicado pela primeira vez no Brecht-Jahrbuch 1980. Frankfurt (Main), 1981. Elaborado como contribuição ao encontro do 5o. Congresso Internacional Brechtiano na Universidade de Maryland. Titulo original: Fatzer+-Keuner. Esta tradução foi cotejada com uma versão publicada em Teatro na Alemanha 1960 - 1984, uma exposição do Instituto Goethe no Brasil. São Paulo, Instituto Goethe, 1984.
Publicado em Sínteses Teses. Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem, v.1, p.117 - 126, 1996.
sábado, 21 de abril de 2012
Die Heilige Familie: Germania Tod in Berlin - A Sagrada Família: Germânia-Morte em Berlim, Heiner Müller (Revista Vozes)
Apresentado por José Galisi Filho*
A sétima cena de Germania Tod in Berlin (Germânia - Morte em Berlim), 1976, descreve o surgimento da República Federal da Alemanha e talvez seja um dos momentos mais histriônicos da dramaturgia de Heiner Müller. A mobilidade das falas, o despudor verbal no limite da escatologia, a composição alegórica em clima surreal parecem até adequados ao tratamento farsesco do fascismo e exemplificam sua capacidade em elaborar, em feição grotesca, o topos da miséria alemã.
Se Germânia é, como observa Genia Shulz (Heiner Müller, Metzler Verlag, 1980), uma espécie de "Tratactus", um bestiário exemplar das taras nacionais, a cena ("paródia chapliniana") faz sentido como a exacerbação dessa intenção. As semelhanças de composição com Arturo Ui, de Brecht,
parecem evidentes, mas apontam em outra direção, pois sua comicidade não deriva de um contexto referencial e está bem longe de subestimar o inimigo. Na tradição cômica alemã contemporânea, são inequívocas também as afinidades com o grotesco de Ivan Goll.
Adorno desqualificava em Brecht a identificação sumária do fascismo a um suposto "truste da couve" (1). A redução estética deixa escapar a verdadeira dimensão do horror, que implica o movimento geral da sociedade e não aceita maniqueísmo, mesmo como estratégia de combate. Não se pode personalizar um princípio abstrato que permeia a trama social.
Essa fraqueza, que parece se estender a Santa Joana dos Matadouros, por exemplo, decorre da impregnação letal que os movimentos abstratos da esfera econômica impõem, escapando à descrição imediata. O preço, sem prejuízo do arranjo poético, é a inconsistência.
Heiner Müller sempre afirmou, como provocação, que a Alemanha Federal representava uma "empresa econômica saneada pelos aliados", reduzida a seu "núcleo econômico potente", no caso, o complexo industrial do Ruhr, que sobreviveu ao desmanche realizado pelos soviéticos em sua Zona de Ocupação.
Essa anistia moral e o fato de que, menos de quatro décadas depois do maior crime de sua história, reencontre sua hegemonia no coração do continente, constitui por si só um escândalo. O que se afirma no campo ideológico tem uma tradução estética de outra qualidade.
No terreno das interpretações recentes de Heiner Müller, merece destaque o trabalho filológico de Christian Klein, Heiner
Müller ou l'Iditot de la Republique (Peter Lang Verlag, 1993), um assentamento definitivo das dificuldades técnicas que cercam sua
dramaturgia e do emaranhado de equívocos críticos que vem
suscitando.
Envolvida numa partilha ideológica que não se encerrou com o desaparecimento da RDA, a obra de Müller é freqüentemente assimilada a clichês que oscilam entre a dissidência e a propaganda. Essa redução transformou-se em marca registrada de sua crítica. Uma decodificação imedita dificilmente deixaria de reconhecer em Müller os lugares-comuns da máquina de propaganda do SED, da RDA, durante os anos da Guerra Fria.
Klein lança uma nova luz sobre essa cena e aponta para o fato de que seu valor até agora é muito mais produto de uma distorção de perspectivas que de uma compreensão efetiva de seu real papel na economia do texto. Em certo sentido, e até o colapso do regime de Honecker em 1989, ela apenas foi entendida de modo afirmativo.
Quando se lê A Sagrada Família como tradução referencial do grotesco fascista e sua continuidade no suposto "lobo talidomida", lavado com OMO e em pele de cordeiro (RFA), o que invariavelmente é a tônica das encenações, solução fácil, para desagrado do autor e contra a intenção textual, perde-se o essencial numa simplificação que pouco tem a ver com sua elaboração da experiência fascista, um Trauerarbeit (trabalho de luto) sem tréguas contra a reincidência do passado.
A peça Germânia, que descreve a gênese da RDA, em especial, focalizando o levante de trabalhadores de 17 de junho de 1953, é composta segundo um princípio binário, em cenas pares (RFA/RDA), desde o fracasso da Revolução de 1918 até 1953. A Sagrada Família ocupa rigorosamente o centro e deveria se espelhar numa outra, o que não ocorre nas edições até agora publicadas e causa estranhamento.
Dentro de uma cronologia muito fluida na composição geral, ela aparece depois da morte de Stalin (Hommage a Stalin 1/2), numa espécie de celebração simbólica à perda do "grande Pai" e "assassino emérito dos povos", como Brecht sempre o denominou. Essa liberdade súbita desencadeia sentimentos adormecidos e ameaça a ordem colonial estabelecida. É justamente neste instante de perigo que a liderenca do SED (2) se vê forçada a reafirmar sua identidade imaginária. Para tanto, é preciso "exorcizar" o inimigo, torná-lo tangível.
A Sagrada Família ocupa, portanto, o "centro" da estrutura, a "hora zero" da história alemã, e a capacidade desagregadora que irradia estende-se ao conjunto.
Num dos protocolos de encenação (Berliner Emsemble), admite-se que esta cena poderia ser pensada como uma espécie de "missa negra" no interior do texto. No entanto, desde a estréia em 1978, em Munique, sob a direção de Ernst Wendt, o tom geral foi sempre farsesco, numa espécie de cabaré enlouquecido.
A cena era o clímax da primeira parte do espetáculo. Nessa montagem inicial, o nascimento da criança/lobo talidomida RFA, surgida da barriga de Goebbels, ocorria sobre a capota de um volks. Dessa forma, o foco parece recair sempre sobre a RFA, confirmando o imaginário oficial da liderança do SED sobre a "outra Alemanha", literalmente "devota do demônio" e do marco, sob o ditado imperialista de sua indústria automobilística.
Afinal, historicamente ela realizou a promessa do Führer de dar a cada alemão seu "Kaefer" (fusquinha).
Isso seria muito simples e reduziria os materiais de Heiner Müller à camada mais superficial. O problema é que a variante de A Sagrada Família, na perspectiva da RDA, nunca pôde ser encenada em função da censura, mas foi escrita e, como subtexto, lhe confere sentido real.
Esta cena apresenta Walter Ullbricht conversando com Thälmann, antigo secretário do Partido Comunista, morto num campo de concentração em 1944, ambos como sentinelas noturnas do muro, durante a visita de Kennedy a Berlim Ocidental, quando este pronuncia a célebre frase: "Ich bin ein Berliner" ("Eu sou um berlinense"). Esta cena deveria encerrar a peça, estabelecendo uma simetria com o centro. Ela demonstra que o propósito real de A Sagrada Família não é espelhar de modo imediato discursos, que, no plano ideológico, se afirmam como auto-evidentes, mas perceber o déficit de empiria em sua formulação.
Enfim, se consideramos sua comicidade como referencial, a visão do inimigo se empobrece. Na verdade, a ambiência de delírio que ela realiza é uma tradução mimética de como a própria RDA percebia o campo adversário, ou seja, um apanhado delicioso de todos os clichês do socialismo real sobre a natureza feroz do inimigo. Nesse sentido, seu foco não é simplesmente o espelhamento de um entrecho referencial,
como se a própria ideologia fosse idêntica à realidade, o que o fechamento da cena busca realizar, como suspensão da própria realidade histórica e do princípio da contradição. Essa identidade impossível está traduzida no seu maniqueísmo, nas simplificações absurdas que legitimaram o "Bauern und Proletarier Staat" ("O Estado Camponês e Operário"), também herdeiro do fascismo e especializado na "produção permanente de inimigos de Estado", nas palavras de Müller. De fato, como afirma Klein, o propósito de Müller não é oferecer uma imagem surreal da RFA, seu procedimento não se relaciona a uma realidade imediata, mas com uma representação caricatural dessa realidade.
Essa é sua lógica interna.
Quando desejamos compreender a estabilidade da RDA como fiadora do Bloco Oriental, sua resistência à perestroika até a sua completa desagregação, é preciso buscar explicações em continuidades históricas que jazem muito além da mera causalidade econômica, ou de razões estratégicas.
A liderança do antigo SED, formada em anos de exílio ou nas prisões, sempre considerou a maioria da população como suspeita de colaboração com o regime nazista, sobretudo em função do dinamismo de sua máquina de guerra.
Ninguém tinha coragem de formular esse impasse claramente; na verdade, essa era uma das perguntas mais importantes que Brecht deixara em aberto antes de sua morte em 1956, quando fracassa em recompor o perfil do operariado alemão que emerge da experiência fascista no fragmento Büsching 1954) (3):
a classe operária alemã fora "disciplinada pelo fascismo", sua "produtividade" mesma revelara-se criminosa.
Seria preciso então emancipar essa produtividade dessa qualidade no contexto da reconstrução. O levante de junho de 1953 foi o primeiro encontro da liderança com seus trabalhadores e o resultado foi um massacre. Dessa desconfiança, surgiu uma relação paranóica do Estado com os poucos canais da sociedade civil que resistiram ao gerenciamento tecnocrático da economia,
que na RDA simplesmente se sobrepôs à desestalinização das instâncias políticas.
Essa neutralização da esfera pública teve um efeito anestésico surpreendente. A expressão ideológica confusa dessa relação combinava um antifascismo genérico, calcado numa retórica da solidariedade internacional, e uma valorização chauvinista de certos traços do passado prussiano (4).
Em suma, ela só tem sentido quando a percebemos centrada no próprio imaginário da RDA, o que se confirma até com certa facilidade na leitura do conjunto da peça, e não no "terrível" antagonista.
Até agora, isso ainda não foi percebido, o que nos dá uma medida exata das dificuldades filológicas que cercam alguns dos textos de Heiner Müller, mas corresponde rigorosamente à lógica de sua composição.
A Sagrada Família
Bunker do Führer. HITLER congelado numa de suas poses. Um sino toca as doze badaladas da meia-noite. Hitler começa a se movimentar, dança, ensaia alguns passos, estuda suas poses, pega uma lata de gasolina, bebe etc.
HITLER: Joseph!
Goebbels com o pé aleijado e seios gigantescos, em gravidez avançada.
GOEBBELS: Meu Führer!
HITLER: Apalpa a barriga grávida de Goebbels: Como está nosso herdeiro. Já está se mexendo? Muito bom. Tá tomando gasolina direitinho? Apalpa os peitos de Goebbels. Os peitinhos estão bem durinhos como convém a uma mãe alemã? Muito bom. Superioridade alimentar, superioridade militar.
GOEBBELS: A gente só tem gasolina para mais três dias.
HITLER: Então se apresse para o parto. Guarda!
Sentinela com uniforme negro e cabeça de javali.
HITLER coçando o traseiro de Goebbels que se estatela de rir
Sirvam o café da mnhã!
Sai o sentinela. Um soldado. Hitler o come, terminando pela cabeça, tosse e tira os cabelos da boca.
Eu ordenei que meus soldados fossem depilados antes de comê-los. Porcaria!
Tosse e bebe gasolina.
GOEBBELS: Permita-me lembrar, meu Führer, que o círculo dos que conhecem este segredo deve permanecer restrito. O povo alemão o ama como vegetariano. Nós temos problemas com o pessoal, o cabeleireiro não pôde apresentar seu atestado de arianidade. O antigo foi transferido. Ele está barbeando o Sr. Stalin. Os desígnios da Providência são insondáveis.
HITLER esbraveja. Perfídia! Traição! Estou cercado de traidores. Eles querem me assassinar. Eles põem bombas na minha cama, facas na minha comida. Eles põem veneno na minha gasolina. Vou decapitá-los, enforcá-los, esquartejá-los. Soluça, morde o tapete. Encosta a cabeça nos peitos de Goebbels, geme.
GOEBBELS o acaricia e nina: Você é o maior. Você é mais forte que todos juntos. Eles nada lhe podem fazer. Você os castigará.
HITLER na mesma posição: Sim, cortar os dedos, as mãos, os braços, as pernas, as orelhas. Cortar o nariz. Esbaforido de rir. Arrancar o pinto deles.
GOEBBELS ameaçando-o com o dedo: É feio dizer o pinto.
HITLER jogando-se no chão e estrebuchando: Foi você quem disse pinto. Confesse que você disse pinto, traidor. Você também é um traidor.
GOEBBELS rapidamente: Sin, eu disse pinto, admito. Imploro clemência, meu Führer.
HITLER levanta, assume a pose de Napoleão: Como castigo você irá me lamber as botas. Goebbels se atira à bota esquerda de Hitler.
HITLER: A direita primeiro.
Goebbels se atira à bota direita de Hitler
Sentinela!
Sentinela.
O último relatório.
SENTINELA: Um cachorro acabou de atravessar correndo o gramado lá em cima.
HITLER: Você ouviu isso, Joseph. Eles se camuflam. Eles não ousam nos encarar de frente. Estou vendo claramente qual é o jogo deles. Eu vejo tudo. Um cachorro. Ridículo. Prossiga.
SENTINELA: Acabou de mijar no gramado. É tudo, meu Führer.
HITLER: Abra o olho. O inimigo está em toda parte.
SENTINELA: Sim, meu Führer.
Sentinela sai.
HITLER: Agora vou me dirigir ao meu povo.
Meu povo. Goebbels coloca as mãos na barriga e se estrebucha no chão gritando.
HITLER: Uma mãe alemã não grita. Sentinela!
Sentinela.
HITLER: Tragam imdeiatamente a parteira. Chegou a hora.
Sentinela sai.
São as dores. As dores começaram. Conheço isso do meu primeiro casamento. Goebbels se estrebucha histericamente. Sempre com ciúmes do seu velho Ernst? Sim, ele era um traidor. Ele também. Você se lembra como ele arregalou os olhos quando viu minha pistola. Ele não esperava por essa.
Aquele pequeno porco. Como os seus joelhos tremiam. Ele havia engordado um pouco nos últimos tempos. Descarreguei todo o cartucho. Minha mão não tremeu. Vocês o haviam pegado, você e Hermman, um traidor também. Estou cercado de traidores! Minhas costas são uma única cicatriz.
Uma punhalada atrás da outra. Eles me seguem em todos os lugares. Aqui e acolá. Caminha de um lado para o outro cada vez mais rápido, voltando-se para trás. Eles estão atrás de mim. Eles não ousam me encarar. Eles permanecem atrás de mim. Você está vendo. Mas eu vou acabar com todos eles. A Providência trabalha para mim.< Sentinela.
SENTINELA: O cachorro passou correndo novamente. Mijou novamente. (5) A parteira.
Germânia, gigantesca, com um estojo de instrumentos de parteira.
GERMÂNIA: dá-lhe um murro na barriga, estala seus dentes etc. Como está meu garotinho? Tá bebendo direitinho a sua gasolina? Comendo seus homens? Muito bom.
Agarra-lhe os testículos.
HITLER, envergonhado: Mamãe!
GERMÂNIA: Ainda com seu complexo de Édipo? Ri.
HITLER: Isso é uma porcaria judia.
GERMÂNIA: Não quero mais ouvir falar disso, já estou farta com suas histórias de judeus. As pessoas ficam me en fiando o dedo na cara. Ainda hoje mesmo. Algumas nem me cumprimentam mais.
HITLER: O judeu... Germânia lhe dá um safanão na orelha. Hitler geme.
GERMÂNIA: O quadril é muito estreito. Será um parto com instrumentos. Não se preocupem. Não tenham medo, não é meu primeiro. Estamos quase lá. Sem sacrifício, não há recompensa. Estenda bem as pernas. Respire fundo e solte o ar. Força, assim. Um, dois, um dois...
Sentinela.
SENTINELA: Os três reis magos do Ocidente (6).
HITLER: Você ouviu isso, Joseph. Eles estão interessados de novo na gente. Nós somos de novo alguém (7). O mundo ...
GOEBBELS: VOCÊS QUEREM A GUERRA TOTAL? (8)
GERMÂNIA: Cala o bico.
HITLER ao sentinela: O pelotão de honra!
GERMÂNIA a Goebbels: Você poderia passar só um pouquinho de rouge.
HITLER: Uma mãe alemã...
GERMÂNIA: Eu tenho que acompanhar os tempos se quiser voltar aos negócios novamente. Aplica em Goebbels uma maquiagem de prostituta. Pronto a Hitler: E para não dar crepe. Os homens sabem o texto?
HITLER: A Providência...
GERMÂNIA: Eu preferia estar segura.
Pelotão de honra. Cabeças de cachorros, crepe branco sobre o uniforme, botas ensangüentadas, asas de anjo, perfilam-se.
GERMÂNIA: Eles poderiam pelo menos ter limpado as botas! Tenho que fazer tudo sozinha? Mas que tremenda porcaria!
Os três reis magos passam o pelotão em revista.
MAGO 1: Nossa semente germinou.
MAGO 2: Não estou gostando das botas.
MAGO 3: Reprovado, elas também não me agradam.
MAGO 1: Não podemos perder de vista nossos objetivos.
MAGO 2: O comunismo é uma ameaça abominável.
MAGO 3: Especialmente do ponto de vista moral.
MAGO 1: Sobretudo quando se pensa nas crianças.
PELOTÂO DE HONRA: LIBERDADE DEMOCRACIA OCIDENTE PAZ NÃO HÁ LUGAR NO MUNDO COMO A NOSSA CASA ANTES MORTO QUE VERMELHO ÍNDIO BOM ÍNDIO MORTO A CADA UM O QUE É SEU UNIDADE NA LIMPEZA.
GERMÂNIA aliviada: Funcionou.
MAGO 1: O que eu estava dizendo?
MAGO 2: De fato, um novo espírito.
MAGO 3: Finalmente, as botas podem ser limpas.
GOEBBELS esbravejando: VOCÊS QUEREM A GUERRA TOTAL.
HITLER: Neste momento histórico... Goebbels solta um peido gigantesco que espalha uma nuvem de fedor que derruba os três rei magos.
PELOTÂO DE HONRA: Sieg Heil Sieg Heil Sieg Heil. Os três reis magos puxam a espada, tapam o nariz, levantam-se.
GOEBBELS: Meu Führer.
GERMÂNIA a Hitler: É evidente que isto não é nenhuma brisa. Você nunca foi um terror na cama.
Hitler grunhe.
MAGO 3: Não está cheirando bem.
MAGO 2: Não está cheirando nada bem.
MAGO 1: Não devemos nos escandalizar com tão pouco.
MAGO 3: Essas coisas são naturais.
MAGO 2: Nada de humano me é estranho.
MAGO 3: Talvez fosse o momento de entregar os presentes.
MAGO 2: Não precisamos ficar até o fim
MAGO 3: Enfim, tudo se encaminha novamente.
MAGO 1: Os presentes!
Os soldados dos três reis magos trazem os presentes e voltam.
MAGO 3: Um kit de instrumentos de tortura. Eu mesmo o testei. Acredito que vocês tenham o provérbio: "É de pequeno que se torce o pepino".
MAGO 2 : Um brinquedo moderno para o pequenino. Eu cresci com um. Fortalece a auto-estima. O funcionamento é bastante simples. Posicionao canhão, carrega-se o homenzinho e bum, com um estoque extra de negrinhos.
MAGO 1: Uma especiaria para sua cozinha. Um espécime ainda fresco. Tá um pouqinho passado. A caça foi ontem. Todos nós temos nossas pequenas fraquezas.
HITLER magnânimo: Eu não como negros.
MAGO 1: Esse fanatismo é mesmo desagradável.
MAGO 3: Vergonhoso, esse fanatismo.
MAGO 3: Ele é mesmo intratável!
MAGO J: Não vamos avacalhá-lo. Deus sabe lá quando precisaremos dele novamente.
GERMÂNIA a Hitler: Devemos marchar com os novos tempos. Isso vale para você também. Diga obrigado a esses senhores. Hitler grunhe, lambendo os sapatos dos três reis magos grunhindo. Longo grito de Goebbels.
GERMÂNIA: Senhores. Estamos prontos. Onde estão os ferros. Dêem-me uma ajudazinha. Germânia introduz os instrumentos e puxa, o primeiro mago puxa Germânia, o segundo puxa o primeiro e o primeiro o terceiro.
HITLER: Meu povo!
PELOTÂO DE HONRA: DEUTSCHLAND ERWACHE! SIEG HEIL!
OS TRÊS REIS MAGOS: HOSANA ALELUIA.
Um lobo uiva. Germânia e os três reis magos caem para trás. Diante deles, um lobo talidomida
OS TRÊS REIS MAGOS consternados: Oh!
Germânia se levanta, tira de sua caixa de instrumentos de parteira um pacote família de OMO e o esvazia sobre o lobo. Luz branca. O lobo está em pele de carneiro.
GERMÂNIA aos três reis magos: Vocês diziam que...
O lobo despedaça os bonecos dos negrinhos. Hitler tortura Germania que está imobilizada pela guarda de honra, Goebbels dança a dança de São Vito.
GERMÂNIA grita.
HITLER ri.
PELOTÂO DE HONRA: DEUTSCHLAND ERWACHE! SIEG HEIL!
GOEBBELS dançando: Felizmente ninguém sabe que eu me chamo Rumpelstilzchen.
LOBO uiva
OS TRÊS REIS MAGOS na posição de três macacos.
ALELUIA HOSANA!
Hitler carrega o canhão. Germânia é amarrada em frente a ele pelo pelotão de honra. Dispara. A cortina cai.
NOTAS
1. Engajement. In: Noten zur Literatur, Surhkamp, Frankfurt, 1991.
2. Sozialistische Einheit-Partei Deutschlands, Partido Socialista Unificado, produto da fusão do antigo KPD (Kommunistische Partei Deutschlands, Partido Comunista da Alemanha) com o SPD (Sozialde-mokratische Partei Deutschlands, Partido Social-Democrata Alemão) (N.T.).
3. Inspirado no "ativista"(stahkanovista) Hans Garbe, "Herói do Trabalho"em 1949, líder de uma brigada que reparou um forno circular para a produção de cimento, sem resfriá-lo, na Siemens Plania em Berlim Oriental. O desempenho de Garbe, bem como de outros ativistas, está na base de uma mitologização do trabalho voluntário no contexto do socialismo de caserna.
4. "Esse regime de afáveis burocratas operários, tipicamente alemão', mas instalado do lado de fora e contratado por uma potência protetora, sentado tão inconfortavelmente sobre as baionetas, somente podia referir-se - uma ironia diretamente fantástica da história - a elementos, tradições e estruturas de pensamentos análogos na própria sociedade, procurando mobilizar para si, a despeito da retórica constantamente cantarolada da revolução e progresso, que parecia sempre mecânica e de pouca credibilidade, precisamente os conteúdos reacionários, prussianos, imperiais (em alguns pontos até fascistas) do passado: o passo de ganso do Exército Popular Nacional simbolizava mais que uma simples herança militar. Aqui uniam-se o estatismo bolchevista e o prussiano, os produtos do desenvolvimento recuperadores do capital de épocas diferentes, penetrando os poros da sociedade até formar um conglomerado particularmente repugnante. Surgiu assim uma mistura de correios alemães, acampamento de escoteiros permanente, desde o berço até a sepultura, e economia de comando militarizada. Se a União Soviética já precisava ter uma economia de guerra mais acentuada do que na própria situação de guerra, a RDA tornou-se agora mais soviética do que os sovietes e, precisamente por isso, mais prussiana do que os prussianos. Economia em passo de ganso e socialismo de caserna produziram na RDA um fenômeno extraviado na evolução da modernização capitalista que na biologia deveria ser chamada de pesadelo darwiniano." Robert Kurz, O Colapso da Modernização, Paz e Terra, p. 66.
5. Um pouco do detalhismo de Müller. Na cena anterior, o rei da Prússia bavia afirmado que nada acontecia em seu reino sem que ele ordenasse. Trata-se da estilização da fábula do moleiro de Potsdam, que incomodava Frederico II. com o barulbo de seu moinho. O cachorro sai do espaço da fábula, alegoria da liberdade civil, e passeia pelo Bunker sem que ninguém possa fazer nada (N.T.).
6. Pela ordem de aparição: Estados Unidos, Inglaterra e França (N.T.).
7. "Wir sind wieder wer" lugar-comum do orgulho nacional que se generalizou depois da vitória da seleção alemã no Mundial de 1954 na Suiça em meio aos primeiros sinais positivos da reconstrução (N.T.).
8. Discurso pronunciado no Berliner Sportpalatz, em 18 de fevereiro de 1943, três semanas após a capitulação em Stalingrado. Goebbles oferece o martírio ao povo alemão, através de uma cruzada para salvar o Ocidente (N.T.).
* Colaborador da CULTURA VOZES
Publicado em Cultura Vozes, No. 5, Ano 89, Volume 89, Setembro-Outubro de 1995, p. 146-158.
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